O que se passou? Literatura de esquerda, de Damián Tabarovsky

por Tiago Cfer

 

O que dizem tais proposições de Deleuze: não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo; a esquerda nunca é maioria enquanto esquerda? Que a questão da esquerda não se estabiliza? Que ela pertence ao interregno, irrompe a cada desgoverno, emerge com a crise e a interrupção das hegemonias?

Há algo da natureza das máquinas aí. Algo que não se deixa naturalizar. Certa vocação obstinada ao erro, à aberrância do movimento. Pois as máquinas não se limitam à reprodução, ao fetiche técnico (militância) a fim de se apropriar de uma mão-de-obra mecânica que autorize a servidão na medida em que implementa uma obediência artificial. Ao contrário, têm a ver com tudo o que escapa à linha de produção e extrapola o “curso natural das coisas”. Avultam numa dissociação dos saberes, refletem o abismo enunciativo (mas o que é isso?) que se abre durante o surgimento de algo novo quando se “perde o fio da meada”, se “erra a mão” em uma experiência. Não há invenção sem essa história canhestra.

Quando em “Linguagem e literatura” Foucault afirma que a literatura aparece no século XIX, ele a situa na emergência de uma linguagem desguarnecida das figuras de retórica clássicas, de seu propósito de restituir uma linguagem muda, primitiva, a palavra primeira (a verdade, a natureza, a palavra de Deus). Inserindo-se fora do espaço da retórica, o volume do livro que, com a era industrial, implica a conversão da escrita manual à escrita maquinal, inaugura-se como espaço de disseminação e simulacro, de repetição, sem origem nem destinação, do amontoado de palavras já ditas – o murmúrio infinito.

 

 

A literatura, caracterizada por Foucault (no rastro de Blanchot) pela transgressão e a passagem para além da morte, inscreve-se portanto num espaço de dispersão e despedaçamento. Encaminha-se, como as máquinas e a esquerda, ao não sabido, vem ao tempo feito um extravio histórico – jamais como fundamento ou inventário da história.

Literatura de esquerda, de Damián Tabarovsky, publicado em 2004 pela Beatriz Viterbo Editora, na Argentina, e que sai agora no Brasil pela Relicário Edições, apesar de, à primeira vista, parecer um ensaio-balanço, um compêndio da literatura argentina produzida na segunda metade do século XX, levanta questões que vão muito além de um paideuma das vanguardas históricas. Indaga a fratura irreparável das estruturas dicotômicas que ratificavam o debate em torno da literatura e do ato de escrever no pós-guerra (progressismo e conservadorismo, mercado e academia, literatura séria e literatura midiática etc.).

A partir do colapso desses critérios, o autor aviva a questão da esquerda sem cair numa euforia esquerdista, numa pretensa restituição de unidades identitárias ou culturais: “A crítica ao mercado e à academia não pressupõe a implosão de ambos os espaços, mas a busca de outras zonas discursivas, de efeitos políticos impensados, de escritas imprevisíveis. Pressu­põe algo além do realmente existente”.

Bem no descortinar do milênio, dessa época sem aura encetada pela tecnologia e a liquidação das supremacias, este livro de Tabarovsky enuncia, desde o suspeito arranjo de seu título, imagens anômalas capazes de vitalizar as ideias de literatura e esquerda. Desmonta a arbitrariedade sentenciosa dos autos-de-fé da história enquanto recobra a qualidade contingente das fontes – emergências e proveniências. Afirma, portanto, a literatura em sua anarquia: campo-de-forças destituído de princípio (an-arquia: ausência de arkhé).

Isso se evidencia no modo como o autor desnaturaliza o lugar concedido pela crítica à literatura de Flaubert:

“Se Flaubert tem consciência de algo, trata-se precisamente disso: da ruptura irreparável. Flaubert abre as portas à linguagem, e imediatamente adverte o perigo. A linguagem é o joguete de um monstro, da noite, a escrita fugidia, o excesso. A linguagem funciona sob a metáfora de Frankenstein, do monstro que perde o controle, se apodera de tudo, se volta contra seu criador, asfixia seu amo, o mata. A metáfora de Frankenstein é a da fatalidade da linguagem que perde as rédeas, que responde no sentido contrário ao desejado, que converte sonhos em pesadelos. Se depois de Flaubert a literatura torna-se escrita do desastre, é porque a literatura não dá conta de outra coisa senão do poder arrasador da linguagem, da impossibilidade de controlá-la, de submetê-la”.

Frankenstein tornado totem da imaginação literária na comunidade dos que não têm comunidade – figurando, aí, o abastardamento, o inacabamento e a inoperância, o “trânsito ininterrupto das rupturas singulares”.

Sob o signo da escrita do desastre num contexto high tech, a ação escritural em Literatura de esquerda leva o ensaio a seu grau máximo – alinhando-se ao que pode ser compreendido por literatura-máquina, segundo a apreensão feita por Mauricio Salles Vasconcelos (de Blanchot, Deleuze e Avital Ronell) em seu livro Exterior. Noite – Filosofia/Literatura: “uma literatura que não está em si”.

Suspendem-se, então, as questões da esquerda, da máquina, da literatura. Justo nessa hora em que o desastre vem se impor em indagação: o que se passou?

 

 

Tiago Cfer – doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

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