Cale-se

Cláudia Marczak

Era melhor não dizer nada. Quem muito diz se compromete e isso não é bom para pra café pequeno. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. Em boca fechada não entra mosca. O peixe morre pela boca. Eram os antigos que falavam e eles sabiam das coisas.

Era melhor não dizer nada e calou-se. Falar até que falava. Do tempo, da vizinha, aquela sem-vergonha que andava com qualquer um, do cunhado subversivo, comunista safado, que vinha com essas ideias de manifestação, greve, povo, só apoiava isso  porque tinha emprego público, queria ver se fosse em outra situação, essa situação de ter que ficar de boca calada, de engolir sapo de mãos amarradas. Cada um sabe onde é que apertam seus calos.

E os seus calos doíam. E como doíam.  E já não conseguia mais falar porque desaprendera a palavra que grita. Olhou sua boca muda, suas mãos atadas, seus pés feridos. Não se reconheceu. Quem era mesmo? Abriu a boca na tentativa do grito. Saiu um sussurro, um fio de voz. Ali ainda a palavra habitava, o dito, o berro. Largou de mão, pisou o chão e foi pra rua, pra praça, com seus pés feridos, suas mãos atadas, com a palavra num fiapo de voz, que se juntava a outros fiapos, tecendo uma teia que gritava aos berros a dor de todos.

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Cláudia Marczak é professora e psicóloga. Nasceu em Santos, litoral de São Paulo. Tem dois livros de poemas publicados, Caos e Lugar Algum e um romance, A Flor da Pele, publicado pela Editora Penalux.
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