O deserto de cada um

por Cláudia Marczak
retirado de https://goo.gl/pl56YW

 

Aquela porta era bonita. Madeira nobre, maçanetas modernas. Tinha uma largura incomum. Parecia aquelas portas de mansões de novelas e filmes, bem diferente da portinha da sua casa, setenta centímetros de pura humildade, Era aquela porta majestosa que iria abrir seu caminho. A entrada da primeira promoção tão aguardada. O primeiro degrau da escada.

– O senhor pode entrar.

Agora era a hora. Tinha espera domuito tempo por aquele momento. Exatos cinco anos, quatro meses e treze dias. Ajeitou na pasta os papéis que carregavam toda a sua história, arrumou a gravata e caminhou confiante em direção ao seu futuro.

A sala da chefia era ainda mais imponente que a porta. Austera, móveis escuros que misturavam tradição e modernidade. Na parede, certificações internacionais e  uma estante com prêmios recebidos pela empresa. Sem dúvida fazia parte de uma equipe campeã. Sentou-se à frente do chefe, que o cumprimentou , simpático,

– Pois é, meu rapaz. Tenho ótimas referências suas. Trabalhador, pontual, estudioso, eficiente.

Preferia ter ouvido empreendedor, arrojado, líder, mas orgulhou-se do que ouviu. Procurou conter a satisfação pelo reconhecimento.

– Só cumpro o meu dever.

– Não, rapaz! Você fez mais! Você vestiu a camisa da empresa. Admiro jovens como você, que batalham pra ir longe.

– Obrigada!

-E é por isso que hoje é o seu dia. Você,, meu rapaz, foi contemplado comum grande desafio.

A promoção! A promoção tão esperada. Há tantos anos aguardava aquelas palavras!

-Se você concordar, é claro, você assumirá a gerência, ou seja o controle total de pessoal,

da administração de recursos, investimentos, produtos e vendas da fábrica de Piraporinha dos Guararapes.

Piraporinha dos Guararapes. A mais distante. A menor. A menos produtiva. Longe dos grandes centros, com equipamentos antigos e pouco pessoal era praticamente esquecida por todos da empresa. Havia boatos que iria fechar, que seria vendida, que seria desativada. Não conseguiu esconder sua decepção.

– Imagino que esteja surpreso. Muito se fala da unidade de Piraporinha dos Guararapes. Mas eu posso te garantir que ela será seu primeiro passo em direção ao sucesso! Você terá uma meta de produção e vendas. Cumprindo essa meta você será, automaticamente encaminhado para trabalhar com a presidência na Capital. Agora, se você não se adaptar, achar que é puxado demais, a gente volta e conversa. A decisão é sua.

Definitivamente não era o que esperava. Tinha planos, mas não para Piraporinha dos Guararapes. Hesitou.

– Um ano, rapaz. Um ano para você enfrentar esse desafio. Depois a gente volta a conversar. Tenho certeza que você fará um grande trabalho lá.

Não, não era o que esperava, mas era uma oportunidade. Relativamente bom para o currículo e, se desse certo, aí sim teria uma grande promoção. Tentou se entusiasmar.

– Pode contar comigo.

Selaram o compromisso com um aperto de mão vigoroso. Um passo para trás para pegar impulso para o salto, seu pai dizia. Iria enfrentar o desafio.

 

***

A unidade de Piraporinha dos Guararapes ficava depois do longe. Pega a avenida marginal, a perimetral, a vicinal e tudo aquilo que leva as pessoas para a beira do mundo. O nome da cidade era maior que ela própria. E ainda falavam que era perto da Capital! Qual a noção de perto que esse povo tem?

O sol ardia e o dia se erguia quente. Piraporinha dos Guararapes era conhecida pelo seu calor infernal, entremeado por chuvas intensas. Observou o prédio da fábrica, que nem se parecia com uma. Um pequeno galpão com algumas máquinas obsoletas e um pequeno escritório na frente. Foi recebido por uma secretária tão antiga quanto as máquinas da fábrica, única funcionária da administração. Solícita ela o apresentou aos funcionários. Era a hora de colocar a mão na massa e aproveitar a oportunidade.

***

A porta continuava bonita, mas o nervosismo da prestação de contas do primeiro ano desviava sua atenção. Agora sim seria a hora da promoção.

– Muito bem, meu rapaz, você fez um trabalho excelente! Faltou muito pouco para atingir a meta. Tenho certeza que no próximo ano você conseguirá. Não vai desistir agora, não é mesmo?

 

***

Faltava sempre muito pouco pro salto. Um passo para trás para pegar impulso. E o salto morria na máquina quebrada, no material que não chegava, funcionários que faltavam. Os senões o deixava a milímetros da meta. Só mais um ano.

 

***

– Meu pai falou que o senhor foi um dos melhores funcionários da empresa. Tocou a fábrica de Piraporinha dos Guararapes como ninguém! Sua contribuição foi tão importante que agora, com a sua aposentadoria, a gente vai fechar a unidade. Não há ninguém como o senhor!

Recebeu um forte abraço do filho do chefe. Pegou a caixa com os pertences. A porta da chefia fechou-se atrás de sua sombra. À sua frente apenas o deserto sem fim.

 

 

 

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Cláudia Marczak é professora e psicóloga. Nasceu em Santos, litoral de São Paulo. Tem dois livros de poemas publicados, Caos e Lugar Algum e um romance, A Flor da Pele, publicado pela Editora Penalux.
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