Do lado de cá do Atlântico, de Franck Santos

por Sahmaroni Rodrigues

22. “Choveu por dois dias após aquele domingo na cidade”. A partir de ausências, sucintamente, vamos chegando a esta frase, que concretiza sintaticamente, linguagem é argamassa, o pânico de alguém que se arvora nas incertezas de se permitir amar: chuva, após e domingo. E é dessa incerteza que a narrativa de “Do lado de cá do Atlântico”, de Franck Santos se constrói. Os personagens são vultos: Ele, Ela, a mãe que se sente velha, a narradora: nenhum nome, apenas vultos, fulgurações. Enquanto isso, o “mundo” é nomeado: Lisboa, Colares, Alcione, Maysa… Um lá, permeado de lembranças (a narrativa é composta das elucubrações da narradora no primeiro dia do ano, aguardando o retorno de um Deles), e um cá, nomeado, referenciado no mundo. E nas 93 páginas divididas em 37 capítulos que compõe este itinerário amoroso, constrói-se a figura do amor. Uso figura aqui no sentido que Hadot (2002) dá a este termo quando fala sobre Sócrates. Para o filósofo, existe o Sócrates histórico, e a figura de Sócrates: aquela desenhada por Platão, especialmente nos chamados “diálogos socráticos”. Não se trata, pois, da figura histórica de Sócrates, inapreensível, mas daquela que Platão construiu e que lhe serviu de máscara. Gosto da ideia de pensar a literatura, pelo menos aquela que não se quer realista, imitação do mundo, mas ampliação, delírio do mundo, “étonnement”, como um coro de máscaras, um baile de fantasias retiradas pelas palavras e coladas à página, ao texto. E desse modo chegamos ao real, à verdade, pela ficção, pela criação, um caminho estreito, quase mentira, que nos emociona, e nos torna outro: leitor, espectador, espanto.

É enquanto figura que vejo o amor sendo recontado nesta história delicada como a figura que ele compõe: se no mundo, existe algo, uma força, uma composição química, ou seja lá o que for que demos o nome de amor, na narrativa de Franck Santos, esta figura fulgura, é memória, é desnomear, não nomear, gesto de soltura, de candura, talvez, se pensarmos que o nome é crueldade. O amor é figura que aparece em fantasmas aqui: pronomes retos que são impessoais: Ele, Ela: Outro. O amor é figura impessoal. Indefinido. Um livro delicado, narrado sem arrodeio, com descrições que não são empecilhos, antes, memórias da figuração amorosa, em que as frases são justas, sob medidas para figurar algo que não se mede: Ele ou Ela? O livro me tocou. Além da edição estar linda, eu gostei muito de sua narrativa. Da ausência encadeada nas frases e capítulos curtos, da delicadeza, da forma sucinta como o autor construiu essa narrativa de vultos amorosos. Confesso que não sei escrever como Franck Santos, com essa clareza, apontando descrições… e eu admiro isso em quem sabe fazer bem, como ele o fez. Me emocionei… Me deu um vazio… Para mim, literatura é este exercício de experimentar coisas na pele de outros, e acho que seu livro fez isso comigo. Experimente lê-lo ouvindo Liberty da cantora Keren Ann.

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