Geopolítica Infantil

por Roberto Menezes
ilustração de Igor Tadeu

Colei o mapa-múndi na parede do meu quarto. A professora devolveu ontem. Sou louco por mapas. Deles todos, gosto mais é do mapa-múndi. Acho que Deus, quando fez os países, desenhou eles assim, para que ficassem lindos. Tem país azul, verde, vermelho, cor de pele. Meu lápis amarelo acabou quando pintei a Rússia. Que país grande! Deve ter muito russo lá. Tem um monte de países pequenos que o nome nem cabe dentro. O mais difícil foi pintar esses paisezinhos da Europa. Pintei a Holanda por cima da Bélgica. Ia colorir um de laranja e o outro de amarelo porque minha mãe falou que são eles os países das flores. Sem querer, borrei a Bélgica de laranja e a Holanda de amarelo, não deu para saber onde começava um e terminava o outro. E para piorar, quando fui dividir eles com meu hidrocor preto, a fronteira cobriu completamente os dois. Meu pai quando viu, falou: “Fez bem, meu filho, esse preto lhes caiu bem”, não sei o que ele quis dizer, nem perguntei. A professora gostou que eu pintei os mares e os oceanos de verde, mas mesmo assim tirei nove. Queria tanto ter tirado um dez. Chamei sem querer Antártida de Antártica, daí ela tirou meio ponto. Foi culpa do meu irmão, ele teima em dizer que é assim que se escreve. O outro meio ponto que eu perdi foi por causa Iugoslávia, que a professora disse que se dividiu. Eu nem sabia, copiei do atlas da minha irmã. Se fosse no tempo dela, eu ia tirar um dez. Esses países vivem o tempo todo se dividindo. Perguntei ao meu pai o porquê da divisão, ele me disse: “Eles fazem isso para que todo ano a gente troque de livro”. Acho que não, talvez esses países se dividindo seja uma coisa natural. Meu irmão, por exemplo, está procurando uma casa para morar depois que casar. Eu não queria que ele fosse embora, mas minha mãe me disse que a casa é pequena para tanta gente. Ela tem razão. Deve ser por isso também que a Iugoslávia se dividiu, acho que tinha tanta gente que não cabia em um país só. A Bielorrússia deve ser dos russos belos que formaram o próprio país. Isso a professora não me explicou. Mas não posso reclamar do meu nove, se minha professora tivesse visto que eu matei os holandeses e os belgas com uma pincelada, ia me colocar na recuperação. Deus me livre. Os que ficaram ela mandou decorar as capitais dos estados dos Estados Unidos, de ontem para hoje. A professora da minha irmã não mandou ninguém para recuperação e todo mundo ganhou uma bandeira do Brasil de papel. Ninguém da minha turma ganhou a bandeira do Brasil. Não gosto de bandeiras, nem de decorar capitais. Ainda bem que não fui para a recuperação, foi chamada oral. A professora perguntou qual a capital do Kansas. Ninguém acertou. Era Topeka e eu tinha certeza que era Oz. Então onde é Oz? Será que é do lado de trás do mapa-múndi? Será que faz fronteira com a Terra do Nunca? Ou com o País das Maravilhas? Meu tio disse que esses países são alegorias. Será que alegoria é algum tipo de reinado, como a Inglaterra? Ou como Cuba? Quando eu crescer eu quero ser rei de uma alegoria, os reis só morrem velhos. Não quero ser presidente, de vez em quando tem um louco querendo matar os presidentes. Eu acho que cada vez mais tem menos reis e mais presidentes no mundo. Deve ser por isso que tem tanto louco no mundo. Deve ser sim. Tenho tanto medo desses loucos, não sei por que eles fazem isso. Eu pergunto ao meu pai, mas ele é sempre ocupado, nem sempre me responde. Quando não está lendo jornais, está com os olhos nos telejornais, vendo esses loucos. Nem liga para as minhas dúvidas. Também não pergunto a minha mãe porque ela só sabe de flores, perfumes e remédio para dormir. Ela devia assistir a mais telejornais, o sono do meu pai é admirável. Meu pai tem sono de rei. Minha mãe, de presidente. Tenho medo de perguntar essas coisas para a professora. Não sou o queridinho dela, desde o dia que desrespeitei a oração. Mas quem ia aguentar? Ela trocou o pai nosso por pai troço. Quando ela falou isso, quase que teve um treco, engasgou-se. Não aguentei. Deus que me perdoe. Ano que vem vou fazer o catecismo, talvez eu entenda de onde vem tanta devoção. Tem muita briga no mundo por causa de pessoas que não respeitam as orações dos outros. Na TV, vi que os loucos no outro lado do mundo matam uns aos outros por um lugar bem pequeno, não entendo. Nem o nome do país consegui colocar dentro dele. Por que Deus, que é o presidente do mundo, não divide esse país? Não é simples?! É só passar um risco no meio. Fizeram isso na Iugoslávia, deu certo. Ou por que não leva a metade deles para África? Tem países enormes lá, muitos países com nome bonitos. Eu pintei um de vermelho, ele tem o nome de República Democrática de alguma coisa. Acho que lá os africanos vivem sempre na paz. Os únicos selvagens de lá são os leões e os tigres. Mas meu pai falou que os holandeses ou os belgas foram lá. Que bom! Se eles foram lá, devem ter deixado muitas flores na África. Com muitas flores não há como nascer loucos. Deve dar muito louco no deserto porque lá não nascem flores. Eles poderiam ir mesmo para a África. Mas talvez esses loucos não possam ir lá por causa das fronteiras que dividem os países. Aprendi que quando a gente vai de um país para outro tem que mostrar um monte de documento. E muita gente não tem como comprar esses documentos. Deus deveria dar esses documentos para todo mundo, para que todos pudessem ir de lá para cá quando quisessem. Esses loucos iam ver que tem lugares muito mais bonitos do que o deserto sem flores pelo qual eles brigam. E se todos tivessem esses documentos não teria sentido as fronteiras, não precisaria ter elas. Todos os continentes seriam uma coisa só, um só país. Do mesmo jeito que os mares e os oceanos são. Assim, sem fronteiras, o cheiro das flores da Holanda e da Bélgica se espalharia por todo o planeta, e contaminaria todos de amor. E além do mais seria mais fácil de fazer o mapa-múndi, ninguém iria mais para a recuperação. Eu pintaria o mar de verde e os continentes de rosa, a cor do amor. Assim, contagiados pelo amor seria sempre carnaval. Viveríamos todos colhendo e vendendo flores, porque todos iriam querer comprar para dar.

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Cisco no olho

Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados "Pirilampos Cegos" (romance), "O Gosto Amargo de Qualquer Coisa" (romance), "Despoemas" (contos) e "Palavras que devoram lágrimas" (romance) e "Julho é um bom mês pra morrer" (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.
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