A poesia de Lilian Aquino

por Nathan Matos

 Lilian Aquino nasceu em São Paulo em 1979. É autora de Pequenos afazeres domésticos (Patuá, 2011) e Daqui (Patuá, 2017, Bolsa ProAC de criação literária).

 

Advertência

Convém que você conserve
a pele grudada,
cobrindo os ossos.
É preciso – cada vez mais
e mais –
esconder o esqueleto.
Na madrugada
os ossos ficam querendo
se descobrir, se mostrar.
Mas mantenha-os
quentes.

 

*

 

Catar conchinha

Fecho na palma da mão
esta nota
Não uso força, não a aperto
contra os dedos

Faço uma concha com a mão
levo-a ao ouvido
posso ouvir a vibração
ao toque da pele

Uma nota que fantasio
ser apenas minha
uma espécie música particular

Na palma da minha mão
junto ao meu ouvido
minha nota se esparrama
entre os dedos

(como se eu ouvisse o mar
como se minha mão fechada
contivesse grãos de areia)

Uma nota só
como um sol, um dó,
eu te abro a mão

prefiro que navegue.

 

*

 

Indigesto 

Como um comprimido
engulo este dia.
De oito em oito horas
me lembro
não há remédio
a não ser comer
esta demora que a vida leva
pra curar uma dor
Meus dentes estão moles
como balas de goma
impossível mastigar
estes segundos

 

*

 

Receita para ser só

uma pessoa sozinha
são claras em neve
batidas à mão
onde se lê:
reserve
separado da gema
puro colesterol
é num prato leve
um ser aerado
que pode ser usado
sem distinção

essa nuvem de ovo
no entanto
rende uma porção
a menos
e deixa tudo ao redor
fofo

 

*

 

Cena de mesa

Senta na cadeira
à sua frente.
Tamborila os dedos
No tampo da mesa.

(ela suga pelo canudinho
o líquido vermelho
fazendo barulho.
e cruza as pernas)

Diz então
súbito
olhando fixo nos olhos dela
foi  sem querer
eu te amei do avesso
prometo que da próxima vez
te visto
do lado certo.

 

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