Entrevista com Caetano W. Galindo

por Léo Prudêncio
Foto de Marina Pilato

O professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná, Caetano W. Galindo, tem recebido inúmeras atenções da crítica literária e de estudiosos da obra de James Joyce acerca de seus estudos sobre o referido autor irlandês. As traduções, como também os seus ensaios, sobre a obra do autor de “Ulysses” tem sido referencia para acadêmicos e simpatizantes de Joyce. Galindo nos concedeu uma breve entrevista não apenas sobre Joyce, mas também conversamos sobre traduções literárias, Bob Dylan e música.

 

Como surgiu a proposta para ser tradutor? Iniciou-se com você ou surgiu algum pedido específico por algum editor para que você traduzisse alguma obra?

Tipo no começo? Tudo começou na verdade com o projeto, acadêmico, no meu doutorado, de traduzir o Ulisses. A partir dali alguns conhecidos (Cristovão Tezza, Luís Bueno) me recomendaram a editores que conheciam, e eu pude fazer os primeiros trabalhos, já como tradutor ‘contratado’, em projetos que me eram passados. E daí fui seguindo em frente, sempre com um trabalho gerando o próximo, até chegar à Companhia das Letras, quase 10 anos atrás.

 

Pelos cursos de Letras comenta-se que “o tradutor é um traidor”. Você concorda com isso?

Assim, sem contexto, é só uma frase de efeito. Uma bobagem, mesmo. O tradutor é traidor na medida em que “trai” expectativas que, no fundo, nem o leitor nem o autor teriam: a noção da “transmissão fiel de forma e conteúdo”, que é, obviamente, uma impossibilidade conceitual. Fora isso, ou seja, desde que seja considerada essa impossibilidade pessoal, queria eu que todo “traidor” tivesse o empenho e a dedicação (além da influência direta na repercussão e no sucesso do “traído”) quanto os tradutores literários.

 

Qual a sua relação pessoal/intima com a obra do irlandês James Joyce? Acredito até que você seja mais conhecido devido as traduções que você fez da obra dela, ou me equivoquei?

Não. Devo não apenas a minha carreira como tradutor, mas também o que acabou sendo a forma da minha carreira acadêmica a Joyce. Eu hoje, por exemplo, tenho uma bolsa de produtividade do CNPq (que é uma espécie de reconhecimento de mérito na produção acadêmica) que acaba de ser renovada, mais uma vez com um projeto em torno da obra de Joyce.

Ele mudou a minha vida, como leitor, como professor, como tradutor, como pessoa mesmo. Tenho grande amor (desculpa a palavra brega) por ele, por seus personagens, por suas obras. E gosto demais de ser “reconhecido” como alguém ligado ao trabalho de divulgação da obra dele no Brasil. Me orgulha demais ter produzido uma tradução do “Ulysses”, uma de “Um retrato do artista quando jovem”, uma de “Dublinenses” (que sai este ano) e, claro, o guia de leitura “Sim, eu digo sim”…. e ter produzido assim uma espécie de via de acesso, completa, a esse romance incrível.

 

Qual você recomenda ler primeiro “Ulysses” ou “Sim, eu digo sim – uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce”?

Pra os mais corajosos, tentar ler antes o romance, depois o guia, e aí certamente o romance de novo!

No geral, acho que vale bem a pena ler toda a “introdução” do guia, e depois alternas as leituras dos episódios do romance e das análises de cada um deles no guia.

 

Existe algum texto joyceano que te deu muita dor de cabeça na hora de juntar as peças e traduzir?

O “Finnegans Wake”, certamente, com que eu venho lidando tentativamente há uns 15 anos, e que devo traduzir inteiro nos próximos 3 ou 4…

 

Sairá em breve o primeiro volume contendo as letras de Bob Dylan traduzidas por você, aliás, o que você achou de um Nobel de Literatura entregue a um compositor pop?

A única coisa de que eu não gostei (e eu disse isso em público) é do fato de se ter como que “queimado” um nobel americano (a academia tende a ser sovina com a produção de lá) com alguém que, no fundo, nem precisa do nobel. Consigo pensar em pelo menos meia dúzia de poetas americanos cuja obra se beneficiaria astronomicamente de uma premiação como essa.

 

Letra de música pode ser considerada poesia?

Claro. A música pop é o veículo número um de consumo de poesia do mundo inteiro há décadas. Mas isso quanto à letra da canção NA canção. Tirar dali e pôr no papel vai ter resultados muito díspares.

 

Existe poesia na canção brasileira? E que compositores lhe roubam o silêncio?

Uia! E como, e quanta!

Eu às vezes suspeito que Chico Buarque é o maior escritor brasileiro do século XX, depois de Guimarães Rosa…? E seria mesmo que nunca tivesse escrito um romance.

 

 

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Um comentário

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  • vivian de moraes
    17 abril 2017 at 9:32 pm

    Li a tradução de Galindo de Ulysses e amei, foi uma profunda experiência artística. Parabéns, Leo, por nos trazer uma entrevista com esse cara tão bacana!

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