A odisseia da infância

por Bruno Ribeiro
retirado de https://goo.gl/zFSNKq

As consequências de uma mudança para as crianças raramente são compreendidas pelos pais. Os adultos tendem a simplificar os problemas dos filhos, usando aquela máxima de que são pequenos e irão se adaptar facilmente ao novo ambiente, entretanto, não é tão simples assim. Sempre me mudei muito, desde os nove anos, e por isso eu me identifiquei tanto com a premissa de A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, e principalmente com a sua cativante protagonista. Sair da zona de conforto e se adaptar são tarefas difíceis e que transitam paralelamente com a odisseia do próprio amadurecimento da criança.

O filme inicia com Chihiro e seus pais na estrada, em direção ao novo lar. A protagonista está triste com a mudança e neste percurso a família pega o caminho errado e vai parar na entrada de um misterioso túnel. Eles decidem ver o que há no final da passagem e a partir daí situações surreais e estranhas aparecem para Chihiro, que se verá no decorrer da história em uma espécie de Alice no País das Maravilhas, tendo que trabalhar em uma casa de banho para espíritos, vendo seus pais transformados em porcos e habitando um mundo onde bebês gigantes, sapos falantes, um amigo que se transforma em dragão e uma bruxa rouca, enrugada e com uma cabeça gigantesca, são normais. Na realidade, a única coisa anormal neste mundo são os humanos.

É quase como se Alejandro Jodorowsky dirigisse uma animação.

Definir o filme exclusivamente como infantil é um equívoco, dentro da trilha encantadora, caras e bocas divertidas, vilões caricatos e (poucas) piadinhas inocentes, se encontra um filme potente e maduro, cheio de referências às mudanças da vida e ao crescimento de uma criança. Logo no começo já vemos uma sutil metáfora sobre o desapegar dos laços do passado: Chihiro lê a carta de uma amiga, falando que sentirá saudades dela. Junto da carta há um buquê. Depois de um tempo, as flores murcham. A protagonista fica triste ao saber que as flores morreram, mas às vezes, na vida, é necessário deixar algumas coisas para trás ou nos acostumar com uma perda. No decorrer do filme, essas metáforas sobre amadurecimento, desapego e mudanças serão rotineiras. Como diria José Saramago, uma criança também cresce nas sombras. E essa frase poderia resumir a odisseia de Chihiro.

Um dos personagens que mais me chamaram atenção é o Sem-Face. Outra das analogias de Hiyazaki. O personagem é um espírito sem personalidade que se aproxima de Chihiro, mostrando simpatia pela mesma. Sua personalidade transmuta no momento que ele devora outros espíritos. Após comer alguns funcionários da casa de banho que Chihiro trabalha, ele se altera, assumindo as vozes dos devorados e suas personalidades. Mesmo em um mundo de espíritos em que todos tem nojo de humanos, os xingam e dizem que fedem, é  interessante ver que eles não se diferenciam muito de nós. Todos são gananciosos, aproveitadores e arrogantes. É através deles que o Sem-Face se torna uma criatura gulosa, monstruosa e maligna. Com o tempo, a criatura consegue voltar ao normal e o vemos vomitando todo aquele mal que os espíritos (e por que não, a humanidade?) fez com ele.

Mas para Myiazaki, não existe uma rota única. A ambiguidade se faz presente e sempre há uma chance de redenção. A dualidade é exposta no ecrã e vemos o lado bom dos espíritos. Assim como os humanos, eles também conseguem ser amáveis e companheiros, ajudam o próximo quando necessário e vibram quando a protagonista consegue cumprir seus objetivos finais.

Há uma espécie de poética nos quadros que nos puxam para dentro do enredo, tornando-nos cúmplices das lições que o filme apresenta. Miyazaki não perde o ritmo em nenhum momento, criando um verdadeiro clássico da animação. A beleza dos planos gerais e a maestria do mesmo para decupar o filme nos leva a crer não estamos diante de uma mera diversão para a família. Há um sub-texto forte e com camadas reflexivas.

Um exemplo dessas mensagens que o filme solta sobre nós, encontra-se em uma sequencia icônica. É quando Chihiro e o Sem-Face, agora recuperado dos males que havia sofrido ao devorar os funcionários da casa de banho, decidem ir de trem à casa de Zeniba, irmã gêmea da vilã Yubaba, para resolver um problema envolvendo Haku, um grande amigo que Chihiro fez neste mundo. No caminho, a protagonista e o espírito sem personalidade ficam sentados, aguardando a sexta parada, onde eles devem descer. E pelo caminho, um impacto sensorial nos é apresentado. Vemos espíritos vagando com suas bolsas de trabalho, cabisbaixos, entrando e saindo do trem, enquanto uma trilha sonora lírica é encaixada na montagem, que nos hipnotiza. Aos poucos compreendemos que a realidade do filme não é distante da que vemos nos grandes centros urbanos.

Nessa sequencia ainda, um primeiro plano de Chihiro olhando para a janela do trem surge, e nele vemos outra protagonista. Um semblante de mudança é nítido. Sabemos que algo aconteceu ali. Ela não tem mais medo, as perdas da vida virão, mas ela saberá manejá-las. No sub-texto dessa viagem encontra-se a maestria do filme. Chihiro amadureceu e nós, meros expectadores, acompanhamos o seu crescimento dentro de um transe sublime e silencioso.

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