A poesia de Nuno Rau

por Demetrios Galvão
retirado de https://goo.gl/PQDuX3

 

Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre e doutorando em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá e, em fase de organização, a antologia Poemáquina. Em 2017 saiu seu primeiro livro, Mecânica Aplicada. É um dos editores da revista eletrônica mallarmargens.com.

 

wireless

 

o medo de se perder, mundo

punk, desenhando à faca na água suas dúvidas, você

conversa consigo pelo espelho oxidado em terceira

pessoa, rasurando à unha o nitrato, comendo grama

por grama o retrato que lhe vem na prata

quando rói os dedos entre os campos

minados, o medo

de se perder [“converse comigo”], nada

mais pode ser dito depois

que o chão desaparece, mundo

junkie, jungle, os hipopótamos são os únicos

que atravessam a rua sem esmagar

as flores no asfalto, linces e gazelas

não, você está

solto no espaço e nenhum céu

desaba, antes

permanece imóvel em aparência no instante

em que você escorre a esmo pelas trilhas

e deleta arquivos antigos [“converse

comigo”], menos laços, odiar

as lembranças, o medo

de se perder, mas é justo

pra onde você

vai.

 

*

 

rede

 

siga pelas galerias, boca

que lhe devora, sede

contínua da esfinge

cocainômana suportando o peso

da pureza

em suas narinas brancas enquanto

você olha de frente a crise

das metáforas, o rol

dos vilipêndios, a carne

do ato e a carne do sentido, os lugares

que agora são

restos da sua melhor

parte enquanto você

está prestes

a se perder

de vez seguindo as galerias

de fibras subterrâneas, não

sob a pele, “se você quer mesmo

enlouquecer vou

lhe contar toda a verdade que está por baixo

da verdade que está por baixo

da verdade”, ela disse

sem saber que sua cabeça já estava

a prêmio, um dado

rolando sobre os lençóis, se virando

em espasmos enquanto murmurava

 

eu já sei

 

*

 

touch pad

 

a dor, dispersa como a luz,

o amarelo secreto

por baixo da evidência

do amarelo [a variedade

interminável de formas

com que destroçamos

a nós mesmos], você se olha

no espelho quando tira a máscara

e vê o rosto igual

àquilo que o escondia

sem saber quem

deformou quem, dois

lados da moeda cunhados

na mesma forma banal, neste jogo

de azar você é o dado

viciado.

 

*

 

década

 

se você tem, de fato, algo a escrever

sobre o tempo, perceba que ainda uma outra

vez ele passou de vez sem que você

soubesse que a chance de dizer as poucas

coisas que parecem claras, na esperança

vaga de que tais palavras sustentadas

pelo poema possam, na sua dança,

tatuar em outro corpo a mesma marca,

está perdida: o mundo segue algum

desvio, desesperos portáteis, vãos,

gomorras sem o olhar de um deus, distopia

e corrosão do século vinte e um,

dessublimações, falsa anunciação

que lhe afunda em soul, sexo e melancolia.

 

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