A plenitude poética na distraída Kátia Borges

por Vivian de Moraes

Fazer poesia não é fácil como possa parecer para diletantes. Não é só abrir o coração e falar do que se passa, da dor, do amor, do cotidiano e, principalmente, fazer metapoesia chinfrim. A poesia só se resolve no sublime, e Kátia Borges, em O exercício da distração (Penalux, 2017), a alcança em plenitude. Outros livros dela, como Ticket Zen, prenunciam a maturidade, agora plenamente alcançada. A distração de Kátia Borges faz franzir o sobrecenho, faz sorrir, faz entristecer. Porque, na sua distração, a poeta nos leva a um caminho de concentração: a percepção de nossa existência material e transcendente.

O exercício da distração é dividido em três partes: Como se fosse o órgão vivo, Fugas extraordinárias e As pequenas vilanias da cidade. Na primeira, o eu lírico de Kátia transborda distrações e atenções que se reclinam sobre o cotidiano olhado com uma lupa. A técnica é apurada e perfeitamente poética. O primeiro poema do livro enuncia:

 

Temos vagas

Não há por que cultivar no peito
esse canteiro de taquicardias.
Todos os meses
estrangulamos um jardineiro.

O último veio em setembro, 18 anos.
Era uma menina. Durou menos
que o rapaz de fevereiro.
Exatamente 21 dias.
[…]

 

Aqui temos um poema que começa dilacerante. “Canteiro de taquicardias”, além de ser uma metáfora que vai se encaixar com a chegada dos jardineiros que as provocam e que são estrangulados, é uma bela imagem que parece assolar cada um de nós. Ou não temos todos os nossos canteiros de taquicardias, de que cuidamos com amor ou com desprezo?

O poema que dá título ao livro também está na primeira parte, destacado, em uma página preta – diga-se de passagem, a arte do livro é muito bonita. É o que segue:

 

O exercício da distração

Não saber me aconselha

finjo que faço de manhã
o exercício da distração

estou a salvo dentro
do movimento

as três moedas saltam gélidas
de minhas mãos

Não saber me aconselha

estou correndo lento e suave
dentro das manhãs

há uma sequência irregular de dias
agônicos no calendário

e aos poucos me acostumo
com esta flor no peito.

 

De novo a jardinagem do amor, só que, agora, de uma perspectiva da ignorância: “Não saber me aconselha”. Essa intimidade entre um e outro poema já dá a ideia do todo que o livro consolida página a página. A distração, a dor, a saudade e a beleza se esparramam em linhas e linhas se costurando numa obra acabada.

 

Creio que o mais pungente poema da primeira parte seja Caixa preta, feminino e masculino, fértil e estéril:

 

Caixa Preta

Como quem rasga o peito e não discute
suturas para o peito aberto

Pouco importa andar com o coração à mostra
os seios nus repartidos pelo esterno

fissura entre as costelas – a dor das tais fissuras
– que se tem quando se rasga o peito

 

Esse poema dialoga com Cais, também da primeira parte, que se encerra assim: “Meu peito intui naufrágios/ e amores que já nem sente”. É possível observar uma costura, talvez alguma que possa fechar a “fissura entre as costelas”?

A segunda parte tem uma pequena epígrafe de Adília Lopes e, estranhamente, um poema que homenageia Florbela. Certamente Kátia não leu Florbela Espanca espanca, de Adília, ou teria tomado partido. Ou não? Tratar-se-ia, aqui, de uma incongruência planejada para causar estranheza? O certo é que Kátia tem muito de Florbela e um tanto de Adília também. São perceptíveis as influências ao longo do livro. Por exemplo, de Florbela há o derramamento da jardinagem já mencionada e outros versos ao longo da obra. De Adília, não há o deboche descarado, não é o estilo de Kátia, mas há uma certa rebeldia, como em Esse afeto me queima a fronte: “Deus me ama tanto que me constrange./ Não o mereço, que bem lhe fiz?”
Fugas extraordinárias é um poema que também tem contestação e rebeldia:

 

E então esta coisa toda
é como um pássaro
que pousa um instante
no gradil, a descansar o voo,
a refrear o impulso,
o frêmito das asas.

E então esta coisa toda
é como um pássaro,
e talvez seja inútil
correr em busca da máquina
fotográfica (que já nem se usa)
a ensaiar algum registro
ou ainda, mais tolo rito,
um contato táctil.

E então esta coisa toda
é mesmo como um pássaro,
e nos deixa, rumo ao céu,

as mãos vazias,
o coração em brasa
talvez um pouco mais ateus.

 

Como pode a beleza gerar descrença? Tal poema é de uma tristeza, se pensarmos. É a fugacidade, a correria, o motivo da não retenção do momento, afinal, a câmera “já nem se usa” e, ainda que se usasse, não captaria a poesia do momento. Pode-se dizer que este é um metapoema dos mais inteligentes, que trata da situação poética, sem o apelo desnecessário a recursos banais de realização de metalinguagem.

A terceira parte do livro tem em As pequenas vilanias da cidade o seu poema-título. Essa parte, com apenas oito poemas, é um pouco mais descolada do resto do livro, foca mais em Salvador, cidade em que a poeta baiana vive. Mas a distração ainda está aqui: “Por sermos cronópios, deixamos/ o erro nos levar à estrada de volta. […]” Cantagalo e Baía são dois outros ótimos poemas nessa seção de O exercício da distração.

Os “esquecimentos” do livro todo são deliciosos. “Tenho esquecido facilmente/ a água fervendo no fogão/ pro café até que seque/” etc., em O rol dos dias. Ou: “Tenho me ocupado de coisas práticas.” (Pragmatismo). É um livro que pede uma leitura lenta, que aprecie as palavras, que acaricie seu papel. E, tão cheio de esquecimentos, pode-se tornar um livro que jamais se esqueça.

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