Abominável

por Claudia Marczak

É muito fácil se transformar naquilo que você abomina. Nada mais de si saía de si. Era terreno infértil. Enquanto escanhoava a barba cuidadosamente e sem pressa, buscava resgatar quem fora. A barba, outrora, tinha sido longa e desgrenhada, afronta ao pai militar. Parece um mendigo, criticava a mãe. Nunca vai arrumar um emprego, praguejava o pai. Eram tempos bons. Sabia quem era. Era um moleque que queria mudar o mundo. Quem nunca quis? Quem nunca teve um sonho? Não quero emprego, pai, quero ser feliz! Vai ser feliz morando embaixo da ponte? E as discussões inflamavam as manhãs frias. Os ânimos se exaltavam, a mãe tentava contemporizar. Menino é assim mesmo, gosta de contrariar. E quando a discussão acalorava, deixava a sala, batendo a porta e ganhando o mundo, certo das suas certezas. Agora não havia mais barba, não havia mais sonhos. Mudar o mundo? Qual o quê! Ninguém muda coisa nenhuma. Tudo ilusão de juventude. Passou a loção pós barba que fez o rosto arder e o perfume francês que tinha comprado no free shop na sua última viagem para Miami. Lançamento exclusivo. Cheiro bom da porra. Cheiro bom é isso, de coisa boa, coisa importada. Ouviu a esposa chamar. Hora de levar os filhos para a escola.

Os filhos eram lindos e perfeitos. Um casal. Primeiro veio o menino, assim no susto, no final da faculdade. Não era o momento, o mochilão pela América do Sul já estava planejado, havia outros planos, talvez morar fora, talvez buscar uma comunidade alternativa. Não era o momento, mas foi. Decidiram não abortar, iriam colocar seus objetivos de vida em prática, criar a criança de um jeito diferente do que seus pais fizeram, romper com os paradigmas de uma sociedade hipócrita. Nada deu certo. Faltava dinheiro, emprego. Pediram arrego. Morariam com os pais por um tempo, até as coisas se estabilizarem. Lembrou bem da fala do pai na primeira noite da volta. Era hora de ter responsabilidade, de sossegar o facho, precisava arrumar um emprego sério, nada de freelas como vinha fazendo. O pai mostrou um jornal.

– Concurso público, filho.

– Não quero, pai.

– Você é um rapaz inteligente, vai ter um filho, precisa dar o sustento pra sua família.

– Pai, eu não quero ser funcionário público.

– Segurança pra vida inteira e bom salário, rapaz. Depois, você não é escravo, pode mudar a hora que quiser.

O pai falou bastante das inúmeras vantagens de um concurso público. É o sonho de qualquer um! Estabilidade, boa paga, benefícios. Pegou o jornal. Podia ser uma solução temporária, até a criança estar maior e poderem retomar os planos.

Inscreveu-se, fez a prova, passou. Logo foi chamado. Prometeu a si mesmo que seria diferente de todos que lá estavam. Manteria seus planos. Seria tudo temporário.

***

          A senha piscava insistentemente no painel luminoso. Não iria atender. Não era, necessariamente, sua obrigação. Poderia até ir até o balcão para ver do que se tratava e dar os encaminhamentos devidos. Mas não. Não era sua obrigação. Fingiu estar ocupado olhando para a tela do computador que exibia o logotipo da repartição pública que trabalhava. Mexeu alguns papéis para ocultar seu ócio. O homem, sozinho na sala de espera, olhava o painel e a folhinha com o número da senha na mão. Dez, quinze minutos. O homem começava a mostrar de impaciência. Vinte minutos, meia hora.  Depois de conferir as principais notícias do dia, enviar mensagens de bom dia para seus contatos e buscar preços de passagens aéreas para as próximas férias, resolveu atender o homem. Não era sua obrigação, mas o faria. Chamou o homem no balcão. Ouviu a solicitação pensando que talvez fosse melhor irem para Campos no feriado, o frio estava se aproximando e era um bom lugar para aproveitar o clima quase europeu. Pegou os papéis do homem. Conferiu todos, atentamente. Faltava um. Anotou o nome do documento que faltava num pedaço de papel e reagendou  para dali a dois meses. Ouviu as reclamações do homem e quando esse começou a se exaltar, apontou calmamente para o cartaz na parede que dizia:

 

 Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940

Art. 331 – Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela:

Pena – detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

 

O homem engoliu sua raiva e recolheu os documentos. Saiu sem palavras da repartição. Seguiu os passos do homem com os olhos. Olhou para o relógio. Faltava pouco para o fim do expediente. Faltava pouco para a aposentadoria. Faltava muito para tornar a ser quem era. Suspirou. É muito fácil se transformar naquilo que você abomina.

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Contos

Cláudia Marczak é professora e psicóloga. Nasceu em Santos, litoral de São Paulo. Tem dois livros de poemas publicados, Caos e Lugar Algum e um romance, A Flor da Pele, publicado pela Editora Penalux.

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