O signo barthesiano

por Giovani Kurz

Em O Signo, capítulo do Elementos de Semiologia, Barthes explora, além do próprio signo, o significado e a significação, encerrando, ainda, com o valor. A partir das noções de Saussure, o semiólogo francês traça paralelos com as ideias de Peirce, Hegel, Jung e Wallon, além de importar alguns conceitos de Hjelmslev e Lacan, para reelaborar o pensamento geral sobre os signos, partindo da Linguística para chegar à Semiologia.

Já de saída, o autor menciona o significado e o significante como componentes do signo na concepção de Saussure. A distância de Barthes para a publicação do CLG, contudo, dá lastro para um olhar retrospectivo que era impossível ao linguista franco-suíço: há, no capítulo, a sugestão de inúmeros termos afins, que poderiam, sob muitas teorias, substituir o signo eleito tanto por Saussure quanto por Barthes – sinal, índice, ícone, alegoria são algumas possibilidades. Para diferenciá-los e eleger o mais adequado, o autor desenha um quadro, em que insere as perspectivas de Wallon, Peirce, Jung e Hegel sob cinco categorias, apresentando e justificando a escolha de cada um dos teóricos. A partir disso, afirma:

Vê-se que a contradição terminológica baseia-se essencialmente no índice (para Peirce, o índice é existencial e não o é para Wallon) e no símbolo (para Hegel e Wallon, há uma relação de analogia – ou de “motivação” – entre os dois relata do símbolo, mas não para Peirce); além disto, para Peirce, o símbolo não é existencial, mas o é para Jung. Mas vê-se também que estas contradições – aqui legíveis verticalmente – explicam-se muito bem, ou melhor: compensam-se por translações de termos ao nível de um mesmo autor- translações legíveis aqui horizontalmente: por exemplo, o símbolo é analógico em Hegel por oposição ao signo, o qual não o é; e se não o é em Peirce, é porque o ícone pode recolher o traço. (p. 41)

A discussão terminológica não aparece com a mesma força em Saussure, uma vez que, é evidente, o Curso de Linguística Geral proporciona uma das primeiras discussões acerca do tema, da qual Barthes se alimenta para, com maior profundidade, estabelecer o seu próprio debate sobre as acepções.

Em seguida, o semiólogo volta à Linguística em busca da competição terminológica que cerca o signo, e de imediato reencontra Saussure ao colocar que “em Linguística a noção de signo não provoca competição entre termos vizinhos” (p. 42) e que

Saussure eliminou imediatamente símbolo (porque o termo comportava uma ideia de motivação) em proveito de signo, definido como a união de um significado (à maneira de anverso e verso de uma folha de papel), ou ainda de uma imagem acústica e de um conceito. (p. 42)

Barthes menciona a ambiguidade que Saussure tentou a todo custo desfazer, uma vez que signo muitas vezes retoma apenas o significante, e não a união do significante e do significado, como era a intenção inicial. A partir disso, infere-se que, se para Saussure (e também para Hjelmslev e Frei) o significado faz parte do signo, a Semântica deve fazer parte da Linguística Estrutural, opondo-se aos mecanistas americanos, para quem os significados devem sair da Linguística e partir à Psicologia.

Para encerrar a ideia, Roland Barthes enfatiza como a dupla articulação desenhada por Saussure enriqueceu significativamente a teoria dos signos – as unidades significativas (as “palavras”) e as unidades distintivas (os “sons”) explicam a economia da linguagem humana e proporcionam uma “desmultiplicação”, fazendo com que um número muito restrito de unidades distintivas possam produzir centenas de milhares de unidades significativas (p. 42-43).

Em seguida, o autor retoma o plano de expressão e o plano de conteúdo, distinção proposta por Hjelmslev a fim de comportar forma e substância, conceitos epistemológicos que se afastam daqueles indicados no CLG – estes aprofundam-se em aspectos semiológicos, mais fáceis de manejar e distinguir (p. 43-44).

Barthes, aqui, distingue a “natureza” dos signos linguísticos e dos signos semiológicos – Saussure tendo estabelecido os primeiros, a partir dos quais Hjelmslev traçou os segundos – e afirma:

O signo semiológico também é, como seu modelo, composto de um- significante e um significado (a cor de um farol, por exemplo, é uma ordem de trânsito no código rodoviário), mas dele se separa no nível de suas substâncias. Muitos sistemas semiológicos (objetos, gestos, imagens 32 ) têm uma substância da expressão cujo ser não está na significação: são, muitas vezes, objetos de uso, derivados pela sociedade para fins de significação: a roupa serve para nossa proteção, a comida para nossa alimentação, ainda quando, na verdade, sirvam também para significar. (p. 44)

Em seguida, o autor propõe, para denominar esses signos semiológicos, o termo funções-signos, que, segundo Barthes, são testemunhas de um duplo movimento, em que a função penetra-se de sentido num processo fatal de semantização: “desde que haja sociedade, qualquer uso se converte em signo desse uso” (p. 44). Ou seja, uma vez constituído o signo, a sociedade pode refuncionalizá-lo: “trataremos de um casaco de pele como se ele não servisse senão para proteger-nos do frio” (p. 45). Logo, faz-se necessário o estabelecimento de uma segunda linguagem: a função representada, que corresponde a uma função semântica da ordem da conotação. Conclui-se afirmando que “a função-signo tem pois – provavelmente – um valor antropológico, já que é a própria unidade em que se estabelecem as relações entre o técnico e o significante” (p. 45).

Vê-se, então, as duas seções seguintes do capítulo dedicadas a explorar, respectivamente, o significado e o significante. Em ambas, Barthes volta à Linguística – como faz, por sinal, em todas as outras seções, ao menos em algum momento, antes de partir para suas próprias construções ou relacionar as ideias primordiais com outros teóricos, ou ainda com outras áreas do conhecimento. Nas seções referentes à decomposição do signo, observa-se sempre como ponto de partida a formulação saussuriana. Primeiro, Barthes discorre acerca da própria noção de significado e seu grau de “realidade”, reafirmando a ideia de que o significado não é a coisa em si, mas uma representação psíquica da coisa (p. 46); no caso do significante, faz-se uma análise muito similar, debatendo a própria essência do significante – que, para o teórico, é um mediador, sendo a matéria necessária, ainda que não suficiente (p. 50) – e partindo, em seguida, para as exposições sobre o tema a partir da perspectiva da Semiologia.

Por fim, Barthes atinge a Significação e, em seguida, o Valor. Para ele, a Significação é o processo que une significante e significado, gerando o signo. Contudo, ele reconhece que é uma relação meramente classificatória, e não fenomenológica, uma vez que união entre os componentes do signo não esgota o ato semântico (p. 51).

Ao buscar retrospectivamente por conceitos da significação, Barthes apresenta Saussure, Hjelmslev e Lacan como principais propositores de uma representação gráfica da significação, tão cara ao discurso semiológico. Faz-se, contudo, uma distinção importante quanto às motivações acerca da representação e conceituação do signo, que divergem severamente do contexto linguístico para o semiológico. Ele coloca que “em Linguística, a motivação está circunscrita ao plano parcial da derivação ou da composição; para a Semiologia, ao contrário, colocará problemas mais gerais” (p. 53). Retomando pensadores como Lévi-Strauss, Benveniste e o próprio Saussure, Barthes debate conceitos como, por exemplo, a arbitrariedade do signo, princípio básico da formulação saussuriana, partindo então, em paralelo com Martinet, para questionamentos a respeito das onomatopeias, classificadas como “secundárias” pelo autor do CLG.

Encerra-se o capítulo discorrendo sobre a noção de Valor, que, já de imediato, o autor revela ser uma ideia a princípio pouco explorada e desenvolvida por Saussure. Segundo Barthes, o Valor consiste no deslocamento da constituição do signo da “composição” para o “contorno” (p. 56), configurando-se como elemento central da Linguística Estrutural, uma vez que se afasta da Psicologia e converge com conceitos da Economia.

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Crítica Literária

Giovani Kurz nasceu em 1997, em Curitiba, onde vive. Aluno do bacharelado em Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Paraná, estreou na poesia com Nascente Periférico (Substânsia, 2014). Integrou a coletânea FLUPP Novos Poetas, também em 2014, participando, no ano seguinte, da antologia de melhores textos do jornal RelevO. Atualmente, assina uma coluna mensal no site LiteraturaBr, além de publicar contos aqui e acolá. É parte, também, da terceira edição do Livro dos Novos (Travessa dos Editores, 2016).
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