Enfrentando a correnteza

Um dos nomes à frente da editora Le Chien, escritor Dieter Axt diz acreditar em poder de reinvenção e oposição da literatura em tempos de crise
Foto de Emilia Abel

por Tiago Germano

 

Terno e gravata contrastam diretamente com a profusão de fitas de couro que ele leva amarradas no pulso. Por baixo do traje formal de servidor público, Dieter Axt faz questão de insinuar um estilo de vida bem diferente do imposto pela rotina dos escritórios que frequenta. Autor das novelas “Contemple a Aurora” (2015) e “Cabo Polônio” (2016), ambas lançadas pela editora que fundou em parceria com o amigo Lucas Moser Goulart, o escritor e editor à frente da Le Chien parece fugir aos estereótipos impostos pela sua dupla, ou tripla, função. Na conversa que teve com o LiteraturaBR, Dieter Axt falou de sua crença na literatura em períodos de crise e sobre a breve experiência de isolamento que teve para escrever o seu último livro, que se passa num pequeno povoado do Uruguai. O escritor refletiu ainda sobre a interface da literatura com o direito e sobre o posicionamento da Le Chien no mercado editorial independente.

Num momento particularmente difícil para o mercado literário, em que as livrarias de bairro (como a Palavraria e a Sapere Aude, aqui em Porto Alegre) estão fechando suas portas; as editoras se fundindo para se manter no mercado e as políticas de leitura rareando cada vez mais, que tipo de convicção leva alguém a abrir uma editora?

O fechamento de livrarias de calçada em Porto Alegre, como os recentes casos da Palavraria e da Sapere Aude, é grave e merece atenção. É possível que Porto Alegre demore dez anos para construir um espaço como o da Palavraria, por exemplo. São perdas irreparáveis, não só do ponto de vista sentimental e afetivo, mas especialmente porque o cenário de encolhimento do mercado de livros e da própria economia brasileira, que vem lutando contra uma recessão que se demonstra significativamente duradoura, não nos permite imaginar que a ausência desses lugares será suprida em breve. Vejo com profunda tristeza a forma como a cultura e, por consequência, empreendimentos como as livrarias de bairro são afetados de forma, muitas vezes, implacável por crises econômicas. Livrarias de calçada, além de, historicamente, sempre terem aberto as portas para escritores locais, dão vida para os seus bairros, compõem o próprio palco vivo onde se desenvolve o espetáculo da cidade. Porém, é preciso, sobretudo, enfrentar a correnteza, fazer com que a roda siga a girar. Livros e editoras já surgiram em momentos muito mais difíceis e sérios da História, que envolveram, inclusive, repressão, perseguição e censura prévia – para citar um caso recente, estima-se que cerca de 40 editoras de oposição tenham surgido, no Brasil, entre os anos de 1974-1984, em plena Ditadura Militar[1]. Conta-se, também, que, na Renascença, o editor Aldus Manutius criou as edições de bolso e os caracteres itálicos, a fim de rentabilizar as suas publicações e enfrentar um período de baixa do mercado. Os caracteres itálicos permitem inserir mais conteúdo dentro de uma página. Veja a sua significativa contribuição, portanto. A sua marca registrada era o adágio latino “Festina lente” (“apressa-te devagar”), creditado ao Imperador romano Augusto e que, em linhas gerais, significa que o trabalho, apesar dos prazos, deve ser executado com afinco, precisão e sem pressa. Concluindo, portanto, acredito que seja uma característica inerente à Literatura: a de se reinventar quando o cenário revela-se o mais desfavorável. A importância da Literatura (re)nasce sempre que enfrentamos dificuldades. Por princípio, a Literatura não se curva diante de circunstâncias desfavoráveis. A convicção que nos motivou é a convicção na Literatura.

“Cabo  Polônio” foi escrito ao longo de 20 dias em uma viagem que você fez para o Uruguai. Em que medida essa experiência de isolamento contribuiu para a escritura do livro?

O isolamento foi essencial, para que cada hora do meu dia fosse dedicada inteiramente à escrita do livro: a interpretação das obras literárias que li eram direcionadas à narrativa que pretendia implementar; as (poucas) conversas com moradores do local, a vivência solitária na casa, a observação, a contemplação, idem. Foi uma grande experiência cujas dificuldades pessoais eu não pretendo romancear. Sobretudo, se tratou de uma vivência dolorida, porém saudável. Após os primeiros dias, quando consegui sobrepor, digamos, minhas carências pessoais e afetivas, preencher os espaços vazios e mergulhar no isolamento, senti que poderia atingir qualquer objetivo no mundo. Era como se tivesse, enfim, encontrado o trilho a ser seguido. E a narrativa surgiu espontaneamente. Afastado de qualquer interferência externa, sem telefone, sem internet, sem amigos, sem máquina fotográfica, senti a necessidade de ir fundo em cada sentimento, em cada sensação, em cada momento, almejando eternizá-los no papel (nem que fosse apenas para mim). Quando me propus essa viagem, eu pretendia retomar a escrita. Mas não possuía um roteiro ou uma agenda a ser seguida. A narrativa surgiu, na medida em que as experiências aconteceram. Pretendo repetir.

Noto um certo diálogo do teu romance com outras obras que retomam esse tema da fuga da cidade, como “A Vez de Morrer”, de Simone Campos; o “Ruína y Leveza”, da Julia Dantas; o “Barba Ensopada de Sangue”, do Daniel Galera; e o “Biofobia”, do Santiago Nazarian. Por que você acha que esse tema, que parecia adormecido desde o Arcadismo, lá no século 18, tem sido tão recorrente na literatura, hoje?

Tens razão, foi uma feliz surpresa quando comecei a leitura de “Ruína y Leveza”, de Júlia Dantas. Pensei: “talvez tenhamos mais em comum do que imaginássemos”. Encontrei no livro de Júlia muitas interrogações que, da mesma forma, permearam “Cabo Polônio”. Pretendia convidá-la para um café, a fim de discutir o seu ponto de partida e suas conclusões. Coincidentemente, as demais obras citadas, também, desenvolvem narrativas considerando esse elemento. No entanto, eu não sei se classificaria como uma fuga urbana, um fugere urbem, necessariamente, ao estilo árcade. Parece faltar o elemento da idealização, da exaltação pastoril da natureza. Muitos escritores, já ao longo da segunda metade do século 20, procuraram refúgios nos quais (e sobre os quais) escrever: Henry Miller, Jack Kerouac, William Burroughs, Allen Ginsberg, para citar alguns. Antes deles, há a eloquente experiência de Thoreau, retratada em Walden, ou o próprio escapismo romântico. Quero dizer, há uma tendência de que essa experiência se repita em diferentes épocas. Mas não penso que se trate de empresas similares. Há uma complexidade contemporânea que não pode ser ignorada. Atualmente, eu identifico, antes do escapismo, uma tentativa de se reposicionar perante a cidade, tanto na perspectiva individual, quanto no contexto intersubjetivo, o que pode ser favorecido através de um afastamento necessário. Um reencontro, à procura de sentidos e de valores que transcendam à pauta cotidiana urbana banal. Parece-me que o incessante bombardeio de informações e a velocidade com que se tomam decisões, além da propagação de “modelos de sucesso”, passam a atuar sobre a sensibilidade de nossos artistas e escritores. Às vezes, é preciso se deslocar, para respirar. Talvez exista, de fato, uma tendência difusa em mirar experiências que nos coloquem em contato com um lado menos virtual da vida, isto é, em colocar o pé no freio do autodenominado “progresso”. Seja como for, é uma feliz coincidência, pois me parece um tema importante a ser constantemente (re)trabalhado, conforme os desafios de cada época, embora eu não creia que se possa falar, desde já, na existência de um movimento literário uniforme e, tampouco, de uma tendência literária que aponte de modo consistente nesta direção.

Você vem do Direito, e comentou comigo que desenvolve um trabalho interessante sobre mitologia jurídica (é isso mesmo?). Explica pra gente do que se trata e como ocorre teu trânsito por estas áreas.

Pode parecer uma informação, à primeira vista, confusa: porém, eu tenho aprendido muito sobre Literatura com o Direito. Mais do que isso: posso afirmar que a Literatura passou a desempenhar um papel fundamental em minha maturidade graças ao Direito. Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque, conduzido por Lenio Luiz Streck e por André Karam Trindade, eu passei a pesquisar na área do Direito e Literatura, uma linha de estudo bastante difundida nos Estados Unidos e na Europa, mas que ainda está sendo descoberta no Brasil – produzimos, até hoje, o programa Direito & Literatura (TV JUSTIÇA). Em segundo lugar, porque, graças a essa feliz coincidência, a Literatura se tornou condição de possibilidade para que eu permanecesse no Direito. Por seu turno, o Direito pode ser um campo riquíssimo à Literatura (veja-se, neste sentido, os exemplos de Kafka, de Machado de Assis, de Albert Camus, de Victor Hugo ou de Ian McEwan, que, recentemente, esteve no Brasil). A Literatura consegue, como poucas coisas, humanizar o Direito, além de nos permitir importantes exercícios de alteridade e, sobretudo, de resgate/preservação da memória, fazendo-nos recordar da importância dos avanços dos direitos sociais e individuais conquistados ao longo da História (são inúmeras as obras literárias que retratam o destino de sociedades que se deixam levar por argumentos/ideais distorcidos). Pretendo desenvolver minha dissertação de mestrado em torno da Mitologia Jurídica, um conceito que é trabalhado por juristas como Paolo Grossi ou Peter Fitzpatrick e que diz respeito a uma aceitação acrítica por parte do senso comum, em matérias relacionadas ao Direito, na medida em que os mitos, historicamente, detêm papel absolutizador na consciência coletiva. Mito é um “discurso”, um “relato imaginário” e, desde a Grécia Antiga, os mitos ajudam a explicar o mundo dado. O mito é, portanto, objeto mais de crença, do que de conhecimento. No Direito, a modernidade racional termina por fundar seus próprios mitos jurídicos, dentre os quais se podem destacar as crenças na Razão, na imparcialidade do intérprete, na lei sóbria e secularizada. Atualmente, o Direito funda-se sob o paradigma do Estado Democrático de Direito. E que mitos foram, então, construídos? Pode-se questionar se a atual crença salvacionista no Judiciário, em que juízes estão investidos de uma aura intocável, quase divina, constitui uma espécie de mito. Isso pode parecer exagero ou ironia, porém não é tão distante da realidade no momento em que uma agente de trânsito é condenada a pagar danos morais a juiz parado em blitz, simplesmente por proferir a frase: “Juiz não é Deus” (detalhe: o magistrado conduzia sem CNH, sem placas e sob suspeita de embriaguez). Ora, a frase “escritores não são Deus” nos daria direito à indenização moral? Parece-me que não (Ufa!) – e, mais, tal afirmativa sequer se faria necessária. Então, que modelo de imaginário é esse e de que forma ele se sustenta? Que outras manifestações são passíveis de serem identificadas? São coisas que pretendo investigar.

Quais são teus planos futuros, tanto como editor, com a Le Chien, quanto como escritor, com teus próprios livros?

Felizmente, possuo alguns projetos de escrita, embora seja difícil precisar quando conseguirei dedicar o tempo devido a eles. Não creio que abandonarei tão cedo a pauta referente ao amor. É o que mais me movimenta e dá sentido ao meu trabalho. Por outro lado, pretendo voltar o olhar para temáticas mais sóbrias: funcionalismo público, relação com a linguagem, e, por que não?, o funcionamento ora burocrático, ora ativista do Direito, são algumas das pautas com as quais gostaria de me envolver. Em relação à editora, temos muito material ainda a ser analisado. Logo no lançamento, houve uma grande procura por parte de escritores, que nos enviaram dezenas de manuscritos. Confesso que, ainda, não conseguimos analisar a maior parte deles. Mas é um trabalho que será realizado aos poucos, de forma artesanal e de acordo com nossa capacidade operacional. A idéia, logicamente, é expandir a editora, estabelecer parcerias e fazer com que nossos autores cheguem ao maior número de lugares possíveis. Mais do que tudo, queremos contribuir, ao máximo, para a oxigenação da cena literária porto-alegrense e auxiliar, definitivamente, na consolidação e no fortalecimento da teia de artistas emergentes e de iniciativas independentes que existem na cidade. O auxílio mútuo permite o crescimento conjunto. Essa foi a nossa política de ação nesses primeiros seis meses de vida da editora e continuará sendo pelos vindouros.

 

[1] MAUÉS, Flamarion. Livros contra a ditadura – editoras e oposição no Brasil 1974-1984. São Paulo: Publisher, 2013.

 

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Um comentário

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  • Margarete
    31 agosto 2017 at 4:32 pm
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