O poeta em queda que se eleva acima dos guarda-chuvas

por Vivian de Moraes

O artista sorocabano radicado em São Carlos Pedro Alberto – cuja alcunha é “Poeta em queda”, acaba de lançar, pela 11 editora, seu segundo livro de poemas: “Naufragar jamais”.
O poeta participa de vários eventos literários no interior do estado e começa a se tornar conhecido por isso. Seu primeiro livro, “Fogos, mares e Marias” (2015) foi editado por conta do autor, que o vendia no tête-à-tête em diversos saraus. Eu o conheci num desses eventos, em Araraquara, quando adquiri o livro.

Se “Fogos…” é um livro mediano, mas mesmo assim, bom, “Naufragar jamais” traz toda uma força humana e poética. O Poeta em queda parece ter tomado mais consciência do seu processo produtivo, mais intimidade com os recursos literários, mais formas de fazer poesia confessional sem ser piegas e, para nossa sorte, tem apenas um poema de um esquema batido a que se aferram tantos autores contemporâneos, que é a metapoesia.

O livro tem uma diagramação inovadora. Os poemas estão em folhas A4 dobradas ao meio, sem serem coladas ou costuradas. São apenas nove, mas em estado de completude, auxiliado pelas seis ilustrações do próprio autor.

Poeta, performer, designer, artista plástico: todas as facetas de Pedro Alberto se combinam em “Naufragar jamais”.

O livro se abre em duas partes. Na primeira, encontram-se os poemas “retratos à prova d’água”, “vácuo habitat”, “festim aos perecíveis”, “marchar fúnebre” e “pássaros imersos em aquário”. As ilustrações dessa parte do livro trazem imagens diversas: alguém enrodilhado em espigas de trigo, flores volutas, pequenos caminhos; uma violinista com uma máscara de um gato na parte de trás da cabeça; e também uma cabeça com cubo e estilingue. As três “rimam” com os poemas, mas a presença certeira de uma cabeça nas ilustrações diz muito sobre o indício de um processo mental, mais do que afetivo, do Poeta em queda.

 

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“Retratos à prova d’água” é o poema inaugural, metalinguístico, que apresenta mal o livro, pois a realização da obra como um todo supera esse introito. Já “vácuo habitat” é um poema amoroso bem-sucedido, que entrecruza estrelas e asas, o abraço que sempre fica. Em “festim aos perecíveis”, lê-se:

procura-se quem faça carinho em trovões
com a mesma facilidade com que rega olhos
à aguardente e incendeia tempestades em
doses americanas.

[…]

procura-se, sem descanso,
quem conserte suas próprias veias
como quem manuseia chaves de fenda.

mas, acima de tudo,

procura-se
quem ainda queira
encontrar.

Parece-me que esse poema, longo demais para ser todo transcrito aqui, mostra toda a verve e a bossa do Poeta em queda. “quem conserte suas veias/ como quem manuseia chaves de fenda” são dois dos versos mais valiosos do livro, e evocam mil leituras: a chave de fenda como objeto fálico, as veias como força pulsante ou fraqueza suicida, o ápice do desespero de quem se procura – o que vai ficar claro na última estrofe – etc.

“pássaros imersos em aquários” é um poema dedicado “às mulheres do centro de ressocialização feminino de araraquara”. “o peso da grade é como água/ abafando a música de pássaros imersos/ num aquário de geladeira […]”. imagens assim sublimam a realidade crua, e o poeta não deixa de exercitar, nesse poema, a comparação com as mulheres que estão em liberdade. Mas não há indícios, no texto, do motivo do poema e da dedicatória. Infelizmente, o livro não tem apresentação (pré ou posfácio).

A segunda parte do livro é mais intensa. No poema “dentes” (“é preciso café para trabalhar para/ comprar café para trabalhar”) traz fúria contra o sistema capitalista, retratando o pouco que ele nos deixa ser, já que “escorre sangue no fio dental/ mais violento que a lâmina” e “nas ruas, homens e mulheres desabam/ puxados por uma séria gravidade”. “interior em escala de cinza” é uma declaração de desamor: “são paulo,/ eu não beijei a sua língua”, eis a abertura do poema. E o fim é: “eu te sou.// eu te mato.”

Um poema que cativa o leitor, seja pelo conteúdo, seja pela forma, seja por sua clara relação com uma das ilustrações, é “coração em cubos”. O eu lírico faz do coração um cubo mágico, o poema se encerra com um bloco de letras que se assemelha justamente a um cubo e, na ilustração, mãos mexem molemente um punhado de cores que não são um cubo, mas só difere deste na estrutura.
O livro se encerra com um poema bastante longo, talvez o mais bem elaborado – ao menos transmite a sensação de ter sido muito trabalhado –, que se chama “chorar o céu”. Depois de ler este sensível final, não há mais o que dizer, pois o convite à leitura é óbvio:

“querido céu,

hoje te vi chorar
e também fui dormir
chovendo”.

Essa fragilidade está no leitor desde que toma “Naufragar jamais” nas mãos: as folhas soltas, o medo de amassar, deixar cair, torna o livro mais precioso do que papéis condensados. Essa falta de jeito de tratar o suporte que traz as palavras deixam-nos, leitores, muitas vezes, também um pouco sem ação. A palavra de ordem é enfrentamento: do amor, do naufrágio, do concreto da cidade, da chuva. Nossas veias ficam expostas nesse jogo de vocabulários e metáforas tão colorido pelas ilustrações.

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