A morte era melhor – escritores suicidas

por Marco Severo

Sempre que alguém morre dando fim à própria vida, não é incomum ver uma face de horror vinda de quem ouve a notícia. Em seguida, dependendo de onde se esteja e das circunstâncias, as reações seguintes vão desde frases de pena e lamentação até o mais incisivo julgamento.

A crônica de hoje é sobre escritores que resolveram dar fim às suas existências. Independente do motivo, em dado momento da vida, eles acharam que morrer era melhor do que estar vivo. Em todos os casos mencionados, são autores de obras imortais – como eles próprios jamais poderiam ter sido, tivessem saído da vida mais tarde, por obra do destino, do acaso, ou seja lá o que os fizesse se despedir da vida.

Então, vamos a alguns desses casos que, se não iluminam razões, ilustram fatos.

Horacio Quiroga foi um escritor uruguaio reconhecido no mundo todo por suas histórias que fazem uso do bizarro e do sobrenatural. Foi poeta e dramaturgo, mas ficou mais conhecido no mundo por seus contos, que geralmente se passam em locais ermos ou fechados.

Quiroga teve uma existência atormentada. Inúmeras tragédias pessoais o marcaram para sempre. Aos dois anos e meio, seu pai disparou uma arma que tinha na mão acidentalmente, morrendo imediatamente. Aos 22 anos, Quiroga já era um homem que se dava a conhecer através dos seus escritos. Foi também quando encontrou seu primeiro grande amor – que foi destruído pela família da moça porque Quiroga não era judeu. No ano seguinte, na sua cidade natal, Quiroga encontrou o corpo do seu padrasto, que havia se suicidado com um tiro. Depois de uma viagem a Paris, ele retornou para a sua cidade natal, onde se juntou a outros amigos e formaram uma confraria de escritores, na qual escreveriam e experimentariam formas e gêneros, buscando lapidar seus estilos. Um desses amigos, Federico Ferrando, havia publicado um livro e recebido críticas negativas de um jornalista. Federico o convidou para um duelo armado, prática que hoje parece bizarra, mas que naquele tempo não era incomum. Preocupado com o amigo, Quiroga pediu para ver a arma que ele utilizaria no duelo. Enquanto a limpava, disparou-a acidentalmente, matando o amigo Federico instantaneamente.

Depois dessa, ele se mudou para a Argentina, onde se enfiou nas florestas, para ver se a vida acalmava um pouco. Saiu de lá em 1903, pra assumir um cargo de professor. Em 1906, já famoso por seus contos, ele resolveu mudar-se para a floresta novamente, o que ocorreu em 1908. A essa altura, Quiroga era um homem apaixonado. Conseguiu autorização da família da esposa para levá-la para a floresta com ele, e ambos foram morar lá. Com o passar dos anos e os filhos que tiveram crescendo, Quiroga e a esposa, Ana María, começarem a brigar por coisas banais. Mas dada a natureza tempestiva do escritor, logo essas brigas frequentes tornaram sua esposa depressiva e um dia, depois de uma briga violenta, Ana María tomou uma dose de veneno que se mostrou fatal – depois de oito dias agonizando.

O tempo passou, Quiroga voltou a se casar – desta vez, com Maria Elena, que nunca se acostumou com a vida na floresta. Em 1935, aos 56 anos, as brigas diárias com a esposa levaram-na a abandoná-lo na floresta, levando os filhos do casal. À essa altura, Quiroga já começava a sentir dores desconfortáveis e adoecia a olhos vistos. Mesmo assim, Maria Elena não quis saber e se mandou, deixando Quiroga para trás.

Dois anos depois, sabendo que tinha um câncer de próstata em estado avançadíssimo – e por esta razão intratável, resolveu dar cabo de si. E com a ajuda de um amigo que ele havia feito no hospital, ingeriu um copo de cianureto, que o matou em questão de minutos.

Virginia Woolf é uma das escritoras modernistas mais lidas no mundo ainda hoje, mesmo tendo se passado mais de sete décadas de sua morte. Woolf teve, durante toda a vida, sintomas de depressão. Também tendo sido sua vida marcada pela tragédia, pela ambiguidade sexual e pelas dificuldades da escrita (da qual ela nunca se separou), Virginia nunca conseguiu lidar com o problema a não ser escrevendo. Mesmo assim, o problema sempre surgia, por mais que seu marido, Leonard, tentasse intervir e buscar formas de amenizar. Em meados de 1941, após terminar de escrever Entre os atos, Virginia, amargurada pelas críticas que vinha recebendo de seu livro anterior, uma biografia de seu amigo Stephen Fry, a destruição de sua casa em Londres, no que já se mostrava ser o cenário da guerra que se avizinhava, fizeram-na chegar a um estado em que ela não conseguia mais trabalhar. Assim, ela escreveu uma carta de despedida para o marido, encheu os bolsos de um sobretudo com pedras, e caminhou para dentro do rio Ouse, onde morreu afogada, provavelmente sem se debater uma só vez, rendida pela morte.

Outro escritor que lutava contra a depressão, só que este já no século XXI, era David Foster Wallace. David era professor universitário e também de escrita criativa. Seu romance A graça infinita, de 1996, é até hoje um livro considerado cult e aclamado por leitores e crítica em todo o mundo. Com um passado envolvendo álcool e drogas e uma obsessão por perseguir mulheres das quais gostava, o que por mais de uma vez o colocou em situações complicadas, David nunca conseguiu se ajustar ao mundo. Em 2007, depois de sentir muitos efeitos colaterais do remédio que vinha tomando, o médico que o acompanhava sugeriu que ele suspendesse a medicação, e a depressão voltou. Fez terapia de eletrochoque, e a depressão continuou. Quando quis voltar ao antigo medicamento, viu que ele não fazia mais efeito. Em setembro de 2008, David escreveu uma carta de duas páginas, organizou os papéis do livro que vinha escrevendo, amarrou uma corda no teto e se enforcou.

A depressão também foi devastadora para o escritor italiano de ascendência judia Primo Levi, autor de obras de larga importância, como É isto um homem? e A tabela periódica. Em 1943, quando Mussolini foi deposto, os alemães ocuparam regiões da Itália e Levi retornou a Turin, onde se encontrou com a mãe e a irmã. Os três fugiram para as montanhas, o que funcionou por um tempo. O movimento de resistência italiano, então, ganhava força, e Levi resolveu se juntar a alguns “camaradas” na tentativa de irem em direção aos Alpes para depois conseguir fugir e se afiliar ao movimento de resistência liberal Giustizia e Libertà. A empreitada não deu certo, e Levi foi preso junto com seus companheiros e levado para Auschwitz, em fevereiro de 1944. Lá, conseguiu sobreviver precariamente, sem chamar a atenção, por onze meses, quando a média de sobrevida lá era de menos de três meses. Em janeiro de 1945, com o final da guerra, Levi foi libertado.

A verdade é que ele morreu em Auschwitz, mas encontrou uma forma de ir vivendo através de sua escrita. Conseguiu fazê-lo por 42 anos. Cada dia mais deprimido e sem conseguir dar conta de cuidar da mãe e da sogra idosa, em abril de 1987, Primo Levi foi encontrado morto nos desvãos da escada do prédio onde morava, após uma queda do terceiro andar. O perito informou que ele havia se suicidado.

Que Ernest Hemingway é um dos autores mais respeitados do mundo, não pairam dúvidas. Mas o que sua escrita tinha de clareza e objetividade, sua vida pessoal tinha de errática e caótica. Hemingway, que ganhou o Nobel de Literatura em 1954, foi um bom bebedor durante toda a vida. Homem de espírito aventureiro, passou anos fazendo safaris e se movendo entre os Estados Unidos, a Espanha e Cuba, onde também tinha casa.

Em 1954, enquanto estava num desses safarias na África, Hemingway quis dar de presente à esposa um sobrevoo pela região do Congo. O avião se acidentou, Hemingway teve contusão na cabeça e a esposa quebrou duas costelas. No dia seguinte, quando iam ser levados de avião para um outra cidade em busca de suporte médico, o avião em que estavam sofreu uma explosão parcial enquanto levantavam voo. Neste segundo acidente, Hemingway sofreu queimaduras e chegou a ter vazamento de fluido cerebral. Após a recuperação, o homem que bebia de forma relativamente controlada passou a beber sem limites, como forma de controlar as dores que sentia pelo corpo. Neste mesmo ano, ganhou o Nobel, mas não compareceu à cerimônia.

Nos anos seguintes, a saúde do escritor entrou em rápido e profundo declínio. Problemas no fígado por conta da bebida, hipertensão e arterioesclerose levaram-no a uma depressão da qual ele não conseguiu se livrar. Em julho de 1961, Hemingway deu um tiro na própria cabeça com a arma favorita de sua coleção. O pai do escritor havia se suicidado da mesma maneira, e tanto seu irmão Leicester quanto sua irmã Ursula também cometeram suicídio.

Depois de descobrir o caso extra-conjugal do marido, em julho de 1962, a poeta Sylvia Plath separou-se do marido apenas dois meses depois. Sua depressão, que já havia feito com que ela tentasse suicídio algumas vezes na vida (a mais recente, pouco antes de descobrir o caso do marido, naquele mesmo 1962), voltou com força total. Em fevereiro de 1963, aos 30 anos, Sylvia Plath decidiu que seria a última e certeira tentativa. Colocou os filhos pra dormir no andar de cima de sua casa (onde morava sozinha com eles), deixou toalhas molhadas e bacias perto de onde eles dormiam, desceu, passou fita nos vãos da porta da cozinha, abriu o gás do forno e projetou-se para dentro dele, onde foi descoberta pela enfermeira que tomava conta dela por conta do seu grave estado depressivo.

O último caso desta narrativa atende pelo nome de Yasunari Kawabata, escritor japonês que foi o primeiro a receber o Prêmio Nobel, em 1968. Kawabata foi, e ainda é, um dos autores mais queridos no Japão. Sua obra mantém-se viva, porque lida, e ele foi um escritor muito prolífico durante toda a sua carreira. Assim como Sylvia Plath, Kawabata também cometeu suicídio através de gás, em 1972, e pelo mesmo motivo: depressão. Em seus últimos anos de vida, Kawabata dizia aos amigos que vinha tendo constantes pesadelos com Yukio Mishima, outro escritor japonês e grande amigo dele, que havia cometido suicídio dois anos antes. Ele dizia que, quando viajava, “queria que seu avião caísse”. Pouco tempo antes, Kawabata havia descoberto que estava com Parkinson, o que pode ter sido mais um fator em sua decisão de tirar a própria vida.

A morte será sempre um enigma. O suicídio, um enigma dentro de outro. Por mais que tentemos compreender, as verdadeiras razões, ainda que deixadas em cartas ou e-mails, nunca serão completamente reveladas. E parece que, entre os escritores suicidas, a depressão é um fator preponderante.

Seja como for, as mentes e os corpos se foram, a obra, monumental, permanece. E os livros destes e de muitos outros escritores aclamados que decidiram abreviar suas existências, continuam a espalhar a importância desta que é uma das artes mais sublimes e grandiosas da história da humanidade.

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CrônicaPensamentos imperfeitos

Marco Severo é professor de inglês e tradutor. Tem um conto publicado na antologia “Cemetery stories” (2001) e também na revista Reader’s Digest. Publicou o livro de crônicas “Os escritores que eu matei”, pela editora Substânsia (2015) e prepara seu primeiro livro de contos para 2016.

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