A poesia de Rita Isadora

por Nathan Matos

 

Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Tem poemas publicados em revistas como Mallarmargens, Escamandro, Germina, dentre outras. Seu primeiro livro de poesia, a vida nos vulcões, foi lançado no final de agosto de 2016, pela Editora Oito e Meio.

 

“diário do ano do macaco de fogo”

You transform into a tiger before their eyes.

Your very being commands an awe that makes consulting the oracle unnecessary.

Hexagram Forty-Nine/Line Five: The revolution (I CHING)

 

se como celan

eu tivesse a certeza

de que os poemas estão a caminho

se ao menos eu não tivesse

fundado toda uma mulher

[uma mulher inteira

garganta glote ancas

sexo tornozelos]

apenas em torno

de uma palavra infeccionada

se eu não tivesse

as mãos gretadas

como uma figura mitológica

mal-sucedida

em suas peripécias amorosas

eu poderia sim acreditar

[como se a minha vida

dependesse disso de fato]

no efeito de luz

na voragem súbita

no obscurecimento

que se segue

e se repete

e se repete

nesse projeto desconjuntado

de revolução

mas é que eu vejo coisas

vejo coisas em ti e neles

constato o que há de cínico — o símio

que mimetiza o desfecho ígneo

e não

eu não sei mesmo manusear o objeto isqueiro

não tenho habilidade

para os grandes gestos incendiários

estou aguardando

p a c i e n t e m e n t e

a grande água

como alguém que gesta

um filho querido

na cicatriz íntima

de seu próprio útero

mas se aterroriza diante

da perspectiva brutal

do nascimento

de um grito

 

*

 

“eu, olga hepnarová”

é verão em praga
e o ano é 1973.

[você,
olga misantropová, com seu figurino de caminhoneira nouvelle vague, suas calças de veludo cotelê e  a jaqueta de couro craquelada, você, anna karina psicopata, ainda que visionária, você ignora o óbvio

: o avesso do amor não é o ódio]

é verão em praga
mas faz ainda muito frio
e o avesso do amor é o coração terminando de bater de encontro ao asfalto, fraturas expostas, intestinos a migrar da cavidade abdominal como uma corda autônoma que sabe exatamente o destino que lhe é devido: o pescoço que espera a quebra
de parágrafo,
o cadafalso que espera
a quebra         do pescoço
com a corda na mão.
[corta para] o caminhão de olga estacionado na calçada;
a fileira corpos estendidos como uma oferenda satânica, mas você não é satânica, olga, você é uma assassina em massa e isso é diferente. satânico é outra coisa. planejar um assassinato simples requer               um engodo fundamental, um paralaxe e você
escolheu ignorar que o avesso do amor
não é o ódio.

é verão em praga
e faz frio;
o avesso do amor
se faz por meio de grandes colapsos,
colisões no concreto, no asfalto,
um embotamento brutalizado,

e você, olga hepnarová,
espera seraficamente
a polícia;
a bolsa no colo,
sentada em seu caminhão

você, a autora dessa carta perturbadora
para as gerações que virão:

“eu, olga hepnarová,
vítima de sua bestialidade,
condeno-os todos à morte.”

 

*

 

“a hora da estrela”

para leonardo marona

 

esse é para você

morcego noctívago

que não reconhece nem teto nem parede

nem o próprio brilho

seguimos no nosso diadorim off-sertão

modernismo wannabe dos que vieram 

diretamente da água

para matar a sede do rio
no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
você é o mais romântico
e eu digo ‘mas nós somos românticos de formas diferentes’
e você graceja ‘é, de fato, eu sou da tradição
do romantismo inglês e alemão’
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
e a vastidão dos espaços naturais abertos,
você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, ‘você é a própria grécia’,
[cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra, mais a fúria do olimpo
com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão do nome-do-pai, da mãe […]

e aí, cá para nós, você há de me responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável —
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

— se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
[encenado reencontrado]
— o amor com a faca na mão

e a própria sede do rio.

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