Memórias sexuais de um doido e seu lobo branco

Por Vivian de Moraes

O enterro do lobo branco (Patuá, 2017), terceiro romance de Márcia Barbieri, tem linguagem inovadora e enredo atraente. Narrado por um doido que se vê às voltas com médicos, uma enfermeira ninfomaníaca, militares que sodomizam e são sodomizados e um transportador de defuntos, entre outros, o livro segue a linha pornográfica de A puta, romance anterior da autora publicado pela Terracota em 2014.

O livro é dividido em três partes, O assassinato, O velório e O enterro, sendo a primeira mais longa e a última a mais curta. Utilizando um recurso poético de incluir entre parágrafos alguns entre colchetes, sempre começando por “Haverá um tempo…”, Márcia cria um problema estético para sua obra, pelo menos em parte. Na primeira seção do livro, o excesso desses parágrafos pausa demais a narração, que, na obra toda, é feita sem pontuação, e com mestria, diga-se de passagem. Assim, a leitura do começo do livro é “quebrada” por um recurso estético até dispensável ou, pelo menos, redutível. Mas se a primeira parte do livro não flui como o leitor espera, a segunda e a terceira cobram uma leitura corrida, em que não se larga o livro, e a delícia das putarias elencadas, mais a maluquice do protagonista, fazem realmente a leitura valer a pena.

Logo na primeira parte a autora lança os dados da doidice de seu personagem-narrador: ele tem ou ama uma mulher que são muitas: Pare de ficar me remendando como se eu fosse um louco ou como se eu tivesse mal de Alzheimer não me diga que o seu nome não era Catarina Alice Stela Augustina ela continha no seu corpo todos os nomes do mundo e pouco me importa como eu a recordo […]. Outro nome que surge depois é Esther. O personagem-narrador chega a chamar a mesma mulher por dois ou três nomes no mesmo parágrafo, o que sem dúvida é muito divertido.

É na primeira parte que Márcia utiliza a sua narração para o estabelecimento de formas de poder conflitantes. Ora o doido está num manicômio, ora envolvido com oficiais de caserna, com quem pratica sexo de forma ora passiva, ora ativa, desafiando-os; ora está em um hospital longe de tudo onde há um médico estrangeiro e sua irmã gêmea que se esfrega nele, com quem mete até mesmo pouco antes de amputar uma perna – o hospital é tão ermo e mítico que a anestesia é cachaça; enfim, as aventuras são muitas e o recurso de não utilizar pontuação (exceto ponto de interrogação invertido) formam um todo divertido. Como foi dito, apenas os muitos parágrafos entre colchetes cortam o bom ritmo da obra nessa primeira parte, além de uma ou duas passagens um pouco repetitivas.

Mas como também já foi dito, se a primeira parte do livro tem problemas de estilo para o desenvolvimento de uma narração fluente, a partir da segunda parte, quando o personagem-narrador encara sua Catarina Alice Stela Augustina Esther morta e começa uma jornada em torno de sua morte, a relevância artística do livro é incontestável. Tudo o que começa a se desenrolar, até chegar à terceira parte, em que o nonsense predomina, e o fim do livro, impactante, fisga o leitor e lhe oferece uma surpresa após a outra. “O que vai acontecer?” é a pergunta que impele, que faz o leitor acelerar a leitura e buscar o “lobo branco” que, na realidade, é uma metáfora mencionada apenas três vezes ao longo da obra. Há, sim, um cachorro branco; há também zoofilia e necrofilia na pornografia do universo caótico que Márcia instaura por meio de seu narrador, e o tal lobo branco é uma alegoria de toda a carnavalização triste do livro no geral.

Há tiradas engraçadas, como […] desistam se quiserem fazer a autópsia toda a merda que evacua por uma matéria orgânica que ainda pulsa a verdade é que não exumarão meu corpo NUNCA!!! só por cima do meu cadáver.

Se em A Puta o personagem-narrador é feminino e é a própria puta do título, em O enterro do lobo branco Márcia instaura um personagem-narrador masculino, mas que põe em relevo o corpo feminino mais uma vez, mesmo no embaralhamento dos nomes e pessoas. Creio que há apenas uma diferença em relação à forma de exposição. Em A puta, todo o desejo nasce e morre na mulher, e no “lobo”, a mulher é o objeto de adoração, ainda que seja um corpo inerte, mas múltiplo. O homem, aqui, é mutilado, porque tem uma perna amputada numa caixa roxa que não tem como descartar.
Uma semelhança curiosa ocorre no desfecho dos dois livros: o surgimento de uma grande novidade, um aparecimento. É claro que não vou dizer como terminam as obras, mas são grands finales.

Márcia Barbieri é isso e muito mais: talentosa, divertida, pervertida, antenada e desbocada. Sensível ao universo feminino, em O enterro do lobo branco o situa dentro de uma masculinidade principal, a do seu narrador-personagem, e de outras, como o marido da Catarina Alice Stela Augustina Esther, que é um negro pelado na sala de velório. Aliás, esse negro de Márcia dialoga com o livro Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra de Mia Couto: esse negro abre o telhado para a alma da defunta subir ao céu e há a cópula com o corpo inerte.
No site da Editora Patuá está o comecinho do livro. Leia também aqui:

Parte I – O assassinato

[Haverá um tempo em que penetrarei nas bifurcações do jardim e encontrarei todos aqueles homens iguais e franzinos velando o grande lobo branco. E ele não soltará um uivo ele não acuará nem devorará sua presa ele ficará estático esperando a hora certa da cova se abrir diante de suas patas defeituosas. Ele esperará a hora certa do ventre engolir seu crânio e a sua medula abrirá ao meio e dará origem a novas e insignificantes constelações.]

E a terra abrirá fossos no céu da boca e eu encontrarei fissuras aftas pétalas adormecidas na língua ressecada e eu direi nevermore para as convulsões e não esquecerei mais meu nome porque esta será a última epilepsia e eu sussurrarei nos ouvidos dos vivos a morte não passa de uma epilepsia profunda catalepsia eterna salivarei a gosma branca e amnésica e acenarei adeus e as pombas-gira dançarão sobre minha cova

[Haverá um tempo em que penetrarei à força pelas extremidades do seu corpo lúcido me embrenharei nas ramificações dos seus vasos sanguíneos forçarei cada minúscula veia até encontrar a de maior calibre introduzirei minhas presas na sua jugular esperarei o sangue jorrar amordaçarei sua boca algemarei sua língua e depois te farei engolir meus pensamentos e quando você imaginar que está tendo uma ideia originalíssima destruirei os espelhos ao redor da sua casa e você descobrirá que o homem não passa de um simulacro pretensioso do monstro e o monstro habita embaixo da sua cama]

Em menos de um minuto encontrarei as raízes as portas escancaradas os bulbos os tubérculos profundos das plantas alucinógenas libertarei meu corpo desse som moribundo e oco provocado pelo atrito com as coisas sem vida serei inteiro plenitude não vigiarei mais as mulheres putas nem dormirei velando o sono dos vagabundos não abrirei mais as vulvas fétidas do seu cérebro meu pau não terá mais a vontade louca da ereção e morto desprezará todo buraco

Em menos de um minuto segurarei os braços dos meninos raquíticos impedirei que o sangue coagule em suas veias defenderei seus corpos murchos dos animais ferozes estourarei seus tímpanos para que não escutem a dança das cobras nem os chocalhos das cascáveis amarelas arrancarei seus globos oculares para que não sintam a ameaça iminente da morte abrirei com minhas mãos parcas as suas covas para que não caiam na trapaça dos fantasmas negros devorarei o resto de suas carnes para que não apodreçam ou renasçam nos ventres das mulheres vadias plantarei margaridas em seus túmulos para que um dia despertem amnésicos e loucos clamem por uma nova vida ordinária

Em poucos segundos minha garganta terá os músculos relaxados a respiração se tornará ruidosa e tomará o ritmo vagaroso dos animais agonizantes a presença dissimulada do estertor da morte meu coração não mais se repartirá entre ventrículo direito e ventrículo esquerdo a aorta não possuirá privilégio sobre as artérias menores meu membro conhecerá a lucidez das coisas flácidas e sem vida minha carapaça romperá com o mesmo vigor que se despedaçam as carapaças dos caranguejos azuis minhas pernas se quebrarão e sem ossos tomarão a forma de nadadeiras e eu poderei experimentar a letargia de mergulhar nas águas das cidades litorâneas enquanto cavalos marinhos copulam ao lado do meu corpo morto

[…]

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