A poesia de Anelise Freitas

por Nathan Matos

Anelise Freitas (1987) vive em Juiz de Fora (Minas Gerais/Brasil) desde 2007, cidade onde publicou seus livros de poemas Vaca contemplativa em terreno baldio (Aquela Editora//2011), O tal setembro (Edição da Autora; reedição pelas Edições Macondo//2013; 2016) e Pode ser que eu morra na volta (Edições Macondo, 2015). Bacharela em Comunicação Social; mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora, instituição onde também concluiu a graduação em Língua Portuguesa e Literaturas. Desde 2011, é uma das integrantes do grupo Eco Performances Poéticas, que há quase uma década integra a cena contemporânea de poesia da cidade. Já participou de saraus e publicações no Brasil e na Argentina.

 

UM SUBSTITUTO ABSTRATO PARA UM POEMA

(dedicado aos que tem a raiva como um dom
aos poetinhas de plantão
aos menores religiosos da palavra
ao notório saber do nada)
escrever a poesia como o guitarrista do rage against
the machine em um show do rage against
the machine como a raiva e o dom
da raiva como o guitarrista
dialogando com o amplificador
a sua raiva como um dom

você achando que eu trabalho
pra você como a raiva
o meu dom mas não

a estrela e todas as estrelas
mal compreendidas menos
aquelas que ficam no peito
como os livros que alguém já leu
as estrelas e a luz quando
se apagam um partido
como uma religião ou a raiva
a raiva o meu dom

como um bis pra dizer
matando em nome
em nome da força
dos que trabalham e matam
em nome de estrelas
mortas
enquanto você continua fazendo o que
eles mandam bebendo de você
no ritual de posse
da estrela vermelha ou azul
meu sangue preto e a minha raiva
meu dom anti-você
como o suor do guitarrista
pingando como a fé
e você rezando ante
meu corpo preto pra mim
meu corpo fechado pra você
você não
não me diz o que fazer

 

*

 

AVE-DO-PARAÍSO

Well, it’s five o’clock in the morning
E foi assim que comecei a observar outras coisas que não só a tua boca
e os teus cabelos
e vi também as tuas unhas por detrás do livro de capa vermelha
e um pouco do teu nome.

Somos amigas desde octubre,
quando não mais trocamos palavras além dessas
e também daquelas manchadas na página;
Quando você nasceu, meus irmãos brincavam na varanda
e corriam do pai, que ameaçava com a chinela
e com o vaso quebrado.
Minha mãe sorria.

No dia do teu nascimento João Figueiredo
sancionava a lei 7070, concedendo pensão especial, mensal, vitalícia
e intransferível, aos portadores da “Síndrome da Talidomida”.
Na capa dos jornais o Brasil pedia socorro
a Nova York; o primeiro-ministro
português deixava o cargo; a luz corta o barato, declarava
Ney Matogrosso.

Macau é devolvida à China após quatrocentos anos de ocupação portuguesa.
Derreteram a Jules Rimet.

Well, it’s two o’clock in the morning

E essa ingenuidade não combina mais.

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