A tempestade

por Nara Vidal

 

Ouvi falar na Miss Tempest quando ela ganhou, para a surpresa dos acadêmicos, o importante prêmio literário Ted Hughes por inovação poética. Foi lá em 2013 que eu li “Brand New Ancients”, um poema longo e excelente sobre a importância da individualidade, mas não a egoísta, a que massacra meios para fins. A essência pessoal, o valor único e que nos faz os mesmos de sempre. Ela escreve que nossos amores, infidelidades, dores e horrores são os mesmos dos deuses gregos. Tempest tem uma clara admiração por mitologia grega e vez ou outra isso é evidenciado no seu trabalho.

Três anos depois, a publicação do impactante e originalíssimo “Let them eat chaos”, coloca Tempest definitivamente como uma das vozes mais surpreendentes da poesia contemporânea inglesa.

De certo, Kate Tempest tem algumas repetições que, devido ao seu impressionante trabalho, chamo aqui de obsessões poéticas e temáticas. Novamente a autora se concentra em Londres, mais especificamente no sudeste da cidade, lugar em franco desenvolvimento e que passa por uma incrível regeneração urbana. Por conta da prosperidade do país e da pouca oferta de imóveis, o sudeste londrino, visto nas décadas de 60, 70 e 80 como buraco da capital a ser evitado, tem atraído um perfil curioso de profissionais e famílias jovens, geralmente multiculturais e muito cool que acredita que dar vida a lugares feito Brockley é poeticamente honesto além de render um belo retorno financeiro quando, eventualmente, esse casal cool envelhecer e virar seus próprios pais à procura de uma casa com jardim em Clapham, Balham ou Wondsworth. Mas Tempest descreve o local com muita propriedade. Ela é de lá, cresceu lá e ainda não se seduziu com o luxo do oeste, por exemplo.

É também inegável a sua propriedade na descrição de classe. Uma obsessão britânica, as classes sociais são um assunto de inesgotável polêmica que envolve questões humanísticas, políticas e uma clara perpetuação de privilégios. Tão cruel é a divisão de classe no país que, mais que o dinheiro do novo rico, o que conta mesmo é o sotaque. Um sotaque “posh” é o oposto do sotaque da autora. O falar entrega a origem, o passado, a criação, o pobre e o rico.

Em “Let them eat chaos”, tais temáticas estão novamente presentes, feito em “Brand New Ancients”, mas no trabalho mais recente, Tempest consegue ser ainda mais brilhante. ´

É certo que há nela um tom de juventude que beira o ingênuo. É um grito que proclama tudo que não deu certo em nós, na humanidade. Todo o nosso fracasso, nossos pequenos prazeres, nossa solidão, nossa tristeza que observada de fora passa a ser deprimente, mas é sempre a mesma, inclusive a de quem observa.

O poema tem setenta e duas páginas e, novamente, Tempest sugere uma leitura em voz alta, afinal, multimídia que é a artista, realiza performances da sua escrita e mistura suas palavras com música, novamente com grande sucesso.

Mas eu li em silêncio como gosto de ler. Na minha pequenez solitária li com entusiasmo e contentamento. Atravessou-me uma esperança boba que é aquela contida em jovens feito Tempest, e me comoveu o otimismo da autora apesar das nossas calamidades diárias e rotineiras.

Já há quase dezesseis anos em Londres e nos arredores, me incomodou a precisão irretocável da sociedade, das comunidades, do comportamento inglês. É um retrato sensível e assustadoramente exato dos passantes da Big Smoke.

O poema é feito de tanta beleza e frescor que fica difícil destacar passagens.

Já na primeira página ela nos convida a imaginar um vácuo. Depois, descreve traços humanos e nos sugere chamar o local do qual ela vai falar de Londres. Poderia ser qualquer um, qualquer parte da Terra, “Nossa Terra”, ela diz.

Tempest sabe das coisas. Parece ter um senso de observação cortante que celebra nossas faltas e nos dá ferramentas, por causa das falhas, para construir alguma coisa, para virar o jogo, mas sem qualquer sombra de pieguice ou excesso de drama. Ela é inglesa, afinal. Sua observação e humor são secos, sucintos, enxutos. Ela sabe sobre as tragédias diárias e vive com elas, apesar delas. Não tenta se livrar delas. Não há reviravoltas e finais felizes. A resiliência da classe trabalhadora inglesa não é feita de otimismos e esperanças descabidas e dramáticas.

Meus sonhos estão todos gritando e fodidos, mas eu estou bem. / Alegria reina, são rodas que me puxam. Sim , meu futuro é brilhante, mas meu passado está tentando me arruinar.

Tentei mudá-lo

Mas eu sei

se você for muito bom pra mim

eu vou deixá-lo ir embora.

 

tento lutar contra ele

mas eu tenho certeza

que se você for ruim pra mim

eu vou gostar ainda mais de você.

(tradução livre)

A forma com a qual ela descreve a repetição de abusos e a consciência da resistência à mudança é tocante. Na voz de Jemma, uma das personagens que perde o sono junto com mais seis vizinhos que não se conhecem, ela escreve a passagem acima. Cada um com seus fantasmas e suas dores, suas rotinas e suas peculiaridades.

Pete, um drogado de, imagino, meia idade que volta a morar com o pai para economizar, reflete a dificuldade nas vulgaridades da vida como pagar contas com um mísero salário que acaba já na primeira semana. A vida presente, as sensações do instante são as urgentes. Quando recebe o salário, a vida sorri de novo, Pete se droga e bebe, escreve poemas, é feliz. O resto de mês é feito de fracasso alternado com uma urgência de responsabilidade que nunca se concretiza.

Uma das passagens mais comoventes é a de Alicia. Uma mãe em luto ela sofre, na insônia, a falta. Apesar da falta de tempo, da vida corrida e sofrida, ela sofre, na insônia, a falta do filho.

We die so others can be born/ We age so other can be young /The point of live is live/ Love if you can/ Then pass it on.

Nós morremos para que os outros nasçam. Nós envelhecemos para que os outros sejam jovens. O sentido da vida é viver. Amar se você puder. Depois seguir, passar adiante (tradução livre)

Todos os dramas tão íntimos de cada personagem do poema soam como um de nós, em algum momento, em alguma parte da vida como se pressentíssemos os erros e por pura adequação, conformássemos.

Como Bradley, de Manchester, em Londres, prosperando como deve ser.

Os dias passam feito imagens numa tela/ Às vezes, parece que estou vivendo o sonho dos outros.

A maior parte dos dias eu me sinto tonto andando sem rumo. Trabalhando, me animando. Mas eu nunca tenho certeza se estou acordado.

É isso a vida? Vai passar?

 

Pious é a última personagem. A sua miséria é o amor, a falta dele. Ela dorme com uma menina que encontrou num pub. Alonga os braços para encontrar um corpo, qualquer corpo. Aqui está um corpo. Mas eu acordo e não suporto esse corpo.

Pelo sexo uma tentativa. Qualquer tentativa: felicidade ou simplesmente sobreviver a noite. Pious não se esquece do amor que agora já era.

Eu estou pensando em você e nas coisas que você faz comigo.

Esta é a minha cabeça. Dá o fora.

Você não a quis.

Como fica dentro dela agora?

Este é o meu corpo. Deixa ele em paz.

Você não o quis.

Como o controla, então?

 

Uma chuva que cai em Londres, uma tempestade, feito a autora, na hora que todos perdem o sono, precisamente às 4:18 da manhã e leva os personagens para a rua. Eles se encontram pela primeira vez, se entreolham. Se reconhecem. Se falam.

Tempest faz um último apelo. Um apelo dos que ainda não se cansaram da vida que encontraram. Um apelo dos ingênuos que ainda acreditam que, ao reconhecermos a culpa do mundo como é, conseguiremos andar, sair da inércia que são nossos movimentos mortos e diários.

Um apelo tão lindo para quem ainda acredita:

acorde e ame mais!

Quem vem?

 

Let them eat chaos (Kate Tempest)

Edição: Picador Poetry – 2016 – 72 páginas

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