Uma vida em Segredo, de Autran Dourado

por Cahoni Chufalo

São Bernardo, do Graciliano, O Amanuense Belmiro, do Cyro dos Anjos, e Uma vida em Segredo, do Autran Dourado, são lembranças que fazem parte do meu afeto”. Raduan Nassar começa assim sua resposta à clássica pergunta sobre suas influências literárias. É sempre bom quando um autor revela tais influências. O leitor curioso pode segui-las e ver pontos de contato e divergências entre as obras.  E pode também conhecer autores que até então desconhecia. No meu caso, ao ler a resposta de Raduan, fui logo ler a obra inédita para mim: Uma vida em Segredo, de Autran Dourado.

Um autor puxa outro autor, um livro puxa outro livro. Logo no prefácio de Uma Vida em Segredo (Editora Prumo, 1ª edição, 2008) diz-se que a história foi comparada a um conto de Flaubert, Uma Alma Simples (Um coeur simple). Por sorte tinha o texto em minha modesta biblioteca e, claro, li os dois. Saí de Raduan, passei por Autran, cheguei a Flaubert. Mas volto a Autran.

O livro é curto. A história é simples. Paro aqui, cauteloso. Será uma boa ideia resumir o enredo do livro já que o próprio autor nos adverte, em outro texto, que “o crítico, ao dar o resumo de um romance, presta um desserviço ao autor, pois nada há de mais acidental e secundário num romance do que o enredo, que é apenas um dos elementos de sustentação da história, a maneira que o escritor encontra de manter viva a atenção do leitor”? Com o risco de prestar um desserviço a Autran, arrisco um resumo do enredo, simplesmente para, como disse o próprio, manter a atenção do leitor. Sendo um dos elementos do romance, é importante que o leitor da crítica saiba minimamente do que se trata o livro.

O livro é curto, a história é simples, como dizia. Biela, menina de fazenda, perdera a mãe muito cedo. Ficou morando na Fazendo do Fundão com seu pai Juvêncio, homem um tanto excêntrico. Logo o pai também morre e Biela se vê obrigada a deixar a fazenda e ir morar na cidade com o primo de seu pai, Conrado. Ele, a esposa Constança, mais os filhos do casal serão sua nova família.

O deslocamento de Biela da fazenda para a cidade, de uma família minúscula para uma grande, de uma vida muito singela para uma mais agitada, é o que impulsionará toda a narrativa. Desde que chega à nova casa, Biela não se adapta. Não tem os mesmos costumes, os mesmos hábitos, os mesmos valores dos que vivem ali. Vive isolada, trancada no quarto, lembrando de sua antiga vida na fazenda.  Constança incentiva-a a comprar novas roupas, possuía o dinheiro que o pai lhe deixara, poderia gastar e vestir-se bem. Mas os novos vestidos lhe caem mal, tão mal quanto o novo lar. Não parecem feitos para vestir alguém como ela. Vira alvo das piadas dos filhos do casal.

Da família, Biela só gosta de Mazília, que tocava piano divinamente. Tão logo Mazília se casa, acaba o elo que ligava Biela à família. Tampouco no amor Biela teve sorte. Pretendida por um filho de um amigo de Conrado, tornam-se noivos. Pouco antes do casamento, porém, o noivo foge. Biela, como sempre, cai no seu isolamento, ressentida e saudosa de sua velha vida.

A inadaptação de Biela pouco a pouco a conduz àquele que seria seu movimento principal: buscar sempre a maior simplicidade. Renuncia aos confortos de uma vida burguesa, não usa o dinheiro de sua herança, rejeita os mimos e as amizades que Constança queria lhe dar. Sente-se mais à vontade com Gomercindo e Joviana, os empregados da família. Passa a se interessar pelo trabalho doméstico. Passa a gostar de conversar com os empregados das outras casas. Gosta da simplicidade dessa gente e com eles se sente bem.

Biela parece ter medo de perder alguma coisa que traz dentro de si, algo forjado desde sua infância, com a vida na fazenda e com a breve convivência com seus pais. Parece que o contato com hábitos e pessoas tão diferentes ameaça sua intimidade, seu jeito de ser. Vive sempre em guarda, hostil à quase tudo a sua volta. Só consegue ser espontânea quando em companhia dos empregados. Nesses momentos, sua desenvoltura, rara, impressionava quem a visse:

Ninguém, nem ela, nunca imaginou que pudesse prosear assim tão solta. Ficavam gostando cada vez mais dela, tão boazinha, tão simplesinha para quem tinha posses, tão prestativa. Num instante esqueceram as origens, as posses de prima Biela: viam ali uma pessoa igual a elas, nenhuma diferença.

E assim vivia Biela. A família, conformada com sua escolha. Ela, próxima dos empregados, mas sempre solitária, trancada no seu mundo. Até que surge sua derradeira companhia: um cachorrinho. Chama-o de Vismundo. E foi ele o único capaz de receber todo o afeto empoçado que Biela trazia consigo. Com Vismundo, Biela era toda beijos, abraços, carinhos, brincadeiras. Protegia-o, tinha ciúmes dele. Amava-o. Pela primeira vez achou uma companhia ideal, a sua companhia ideal. Era com Vismundo que sentia-se plena.

Mas Biela, precocemente envelhecida, logo adoece e morre. Mesmo no hospital, prefere ficar na enfermaria geral do que ter o conforto de um quarto individual. Sua última manifestação de simplicidade.  E Vismundo é sua última imagem:

O último a se fundir no azul foi Vismundo, que ainda perseguia os derradeiros pássaros no céu.

Daí podemos retornar a Flaubert. Compare-se a última frase de Autran com a última de Flaubert em Uma alma simples:

(…) e quando exalou o último suspiro Felicité acreditou ver nos céus entreabertos um gigantesco papagaio planando sobre sua cabeça.

De fato há semelhanças entre Biela e Felicité. Há uma busca constante por uma simplicidade cada vez maior. Há o amor por um bicho de estimação (o cachorro Vismundo de Biela; o papagaio Lulu de Felicité). Há um noivado frustrado. E há uma narrativa centrada numa única personagem. No prefácio de Uma vida em segredo fala-se que o livro pertence ao gênero novela, por ser algo entre o conto e o romance. Sem querer entrar numa discussão de gêneros (os literários, bem entendido) talvez ambos os textos possam ser considerados contos longos, já que, embora cronologicamente cubram um tempo longo, as ações e episódios se concentram numa única personagem.

Mas a diferença entre Biela e Felicité é que a segunda é empregada da Sra. Aubain. Tem por esta uma incrível devoção (e nisso lembra mais a personagem Adélia Pinto do conto Aquela Destelhada, do próprio Autran), capaz de gerar inveja nas outras madames. Biela é parente de Conrado e Constança e não sente por eles nenhuma afinidade. Prefere voluntariamente a vida entre os empregados e a solidão do seu quarto. O que ambas têm, talvez, é um fundo afetivo estagnado, que não encontra escape em nenhum lugar e é ocultado por trabalho, distrações e lembranças. Ambas parecem sentir que suas vidas íntimas precisam permanecer inacessíveis, evitando assim qualquer choque mais bruto com o mundo. Não é por acaso que ambas só se entregam plenamente a um bichinho de estimação, seres incapazes de gerar a menor frustração. A simplicidade que ambas cultivam, e pela qual são reconhecidas, disfarça a turbulência de suas vidas interiores, seus medos, angústias, fragilidades.

Talvez Raduan tenha captado de Autran algo dessa íntima turbulência que alguns de seus personagens também têm. E Autran tenha se inspirado no conto flaubertiano para moldar a sua Biela, embora diga que esta lhe veio num sonho. Um livro puxa outro, um autor puxa mais um. Transitar por eles e perceber o fio, ainda que frágil, que os liga é um dos prazeres de ser leitor.

 

 

Cahoni Chufalo é formado em Letras, com pós-graduação em crítica e curadoria de arte

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