LEBERTAS QUAE SERA TAMEN DE REINALDO ARENAS

por Nara Vidal

Numa entrevista ao New York Times, na década de oitenta, o escritor cubano Reinaldo Arenas diz que entre as coisas que mais odeia estão o dogma, seja religioso ou político e sua consequência, o fanatismo.

Injustiçado e engolidao não só pelo regime de Fidel Castro, mas pelos revolucionários fanáticos e portadores de uma cegueira incurável, Arenas, com sua inteligência sofisticada e ironia brilhante seja talvez, um dos dos raros casos de indivíduos profundamente politizados e capazes de , justamente, prestar contas críticas de lados polarizados e justapostos do comunismo e do capitalismo.

Alimentado por boas intenções e a necessidade de se livrar do provincianismo no qual cresceu, Arenas deixa a família em Oriente, interior de Cuba para se juntar aos rebeldes da revolução cubana.

Reinaldo Arenas talvez tivesse tido uma história e um final de vida diferentes não fosse uma única questão: Arenas era gay e apesar da indiscutível excelência cubana em educação e saúde, o líder Fidel Castro e seus seguidores, tão arraigados ao machismo latino americano, não possibilitaram a liberdade ao ponto da convivência pacífica com as diferenças.

Arenas foi enviado a campos de trabalho forçado, mas possivelmente o que mais tenha afetado sua dignidade no seu país tenha sido a impossibilidade de ser publicado em Cuba sob a ditadura de Fidel. Sobre esse ponto, Arenas com seu sarcasmo aguçado comentava que num país onde poucas pessoas leem, é um alento saber que ao menos a polícia presta atenção em cada linha criada em seus manuscritos. Há ainda que se questionar sobre o boicote da Casa de las Americas ao autor, especialmente no que se refere à literatura de “testemonio”, aquela que denuncia a lutas armadas de ditaduras militared contra camadas oprimidas de povos indígenas e do campo. A opressão aos homessexuais parece não ter tido, naquele momento, o peso e importância merecidos.

Não há mal algum em expor esse lado repleto de rachaduras no regime de Fidel. É imprescindível olharmos com crítica e questionamento a razão pela qual tantos gays eram massacrados, torturados e aprisionados duranrte a ditadura cubana. A Educação, a Saúde e a baixíssima taxa de analfabetismo continuam sendo inquestionáveis glórias daquele tempo. O próprio Arenas se beneficiou de um curso de Letras de excelência numa universidade de Havana.

Mas, como estou de acordo com o autor de O Porteiro e A Velha Rosa, também não me desdobro para compreender fanatismos, e entender criticamente, seja um regime, seja uma ditadura, é a base para expor com credibilidade os sucessos e glórias, alertando, em contraponto, para as atrocidades.

Uma perseguição aos homossexuais é uma atrocidade e mesmo que exista a tentativa de maquiar e ignorar práticas de perseguição de minorias, Arenas documentou com sua ficção inteligente o disparate entre os príncípios de liberdade pregados por Fidel Castro e o sequestro da sua própria emancipação no seu país.

A dificuldade dentro do comunismo em aceitar o homossexualismo parace revoar como um eco ainda em Cuba nestes dias quase tanto quanto na Rússia, cujo governo ainda persegue e mata grupos gays com a crueldade ao não assumir tais crimes.

Apesar da promessa de um recomeço em Nova York, Arenas rapidamente conclui que não há solução entre o comunismo socialista de Fidel e o capitalismo selvagem dos Estados Unidos. Entre a cruz e a espada, Reinaldo Arenas desenvolve temas que criticam, ainda que com melancolia e claro senso de humor a incompetência do mundo e seus líderes.

Seus textos são repletos de crítica social, mas seus elementos agressivos, corrosivos e violentos encontram imensos sensibilidade e lirismo de linguagem dando ao leitor, como resultado, um impacto reticente, que reverbera.

Um dos seus poemas mais conhecidos, “Aquela criança de sempre”, a universalidade da miséria infantil que ensaia crimes num ciclo interminável.

 

Aquela criança de sempre

 

Sou esse menino desagradável,

sem dúvida inoportuno,

de cara redonda e suja,

que fica nos faróis,

onde as grandes damas tão bem iluminadas,

ou onde as meninas que parecem levitar,

projetam o insulto de suas caras redondas e sujas.

 

Sou uma criança solitária,

que o insulta como uma criança solitária,

e o avisa:

se por hipocrisia você tocar na minha cabeça,

aproveitarei a chance para roubar-lhe a carteira.

 

Sou aquela criança de sempre,

que provoca terror,

por iminente lepra,

iminentes pulgas, ofensas,

demônios e crime iminente.

 

Sou aquela criança repugnante,

que improvisa uma cama de papelão

E espera, na certeza,

que você me acompanhará.

 

Mas acredito que seja “Antes que anoiteça”, seu livro, dos que eu conheço, o mais comovente. Por ser uma autobiografia, transborda pontos de vista riquíssimos e nos coloca diante de um homem de enorme inteligência e uma cultura ampla, despretensiosa e muito rica. Mas a linguagem, a forma, a qualidade literária nos tocam com inquestionável impacto e violência, ainda que contenha passagens pontuadas por amor, sensibilidade e ternura.  Um livro importante para a literatura de diáspora, uma obra que representa em mim o desequilíbrio de viver em metades, de ter dois países e nenhum.

É no final de “Antes que anoiteça” que Arenas deixa uma nota suicida extremamente poderosa e definitiva, onde culpa Fidel Castro e somente ele pelas dificuldades e pela tragédia que rondam sua vida, ao fim:

“Queridos amigos: Debido al estado precario de mi salud y a la terrible depresión sentimental que siento al no poder seguir escribiendo y luchando por la libertad de Cuba, pongo fin a mi vida. En los últimos años, aunque me sentía muy enfermo, he podido terminar mi obra literaria, en la cual he trabajado por casi treinta años. Les dejo pues como legado todos mis terrores, pero también la esperanza de que Cuba pronto será libre. Me siento satisfecho con haber podido contribuir aunque modestamente al triunfo de esta libertad. Pongo fin a mi vida voluntariamente porque no puedo seguir trabajando. Ninguna de las personas que me rodean están comprometidas en esta decisión. Sólo hay un responsable: Fidel Castro. Los sufrimientos del exilio, las penas del destierro, la soledad y las enfermedades que haya podido contraer en el destierro seguramente no las hubiera sufrido de haber vivido libre en mi país. Al pueblo cubano tanto en el exilio como en la Isla los exhorto a que sigan luchando por la libertad. Mi mensaje no es un mensaje de derrota, sino de lucha y esperanza. Cuba sera libre. Yo ya lo soy.”

 

Gostaria que Arenas fosse mais conhecido e lido no Brasil. Há tanta riqueza na sua obra. A abrangência de temas que vão do homessexualismo ao exílio nos promovem fontes de reflexões inesgotáveis e questionam convicções. Fazem-nos, enfim, pensar em liberdade.

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Um comentário

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  • Adriano Guilherme de Almeida
    21 setembro 2017 at 10:25 pm
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