A rua

por Eduardo Sabino

No início o caminho estava inteiro, em linha reta, e Ana, sob controle de tudo. Voltar ao passado era como andar no bairro onde morava e escolher uma lembrança. Todas estavam lá, disponíveis: um monte de casas geminadas à espera de uma visita. Depois o caminho se encheria de dobras. Ela entraria no cano de uma década e sairia em outra, como se abrisse a porta de casa e atravessasse uma rua, como se não houvesse mais nada no trajeto entre o tempo real e o tempo lembrado.

***

Na casa da avó, um casarão velho na região florestal da cidade, Ana gostava de brincar de esconde-esconde com Iara, sua irmã mais nova. A cada passo, a madeira rangia, e era muito divertido se guiar pelos ruídos e chegar até Iara. Gostava de explorar a casa, de se perder no escuro dos cômodos e dormir escondida no guarda-roupa da avó. Quando ouvia a mãe e a avó chamando por ela, ficava quietinha e tapava a boca para não rir. Gostava de abrir gavetas e mexer nos relógios antigos do falecido avô – onde o tempo estava sempre parado. Olhava os quadros de família nas paredes, aquela gente muito séria e de roupas engraçadas, e perguntava a avó quem era quem. Nunca esqueceu o olhar de tristeza da velha quando ela não soube dizer, um dia, o nome de um rosto.

***

As histórias da avó iam e voltavam na cabeça de Ana. Quando pequena, Dona Maria brincava de esconde-esconde com os primos, dois meninos e uma menina, e usou o guarda-roupa como esconderijo. Mal se acomodou e já ficou com medo de ser encontrada, pois o menino ao seu lado, talvez João, seu primo, não parava de rir. Pediu para ele ficar quieto, mas o peste não lhe dava ouvidos. Então ela ouviu alguém dizer lá fora, “Só falta a Maria”, mas o menino continuava rindo na penumbra. Saiu gritando do guarda-roupa.

Ana se impressionou tanto que parou de se esconder nos móveis da casa, e talvez fosse esse o objetivo da história, que foi parar na gaveta mais funda da mente, onde Ana guardava tantas outras, uma mais assustadora que a outra, histórias melhores do que as fábulas da escolinha, sem lição no final. Gostava de ouvi-las, embora tivesse que dormir sempre de luz acesa. De onde vinha o desejo de ter medo?

***

Dona Maria sabia todos os casos de assombração da cidade. Já havia se deparado, no caminho da mata, com a noiva de branco – uma mulher se movendo sem tocar os pés no chão –, meninos sem pai e mãe, afogados da represa, uma criatura com chifres, quando foi ao quintal com o lampião num domingo à noite e que, no dia seguinte, revelou-se um bode perdido, além de bichos de todas as espécies, de cascavel a onça, criaturas não catalogadas e, claro, extraterrestres cabeçudos, óvnis pairando sobre o telhado e luzes de fonte desconhecida zanzando nas copas das árvores. Com as luzes se apagando na cabeça da avó, as histórias foram diminuindo, perdendo detalhes, unindo-se umas às outras, virando imagens. Muitas vezes era ela, Ana, que ajudava a avó a se lembrar: iniciava um caso de assombração, a velha sorria, e a luz se acendia de novo. Outras vezes não vinha luz alguma, apenas a mesma história se emendando a um começo diferente. Quando o mundo da avó já estava quase escuro, e Dona Maria passava mais tempo em silêncio, abrindo a boca quase sempre para contar os mesmos casos, as pessoas não a ouviam com o entusiasmo de antes. Talvez porque a avó lembrava de algo, contava, esquecia em alguns segundos o que contou e repetisse tudo no minuto seguinte. A filha dizia, você acabou de contar isso, mãe, e a avó a olhava entre surpresa e frustrada. Ainda que não dissessem nada, todos se irritavam um pouco. Menos Ana. Ana era a ouvinte ideal: escutava tudo como se fosse a primeira vez.

***

Ana vivia entre um bairro operário, onde morava, e o casarão da avó. No seu bairro, divertia-se muito com as meninas da vizinhança. Jogava amarelinha, rouba-bandeira, elástico, peteca. Pulava corda e era muito boa no bambolê. Quando fez treze anos, a mãe proibiu o brinquedo na rua, por conta de um velho que ficava a observando da janela. Levou para a vida, ainda assim, muita coisa de sua rua, mas nada se comparava aos casos da reserva florestal: aquele verdadeiro ecossistema de lembranças extraordinárias. As aventuras foram muitas. O lenhador fluorescente, que ela viu junto com um primo quando cruzavam a banqueta – um velho esverdeado e de olhar sinistro, que os fez correr muito quando sumiu de vista – a criatura das águas, que devia ser um cachorro de grande porte nadando no córrego, mas que ela não quis olhar para trás e conferir; um objeto voador não identificado, que iluminou o céu de neon e desapareceu, e tantas outras coisas. O encontro com o lobo-guará a marcou de uma forma especial. Ela o encontrou e, por um longo minuto, ficaram ambos, criança e lobo, olhando-se imóveis. Se ela corresse, Ana sabia, o lobo a perseguiria, como os cachorros bravos que viviam no seu encalço quando ela apertava o passo na rua. Então decidiu fazer o contrário. Imitou um rosnado de cão e disparou em direção ao lobo. Por sorte ele correu, correu muito, correu olhando para trás, apavorado, e Ana teve uma crise de risos mais longa que a do menino fantasma.

***

Havia uma história da avó, das poucas que ela não esqueceu até o fim, que vinha da mitologia dos cohiuanos, uma das primeiras etnias a serem exterminadas quando os europeus invadiram as Américas. Segundo os cohiuanos, toda pessoa tem seu duplo, reflexo sem alma, que é apenas a superfície do que somos, fomos ou poderíamos ter sido: o chullachaqui. Quando não abertos ao conhecimento, os homens tendem a se tornar essas cascas sem polpa e semente, fantasmas transitando sem rumo sobre a terra. Um dia, a avó disse, apenas os chullachaquis vão habitar o mundo, mas algumas pessoas, e a voz dela de repente se entristeceu, por mais que se abrissem para o código secreto das coisas, levavam a maldição dos chullachaquis no sangue.

***

Foi estranho ver as histórias sumirem da cabeça da avó e, junto com elas, a sua própria avó. Todos acompanharam a luta da velha para segurar as lembranças. Ela passava o dia no quarto, revirando álbuns de fotografia, levando as fotos, uma a uma, para as filhas e os netos, dizendo, vocês se lembram disso? Ia e retornava muito rápido, quase sempre com as mesmas fotografias e as mesmas perguntas. Era como descer as mãos em concha em um tanque e apanhar água. Beber um pouco e ver o restante do líquido escapar por entre os dedos. Talvez ela tenha saído vitoriosa daquela guerra, pois chegou ao seu último dia sabendo os nomes e os fatos de um pequeno álbum de família.

***

Às vezes Ana está na rua, e as coisas se distorcem. A linha reta cheia de pontos agitados, crianças brincando eufóricas, vai se encurvando até se tornar um círculo. Ela gira por esse círculo, como se a empurrassem dentro de um pneu, e de repente já está em outro lugar, numa ponte da mata, jogando pedras no córrego. Cinco segundos e está nos braços da avó, ou no colo da mãe. Ouve sua mãe dizer, “quem é essa moça bonita?”, em tom de brincadeira, e depois repetindo, “quem é essa moça bonita?”, e agora a expressão facial é de curiosidade sincera. A roda gira e Ana está na mata, pedalando a bicicleta, no encalço de um óvni, um sonho que há muito não a visitava. Depois se vê distribuindo doces entre as crianças afogadas da represa, e elas não têm mais aquela expressão medonha com hematomas roxos em volta dos olhos, parecem pequenos vaga-lumes envoltos por luzes de neon. Será que tinham vindo daquela nave que estourou fogos de artifício no céu?

***

Ana vê muitas imagens, todas as noites elas se misturam em combinações diversas, e então não há mais nada. Só escuridão e silêncio. Será que está dentro do guarda-roupa? Lembra do menino e se levanta. Quer correr, mas não consegue. Ao menos não está paralisada de medo e consegue caminhar lentamente até a luz azulada. Passa pela porta aberta e atravessa o corredor. As tábuas são de madeira, o que reforça a sensação de estar na casa da avó.

Quando chega à sala, vê duas meninas, uma de sua idade, outra mais velha, assistindo tevê.

“Vocês viram a minha mãe?”

A pequena ri. A outra lhe interrompe o riso com um beliscão e se levanta da poltrona. Olha para Ana com ternura:

“Você está confusa, vó. Vamos para a cama. Amanhã a senhora vai acordar melhor”.

“Onde estou?”

“Na casa da sua filha, Isabel”.

A menina acompanha Ana até o quarto, enquanto a ouve repetir: “Minha filha, Isabel…”

Entram no quarto. A garota acende a luz. Na cabeça de Ana, outra luz se acende. Quando torna a se deitar, enquanto a menina estende a coberta, tudo já está mais claro.

“Você é Mariana, minha neta”. E ri: “Você me desculpa, tá? Minha cabeça não tá boa”.

“Não tem o que desculpar, vó. Boa noite!”

A luz se apaga. O quarto, a casa e o mundo se dissolvem no escuro, mas Ana está a salvo de novo: no outro lado da rua.

 

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Eduardo Sabino é mineiro de Nova Lima. Publicou os livros de contos Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Novo Século, 2009) e Naufrágio entre amigos (Editora Patuá, 2016). Formado em Comunicação Social, trabalha com edição de jornais e revistas, assessoria de imprensa, redação, revisão de textos e leitura crítica. Venceu, em 2015, o prêmio literário Brasil em Prosa, organizado pelo jornal O Globo e a Amazon. É um dos criadores do programa de entrevistas Literatura no Boteco.
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