O homem que queria ser rei

por Nathan Matos

O homem que queria ser rei, de Rudyard Kipling, era desconhecido pra mim. Nunca ouvira falar no livro, muito menos no filme. O autor, Kipling, já é conhecido do público, mesmo que só lembre-se dele quando dissermos que foi ele quem criou Mogli, o mesmo que figura em um desenho lançado pela Disney, em 1967. Mogli é o personagem de um dos livros do autor que nasceu em Bombain, O livro da selva. Contudo, a história contada pelo editor de um jornal é totalmente diferente da que, provavelmente, o leitor conhece.

O jornalista (no filme é tratado como Kipling), que está em um trem que vai de Ajmir até Mhow (atravessando parte da Índi), acaba por encontrar um homem num dos vagões e que se passa por correspondente de um jornal, pois assim consegue viajar tranquilo de um local ao outro. Em uma breve conversa, o narrador fica a saber que o correspondente deseja é que lhe ajude a passar um recado para um outro ‘correspondente’, que está no entroncamento de Marwar, um homem de cabelos e barba ruiva, algo, forte e impossível de ser notado. Todos são ingleses. O editor diz que fará o que o ‘correspondente’ lhe pede se encontrar o homem. Algum tempo depois, ao se despedirem, o editor do jornal consegue encontrar o ‘homem ruivo’ num vagão de segunda classe e lhe passa o recado “Ele foi passar a semana no sul”.

Depois de uma breve conversa, sem saber em que se metera, o editor resolve descrever os dois homens que se passavam por correspondentes de jornal em uma denúncia que fizera. Assim, conseguiu com que ambos fossem barrados na fronteira de Degumber. Daí em diante, o que se tem é uma breve narrativa de como o tempo e a cidade em que o jornal do editor está instalado acontece. O calor, as pessoas, o comércio tudo é narrado de forma breve, sem se imiscuir em detalhes demasiados, o que faz com que o leitor tenha um panorama geral do que cerca os personagens. O que creio ser importante nessa novela, uma vez que é uma história de aventura, e parar para dar maiores detalhes poderia ser prejudicial à narrativa.

 

 

Veremos, então, que os dois homens que acabaram por ser pegos se dirigem, tempos depois, até o jornal. Ambos chegam com uma ideia que parecia ser de outro mundo, pois, facilmente, poderiam ser tratados como loucos. Por quais razões? Ora, eles querem ser reis! Reis do Cafiristão!

O leitor pode pensar que tal lugar não existe. Calma lá, de acordo com Peachey Carnehan e Daniel Dravot ele existe, e é lá que eles serão reis, destituíram quem estiver no poder e conseguirão colocar as coroas sobre suas cabeças.

Ao editor, confessam que pretendem ir até lá para viver com o melhor que podem, a dar ordens e ter um exército sobre seu poder. Pedem um mapa ao jornalista para que possam mostrar onde fica o local e como pretendem chegar até lá, e antes que pense que ambos estão loucos (ou bêbados) que lhes dê uma chance de explicar tudo.

Os dois fizeram uma pesquisa profunda  e chegaram à conclusão de o lugar que desejam ir é o Cafiristão, uma região do Afeganistão que fica a uns 500 km de Peshawar, no Paquistão. Nesta região, são muitas as tribos que vivem em guerra. E que assim cria-se a possibilidade de treinarem homens e de terem o exército que almejam para tomarem o que desejarem.

Mesmo sem colocar muita fé, o editor do jornal se despende de ambos e o que iremos acompanhar por mais da metade da novela é a aventura dos dois ‘bêbados-loucos’. Toda a história será contada por Peachey, que volta, ao final, depois de alguns anos, sozinho para o local de onde partiram, o jornal. Ao encontrar o editor, acaba por lhe contar tudo o que acontecera. Sim, eles conseguiram ser reis. Sim, eles acabaram sendo vistos como entidades. Sim, eles perderam tudo que conseguiram em pouco tempo.

Com uma escrita que só vi em poucos autores, Rudyarad Kipling vai nos levando aos confins do mundo em uma aventura que não se pode acreditar. Dois homens, que foram sargentos do exército britânico, conseguem ultrapassar fronteiras e chegar até tribos que estão quase que desvinculadas do resto do planeta, bárbaros que vivem a brigar entre si.

Nesse ponto, as aventuras são contadas de maneira geral, o tempo passa de maneira rápida, mas é compreensível tendo em consideração o tamanho que uma novela costuma ter. Ainda assim, é possível acompanhar as guerras, os descobrimentos que Dan e Peachy realizam. Além de conseguir unir várias tribos, de se tornarem reis delas, talvez mais Dan do que Peachy, que acaba sendo visto como o braço direito do rei Dan, conseguem encontrar um tesouro inimaginável, o que poderia, então, fazer com que ambos resolvessem voltar para o seu país e ter uma vida de reis, mas desta vez sem ter que destituir a rainha da Inglaterra.

Mas não é o que ocorre. Dan parece ter mais ambição que Peachy e o que deseja agora é ter filhos para que possam governar o que ele conquistou. Assim, escolhe uma bela jovem, que não o deseja, e enfrenta a raiva do conselho ancião que não acha que um Deus se casa com uma mortal. Mesmo assim, Dravot passa por cima de todos e quer realizar o casamento. A moça com quem irá se casar, no momento em que chega mais perto de Dan, acaba por lhe fazer sangrar e o povo não o vê mais como Deus, mas como mortal, e que agora, por ter enganado a todos, obviamente, merece morrer.

O que acontece com Dravot e Peachy é algo normal em aventurar como essa, em guerras há morte sempre estará presente, assim como a vontade de ter o poder nas mãos e a vontade de subjugar os outros. Mesmo sendo possível observar que Dravot e Peachy possam servir como exemplo do que temos em nossas consciências, vozes que podem nos levar de um lado ao outro, buscando um equilíbrio, perceberemos que um lado sempre há de pesar mais do o outro. Se algo de ruim ou de bom irá acontecer só o tempo dirá.

A narrativa de Kipling serve também como uma história que contém uma moral, em que a mentira uma hora há de ser mascarada, em que querer se sobrepor aos outros não deve e nunca vingará. Mas a novela de O homem que queria ser rei é mais do que isso também. Mesmo que tenhamos sujeitos medíocres, que querem ser reis, e que pra isso enganam muitas pessoas, é um espaço para acreditar que o que se quer pode ser alcançado.

Bem, espero que não sigam o caminho deles, mas que o leitor alcance o que almeja.

 

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Editor e criador do LiteraturaBr. É também editor da Revista, da Editora Substânsia e da Editora Moinhos. A literatura o salvou na adolescência, quinze anos depois ele ainda persiste no sonho.
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