A pureza branca de “A Puta”, de Márcia Barbieri

por Vivian de Moraes

A pureza branca de “A Puta”, de Márcia Barbieri

“O negócio é que nevava, a noite estava tão branca que tive a sensação de que a cocaína cobria o mundo (…)”

Reduzir todas as mulheres a uma só, criando uma mulher-modelo, às vezes é uma tentativa infrutífera em literatura. Márcia Barbieri, em A Puta (Terracota, 2014), não incorre nesse mau hábito. Lança, isto sim, o grande desafio que é mostrar a mulher não-burguesa, solteira, à margem do capitalismo e da monogamia e, além de tudo, puta. De universal, temos no romance a busca da mulher pelo homem e, ao mesmo tempo, seu insondável nojo por ele. Anúncia – que nome! – encontra esse proto-homem no seu ser-mulher. Mas retrocedamos.

O livro é escrito em fluxo de consciência e tem apenas um parágrafo. Márcia exibe uma invejável capacidade narrativa em A Puta, fazendo desse grande poema em prosa de quase-insignificâncias um romance polifônico de primeira, em que a voz de cada personagem não perturba a do outro, fazendo da leitura das 140 páginas algo muito agradável e fluido. O tema pode não agradar aos puristas, mas saiba-se que a obra está caçando-a todo o tempo, com a recorrência de seres e objetos brancos que permeiam toda a narrativa, da cocaína que o personagem-narrador consome até a baba branca de porra (ou: “salivar uma baba densa e branca”).

Essa fixação na cor branca em toda a extensão do texto (“Ontem sonhei tava nevando na minha cabeça”), parece elevar à puta a uma sublimação forçada, que é o que se verifica ao final da obra. Nela, a Puta reencontra os clientes e faz tudo o que sempre desdenhou: convida alguém para morar com ela e pare um feto que está num pote, além de cuidar de um morto.
Muitos são os clientes da Puta, a “buceta de ouro” do vilarejo. Alguns são mais fortes na obra, como o Filósofo, que será fundamental na trama, e o Poeta, homem que ressurge morto na velhice da puta com um grande livro escrito, cumprindo a palavra que dera a Anúncia de escrevê-lo.

A Puta ganha uma amante quando Flamenca, uma mulher pequena e esquisita que fala, ao que parece, espanhol, mas cuja origem não é mencionada, vai viver com ela para dar de mamar a uma criança que Anúncia pare, mas rejeita. Flamenca é parteira e “tecedeira de anjos”, mas nessa última parte falhou com a Puta: não conseguiu fazer o aborto. De qualquer maneira, esse menino a quem Flamenca se apega vira homem e ambos vão virar andarilhos, depois de chamarem a Puta Anúncia (na única vez do livro e condição) e, ao passarem algumas vezes pela porta de Anúncia pedindo água, mostram-se cada vez mais empestados. Uma “mosca branca” (eis o branco de novo) toma conta de um olho purulento de Flamenca. O fim de ambos é inimaginável ao leitor e se une ao papel do Filósofo.

Uma das personagens da trama é um homenzinho que seguiu Antônio Conselheiro. O lugar deles é o mangue, e a imagem recorrente é a do peixe: “E eu continuei como um peixe engasgado no próprio riso” é apenas uma das metáforas envolvendo esse, repentinamente, estranho ser que é o peixe. O Poeta solta peles como se fossem escamas, e fede como os peixes. “Senti pena dos amantes. Senti pena de mim. Eu também era peixe pequeno, mas me fingia de cardume para escapar da multidão (…)”

Fala-se também, e muito, de uma guerra que tudo dizimou. A Puta é uma sobrevivente, mas, próximo ao final do livro, parece que outra guerra se aproxima. O estilo de vida da Puta é simples: foder o tempo todo. E ganhar com isso. Ela não vende seu corpo, ela é paga para ter prazer. Não faz nada de graça nem sem vontade. Goza muitas vezes o livro todo. Siririca. Zanga-se quando o Poeta diz que ela é uma mulher pura, mas, conforme dito, a pureza está no cerne de sua busca branca. Tem um cachorro e uma também figueira branca.

Aparentemente, ela está contando a história de sua vida a alguém. Um descendente? Um jornalista? Dirige-se a esse ouvinte com arrogância, vez por outra: “Você é como os outros, não sabe cagar sem mentir. Não espere que eu te ajude com meu relato, você está me dando nos nervos. Então, é assim? Só eu preciso colaborar? E por que eu colaboraria com você? O que estou ganhando? Quer saber, não estou ganhando merda nenhuma e não abro mais a minha boca, se quiser descubra sozinho.”

Concluindo, esta é uma obra leve, de leitura agradável, dá vontade de devorar, e não há como não sentir empatia por Anúncia, mesmo ela fazendo coisas que atualmente ainda são tabus, mesmo ela sendo puta, diria uma puritana qualquer. Mas é numa sucessão de fatos que vão sendo narrados com destreza que o livro se joga como uma grande busca, o que, à primeira vista, não parece, pois a Puta não se apega a nada, não tem sentimentos, não tem remorsos e parece pouco interessada em Psicanálise. Ela é uma personagem com alto grau de instrução, embora a mãe seja uma demente. Isso depreende-se da forma como fala, dicção diferente das demais.

O romance mais recente de Márcia Barbieri chama-se O enterro do lobo branco. Estou preparando a resenha dele também.

Aguarde!

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