Um Blues pra Clint

por Roberto Menezes

 

Tem outro jeito não. O cara tem que encarar a vida de pau duro. De pau duro. Sem baixar a guarda. Dormir de pau duro. Acordar de pau duro. Vinte e quatro horas. Sangue nas veias e um pau duro pulsando na cueca. A vida não perdoa. A vida faz polenta de homens frouxos. O homem é uma rocha enquanto seu pau for. Clint, sim, pode me chamar assim. Esquece esse da identidade. Já esqueci. Nome de batismo não escolhi. Clint sim. Fã? Dos filmes não, só do Clint mesmo. Tanto faz. Gosto do Clint do velho oeste. Do dos policiais também. Desde quando? Como assim? Desde quando me chamo assim? Foi no dia que larguei o trabalho no INSS, saí da repartição e fui atrás de um Opala. Opala 73 preto. Motor 151. Todo original. Até os bancos de couro eram. Comprei no pau. Quando entrei no carro, me dei esse novo nome. Merecia esse presente. Um prêmio. Prêmio de quê? Ah, cara, deixa eu te situar na história. Tava completando três anos de viuvez. Semana de Páscoa. Olhei prum lado, olhei pro outro. Os parceiros de trabalho uns manés. Um chefe pau no cu enchendo o saco. Basta. Precisava ficar chupando ovo de ninguém não. Sou bem nascido. Duas heranças. Essa porra de trabalho dignifica homem nenhum. Até nunca mais, governo federal. Quarenta e dois anos. Clint não devia nada a ninguém. A única pessoa que eu tinha batido continência até ali foi pra Helena, minha santa que o câncer levou. Primeira namorada. A única. Casei tinha vinte e três. Nunca deixei de cumprir as obrigações de marido. O filho não veio. Ou ela ou eu, um dos dois não podia ter. Ninguém correu atrás pra saber. Helena morreu. Foi uma barra. Ficou um buraco no meu peito. Difícil explicar. Coisa que só quem sentiu sabe. Um buraco não pela falta de Helena em si. Era a falta que ela fazia em mim. Com ela, eu ia e vinha do trabalho por existir um sentido nisso. Todo marido tem que fazer. Essa é a função. Mantenedor. Cabeça da família. Tá lá na bíblia, vê lá. Acordar, ir pro trabalho e voltar. Helena esperava todo dia com um beijo. Um beijo burocrático era o que a gente tinha. Eu fazia a minha função. Ela, a dela. Burocráticos, igual a bater ponto, igual a encaminhar processos pra aposentadoria. Jantava, deitava com ela e dormia. Um baque quando ela morreu. Se perdeu a razão pra aquilo tudo. Uma grande bosta era viver daquele jeito. Mas eu vivia. Meu coração foi virando pedra. Meu coração e minha cara de Clint nasceram vivendo três anos naquela casa. Deitando naquela cama vazia. Acordar de madrugada e evitar fazer barulho pra não acordar Helena, que não tava mais lá. Sentar na mesa, na mesma hora de sempre e tomar sopas sem sal, fixar o olhar pro outro lado da mesa sem ninguém pra rebater a visão. Raiva do relógio. Raiva daqueles velhos que chegavam com suas senhoras e ficavam na fila feito dementes pra eu atender. Inveja do caralho, cara. Inveja e raiva. Cara, anota aí, por favor, Helena me fez uma falta danada. Se ela tivesse ainda comigo, eu não taria aqui de frente pra você. Essa merda toda não tinha acontecido. Azar, né? Helena, minha santa, foi pro lugar que merecia. Eu mereço estar aqui. Mereço pior. Não cumpri até o fim a promessa que fiz a ela. Promessa? Sim, prometi a Helena não me apegar a outra mulher. Não me apeguei, por um bom tempo, não me apeguei. Isso não quer dizer que virei santo. Dois dias depois do enterro, parei de beber, parei de chorar. Cortei o cabelo, fiz a barba, coloquei roupa nova e fui no Centro. Rua da Areia. Entrei no primeiro puteiro que encontrei aberto. Começo da noite. Uma puta atrás da outra. Sem nome, sem cara. Negra, branca, galega, morena. Nem lembro. Puni cada uma com meu pau. Que culpa tinham? Ah, cara, não me enche o saco, eram putas. Isso basta, beleza? Saí de lá já tava de manhã. Deixei o carro por ali. Fui caminhando pra casa. Respondendo a sua pergunta, Clint nasceu naquela caminhada. Se o Centro tivesse cheio, o povo abriria espaço pra eu passar. A raiva é poderosa, irmão, só basta a gente saber domar. Pra isso tive o luto. Três anos. Clint, um homem de face inflexível. Domador de raiva. Foda-se, trabalho, foda-se… Calma, calma, foi você que perguntou, só tou respondendo. Se quer que eu vá direto ao assunto era pra ter dito. Ok, ok, não perca a paciência. Você é um profissional como eu era. Sem paciência pra enrolação. Então vou contar como deixei de ser Clint e virei um merda. É isso que você quer saber. Quer saber o dossiê de um merda. Aí você vai feliz pra casa. Posso dizer que me fudi mesmo. Me fudi quando apareceu uma mulher que me amoleceu. Cinara, essa aí da foto, essa mulher quase acabou com minha vida. Quem ia acreditar que um cara do meu naipe, Clint durão, ia amolecer pruma mulher. Cinara me amoleceu, Cinara me tornou um brocha. Cinara transformou um Opala 73 num Palio 95 de merda. Cinara, vinte e quatro anos, moreninha gostosa, peitinhos olhando pro céu. Encontrei num desses happy hour na praia. Véspera do meu aniversário, cinquenta e um. Ela chegou acompanhada de um viadinho. Piscou o olho, me viu. Só foi meia hora pra gente sair dali. O que ela sentiu quando entrou no meu Opala? Não sei. Não dei muita bola. Até ali era só mais uma pra lista do Clint. Mais uma neguinha pra fuder. Depois pagar o táxi e até nunca mais ver. Ledo engano, cara, ledo engano. No outro dia de manhã, tive que pedir uma extensão de quatro horas na pernoite do motel. Fudido, eu tava fudido. Cinara rasgou essa porra de lista do Clint. Senti na hora. Ela de costas. Entrando pro banheiro. Deixando a porta aberta. Mijando pra eu ver. Não tava nem aí pra me agradar. Ela nem olhava pra mim. Se alguém tivesse fotografado a minha cara ia capturar a hora exata que deixei de ser Clint pra virar um bundão, rola mole, gala rala. Um pau mole dos pés à cabeça. Difícil dizer o que foi. A chave de buceta ajudou? Sim, ajudou. Mas não foi isso. Foi feitiço mesmo. Mulher igual a Cinara tem disso, tem pacto com satanás. Corri atrás dela. Cachorrinho. Enchi Cinara de agrado. Ouro. Couro. Dinheiro. Um sacrilégio pensar em economizar perto dela. O que vinha na minha cabeça passava por ela. Tinha que ter ela. E sabe o pior? Cinara não tava nem aí pra mim. O Clint que as outras imploravam pra ter era tratado com desdém. Tratava os meus presentes do mesmo jeito. Quem era Cinara? Uma pobre lascada. Órfã de pai e mãe. Veio lá de sei nem onde de Minas Gerais. Morava com uma tia miserável no Rangel. Não trabalhava. Não estudava. Só queria saber de curtir. Cinara, cínica, puta, sádica, me fazia de besta por esporte. Se fosse outra, se não fosse Cinara. Com o Clint, nenhuma mulher passava dos limites. Mas Cinara não era outra. Dois anos nessa coleira. Acredita, cara? Fiquei nessa por dois anos. Dois anos que me transformaram numa caricatura do homem que fui. Se eu tentasse manter a pose, a cara de mal, não dava. Um brocha é um brocha. Se disfarçar fica mais patético. O velho Clint deixou crescer barriga. O coração do velho Clint agora sofria pra vencer um lance de escada. Na briga de braço com meu Domecq, meu velho Domecq de guerra, joguei a toalha. A idade começou a pesar, cara. Meus cinquenta anos montaram nas minhas costas, senti o peso. Clint brocha, fazendo vergonha ao nome que carregava. E se alguém viesse me perguntar, Puxa, cara, cadê o velho Clint?, eu balançava o rabinho de puta, como a verdadeira puta que me tornei. Aí dizia, feito uma puta, Nunca tive tão feliz assim. Cachorrinho de estimação de Cinara. Pau mole. Veja só até onde chegou minha otarice. Tirei do banco uns dez mil. Comprei duas passagens pra Paris. Paris, cara, acredita, Paris. Primeiro ter a coragem de entrar numa agência e me informar sobre isso. Não, Clint não era disso. Mas eu não era mais Clint. Saí de lá com programa completo. Três semanas num hotel legal. Clint afrescalhado. Jantar a dois. Violinos. Taças de vinho. E eu, veja lá, oferecendo a Cinara juras de amor eterno. Tudo perfeito, né? Não. Cinara tava noutra. É só o cara arriar os pneus pra esquecer o mundo que vive. Pensei ter tirado Cinara do mar de tubarões. Pensei ter curado seu cinismo. Fui aprender que cinismo não se cura. E sadismo também não. Dois dias antes da viagem, Cinara sumiu. Só deu as caras uma semana depois, começo do mês agora. Puta. Não tou bem, foi o que ela disse. Depois de arrodear, falou que era melhor a gente se separar. Aí implorei. Quem me visse implorar veria o estado mais patético que um homem pode chegar. Eu rastejava e segurava a porta pra ela não ir embora. Eu tava me traindo. Traía tudo em que eu acreditava, mas foda-se. Aí ela olhou pra mim. Vi ódio na cara dela. Um ódio que não entendi. Não era aquela raiva que eu carregava e me fez Clint. Era outra coisa. Mais sinistra. Pensei que ela fosse me engolir. Cuspir na minha cara. Ela me olhou por dez segundos, aí me perguntou, Tu faz tudo por mim? Balancei a cabeça. Poodle abestalhado. Tudo, meu amor, tudo. Então me dá o teu Opala! Cinara saiu. Balançava a chave e levava com ela o resto de moral que um dia eu tive. Antes de bater a porta na minha cara, me falou que eu só ligasse pra ela quando tivesse o documento da transferência nas mãos. Só foi o Detran abrir na segunda-feira. Lá fui eu entrar com as burocracias. Toma, Cinara, é teu. Me contentei em ir na loja de carro usado e pegar aquele Palio 95 com cor de cu. Foi questão de pele. Representou bem o que me tornei. Cinara sumiu até quinta passada. Aí ligou. Um motelzinho do bom. Pelos velhos tempos. Não prometia voltar. Bora deixar rolar. Ontem me arrumei e fui ter com ela. A gente chegou no motel, era quase meia-noite. Cinara tentou endurecer meu pau. Um boquete relaxado. Pedi paciência. Paciência, meu amor. Tava irritada. Não quis me dizer por quê. Sentou do lado da cama. Na TV, a atriz fudia com dois negões. Paus duros. Baixei os olhos de vergonha. Cinara foi mijar sem me dá importância. Do mesmo jeito que da primeira vez. Mas só ontem saquei isso. Eu não era importante pra ela. Era só uma puta louca. Uma puta como qualquer outra. Caí na real. Percebi que ficaria assim até quando ela quisesse, acorrentado nessa merda toda. Ela gostava dessa merda toda. Eu gostava dessa merda toda. Se ela viesse, pisasse na minha cara, mijasse na minha cara, eu ficaria agradecido. Eu tinha que sair dali imediatamente. Virar a esquina e esquecer Cinara. Ela lá de cabeça baixa sentada na privada, sabe-se lá o que pensava. Vesti a roupa, peguei minha carteira, deixei cinco notas de cem em cima da cama. E nem dei tchau. Pra onde você vai? Cinara gritou correndo na minha direção. Hein, seu merda, vai me deixar aqui, seja homem pelo menos uma vez na vida. Cara, agradeço a Deus por ela ter dito isso. Se eu saísse daquele jeito, nunca voltaria a ser o Clint. Hoje tou feliz. Tou fudido, sei que tou fudido, mas voltei a ser o Clint. Clint com orgulho. Mas então, não deu tempo de ela falar mais nada. Enfiei um murro em sua fuça. A puta caiu. Grogue. De costas pro chão. De papo pro ar. Não sou burro pra dizer que ela nunca tinha levado na cara uma porrada dessas. Foi certeira a porrada. Dura. Senti os ossos dos dedos quase rachando. Os da cara dela com certeza racharam. Abaixei e montei nela. Não sentei. Fiquei de cócoras. Uma perna de um lado. A outra perna do outro. Meus olhos alinhados com os dela. Natural. Automático. Parecia ter treinado exaustivamente. Com a mão direita sufoquei Cinara. Com a esquerda, comecei a encher a cara dela de marteladas de punho fechado. Não sei precisar se ela morreu de tanto eu bater ou sufocada pela pressão de uma tonelada sobre a traqueia. Antes, ainda tentou alcançar meu rosto. Esticava os braços pequenos nas mangas do meu casaco. Eu batia, batia, batia, martelava sem dó. Podia sentir os ossos racharem, a pele rasgar, o sangue minar dos rasgões, espirrar do nariz, escorrer pelos cantos da boca. E mesmo quando Cinara amoleceu os braços e parou de arregalar os olhos, continuei a bater e esgoelar. A dureza do rosto se afundando pra dentro do crânio. A maciez do berro de vaca interrompido na traqueia antes de chegar à língua. As córneas estáticas e arregaladas. A cara afundada de um lado só. Os dentes partidos cuspidos nos espasmos da língua. Fui espontâneo demais, cara, demais, nunca fui tão feliz em minha vida. Nunca me senti tão vivo. Fiquei assim, em pé, me orgulhando de mim mesmo. Cinara desfigurada. Linda mais que demais. Coloquei o ouvido no meio dos peitos dela, na tolice besta de ainda ouvir o coração bater. Queria, não é pedir demais, queria simplesmente ouvir ela morrer. Até escutei alguma coisa, mas eram as vibrações do meu coração. É óbvio que eu tava excitado com a cena toda. De pau duro. Satisfeito? Não. Ainda em cima do corpo de Cinara comecei a me masturbar. Eu realmente queria fazer isso. Arranquei a roupa dela. Toquei o seu corpo. Linda mais que demais, você é linda, sim. Olimpicamente, cara, como um desgraçado campeão olímpico, gargalhei na hora que o jorro de porra espirrou naquela cara morta. A cor de porra se manchou de vermelho. Fiz questão de espalhar. Pelos peitos. Pela barriga. Enfiei três dedos lambuzados na buceta dela. Queria rasgar a buceta dela. Enfiei a mão toda dentro e girei. Com mão esquerda, girei, ora no sentido horário, ora no anti-horário. Nem sei quanto tempo demorei nisso. Satisfeito? Agora sim, sua puta. Vá pro inferno fazer dupla com Satanás. Dei uns dois passos pra trás e sentei na cama. Meti a mão no bolso e peguei um Derby. A fumaça entrou deliciosa. Fumaça com gosto de sangue, porra e buceta. Peguei o controle remoto e coloquei na Band. Clint me esperava montado em seu eterno cavalo. Seus olhos em close me diziam, Irmão, tou orgulhoso de tu. Deitei e dormi. Tive um sono calmo e delicioso de bebê, até você me acordar.

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Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados "Pirilampos Cegos" (romance), "O Gosto Amargo de Qualquer Coisa" (romance), "Despoemas" (contos) e "Palavras que devoram lágrimas" (romance) e "Julho é um bom mês pra morrer" (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.
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