Último desejo

por Marco Severo

Aí você acha que porque é novinho vai viver pra enterrar Faustão, Xuxa, Roberto Carlos, toda essa laia brega e cafona da música e tv brasileira e de repente sente uma pontada na cabeça, acha que é estresse, mas não é estrese porra nenhuma, era um AVC se anunciando devagarzinho, porque seu corpo pode ser seu pior inimigo, trabalhando de forma ardilosa e silenciosa pra te fuder bem ali adiante. Até que um dia a veia se rasga dentro da sua cabeça, enche a porra do seu cérebro de sangue, mas não vai lhe matar não. Vai é lhe deixar vegetando numa cama o resto dos seus dias. Se o seu azar for completo, você ainda vai se ver obrigado a ver algum familiar seu deixando de viver a própria vida pra passar o dia limpando a sua bunda e lhe dando papinha na boca – e se vendo na necessidade de dizer que lhe ama mesmo quando lhe odiar e quiser que você morra porque só assim vai deixar de cumprir a dois a sentença que inicialmente foi dada apenas a um. Sorte boa era ter morrido, mas não foi assim. Você, que tomava seu comprimido de Centrum todos os dias como se fosse um ritual religioso, que participava de escolas de samba mais empolgado que o mestre-sala, fazia caminhada na praia, era crossfiteiro, achava que estava livre dessas merdas. Mas elas acontecem, e sabe por quê? Porque a vida não vale nada. Você não fuma, você não bebe – o máximo que você faz é colocar um remedinho no nariz pra respirar melhor. Enquanto a escritora Lygia Fagundes Telles, que fumou até quase noventa anos tá aí e hoje recebe homenagens em todo canto pelos seus noventa e quatro. Não existe justiça nesse mundo, é o que eu sei. Vai entender essa merda de vida.

A minha vontade, e isso eu deixei claro assim que tive condições de expressar alguma coisa, após uns dois meses de reabilitação, era a de comprar uma arma e dar um tiro na minha boca, mas ninguém topou comprar uma no mercado negro pra mim. Escrevi numa folha de papel, Eu sei onde tem, só preciso que me levem. Mas quem ia querer levar um trambolho de mais de oitenta quilos numa cadeira de rodas pra cometer um ato ilícito? O jeito era continuar vivendo.

Aliás, escrever foi uma das coisas que consegui fazer mais rapidamente depois do derrame. Escrever e ler. Sempre fui um leitor voraz. Lia tudo que podia, com uma voracidade de criança somaliana diante de um banquete. Eu segurava o livro com a mão direita e quando precisava passar a página levava o livro até as pernas, e com a ajuda do meu braço esquerdo semimorto conseguia ir para a página seguinte, e assim continuava a leitura até ficar cansado, com sono, ou quando chegasse a hora de limpar minhas fraldas cheias de merda, passar talco e Hipoglós, para evitar ferimentos.

Quem fazia todo esse serviço era a minha mãe, com quem nunca me dei bem. Jamais confie em quem passa o dia assistindo Rede Vida e Canção Nova mas não perde a oportunidade de falar mal da vida dos outros e ainda assiste aqueles programas que mostram os defuntos enquanto mastiga arroz, macarrão e feijão. Nada disso a impedia de ter uma culpa católica do tamanho da sua estreiteza de mente. Ela era daquelas que acham que um filho precisa ser cuidado pra sempre, não importa se ele estuprou, matou, ou simplesmente não está nem aí pra vida dela. A sorte dela é que minha língua continuava enrolada dentro da boca, e qualquer tentativa de falar alguma coisa resultava numa junção de sons irreconhecíveis que mais pareciam o mugido sofrido de uma vaca depois que leva uma marretada na cabeça dentro de um abatedouro, e no vazamento de uma baba grossa e incolor pelo canto esquerdo da boca, que ela limpava com o mesmo zelo com que esfregava um pano com talco nas minhas pernas, na minha bunda e no meu pau.

Minha vida acabou se resumindo a ler, fazer fisioterapia e fonoaudiologia. Os médicos tinham uma esperança que eu já havia perdido, a de que eu voltasse a andar e a articular palavras numa ordem que fizesse sentido.

Durante as sessões de fisioterapia, quando o exercício envolvia as pernas, lá estava eu com meus livros na mão. Li toda a obra do Henry James, do Saul Bellow, do Hanif Kureishi, da Toni Morrison e tentei ler uns clássicos franceses também mas achei um saco. Aproveitei e reli, cronologicamente – sempre fui metódico – toda a obra do Rubem Fonseca, até ficar sem nada inédito dele pra ler.

Um dia, lendo o jornal no tablet – o esforço de ler no papel era exclusivo para os livros, nunca me acostumei àquelas porcarias de Kindle – soube que Rubem ia lançar livro novo, de contos. Achei ótimo, conto é o meu gênero literário favorito. O livro se chamaria Calibre 22. Todos os dias eu procurava saber se tinha saído mais alguma coisa na imprensa a respeito do livro. Então, teve.
Era uma resenha da Folha de São Paulo que já apontava a metralhadora para o livro – que estaria na livraria dali a duas semanas – através da manchete, que tinha a grosseria de dizer que o autor parecia ter enchido as páginas do livro com esboços retirados do lixo, dentre outras palavras desaforadas, como “pueril”, “constrangedor” e “prosa rala”. Minha pressão subiu na mesma hora e eu não dormi direito àquela noite. Como alguém escrevia aquilo a respeito de um autor de 91 anos, já no fim de sua carreira porque no fim de sua própria vida, e que dera tanto à literatura? Subi meu olhar para ver quem havia escrito a resenha: Célio Ourives. Com um pouco de pesquisa, descobri no Google que ele é um jornalista que virou escritor e participava de premiações e festas literárias promovidas pelos amigos. Queria ver ele descer o sarrafo nas obras desses amiguinhos que colocam ele em mesas de discussão em eventos de literatura. Escroto. Filhodaputa escroto.

Acordei inquieto e ainda pensando em como alguém tinha os brios para escrever uma resenha daquelas sobre um livro do Rubem Fonseca. Do Rubem Fonseca aos 91 anos, porra. Nesse mesmo dia, tive uma alegria: começaria a bienal de literatura da cidade onde moro, e adivinha quem ia estar lá? Ele mesmo, o crítico literário. Olhei na programação o dia em que ele faria a sua fala e descobri, através de uma amiga jornalista, onde ficariam hospedados os escritores que vinham para o evento, um hotel à beira-mar, na região mais cara da cidade. Escrevi na caderneta onde me comunicava com a minha mãe que um escritor de quem eu gostava muito estaria na cidade dali a vinte dias e que eu gostaria de ir visitá-lo no hotel. Você não vai se emocionar e alterar a sua pressão?, ela perguntou. Eu peguei a caneta e o papel e escrevi, Foda-se.

Quando ela me via daquele jeito sabia que o melhor era ceder, do contrário eu fechava a boca e não deixava ela me alimentar, ficava me batendo na cama quando ela queria me limpar, e como ela tinha um medo horrível de que eu morresse, sabe-se lá por que, seguia as etapas dos meus desejos.

Dali em diante vivi para cumprir o meu objetivo. Pedi para ter mais de uma sessão por semana com a fono, fazia os exercícios físicos de maneira tenaz, com um afinco que beirava a obsessão. Não deixei minha mãe ficar comigo em nenhum desses momentos nos vinte dias que antecederam a fala de Célio Ourives.

Na manhã em que ele faria a apresentação na bienal, acordei de madrugada e pedi para ser levado para o restaurante onde era servido o café da manhã do hotel, que era aberto ao público. Eu tinha certeza que nos encontraríamos. Combinei com a minha mãe de que na hora que eu o visse eu faria um gesto e ela empurraria minha cadeira de rodas até a mesa dele, para que nos conhecêssemos. Enquanto isso, eu ficava com um canudinho na boca sorvendo calmamente meu suco de laranja. O filhodaputa chegou tarde ao café da manhã, certamente de ressaca do dia anterior. Estava acompanhado de uma mulher. Eu fiz o gesto que havia combinado com a minha mãe. Ela se levantou e me levou até lá. Percebi o olhar de espanto quando ele viu aquela cadeira de rodas parada bem ao lado de onde ele estava sentado. Minha mãe disse, com um sorriso amarelo, Meu filho é seu fã e gostaria de conhecê-lo. Ele tentou dar um sorriso de volta, mas não sabia muito bem o que fazer. Então, eu fiz o que havia praticado incessantemente para fazer naquele momento. Disse a ele o que fiz a fonoaudióloga que cuidava de mim me ajudar a repetir, dia após dia. Fuzilando-o com o olhar, eu disse meio que num gemido, mas disse, Você é um bosta. Sua resenha é uma bosta. Rubem Fonseca escreve muito melhor do que você jamais vai escrever. Seu merda. Ele ficou lá parado, olhando para mim e para a minha mãe, observando minha boca torta e pendida para baixo com aqueles olhos miúdos por trás de uns óculos que pediam para que o chamassem de John Lennon e aquela careca de Mahatma Gandhi, fazendo uma cara de quem tinha pena de mim, um homem com algum tipo de retardo, certamente. Aos meus olhos, ele nada mais era do que uma fraude, de cima a baixo.

Minha mãe estava lívida. Eu permaneci como estava, mas fazendo uma cara de quem tinha mais a dizer. Eu queria que ele me batesse, que fizesse qualquer coisa que o impedisse de participar da bienal, mas ele apenas olhou para a mulher e, num gesto quase orquestrado, os dois se levantaram ao mesmo tempo e se dirigiram ao saguão.

Do AVC para cá, descobriram que um dos meus pulmões tem um tumor maligno, inoperável, que se poderia tentar reduzir através de quimio ou radioterapia. Eu disse para minha mãe e para quem quer que fosse me visitar que eu não queria me submeter a nenhum desses tratamentos. Para a minha sorte, os médicos também se mostravam reticentes.

Com o passar dos dias, a respiração tem se tornado mais difícil, suo muito à noite e qualquer cheiro mais forte me tira o fôlego. Tenho certeza de que conhecer o crítico literário e dizer as coisas que eu queria lhe dizer foram meu último grande desejo realizado.

Quanto ao livro novo do Rubem Fonseca, não é mesmo lá essas coisas. Foda-se.

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