Entre a negativa e o avanço

por Rodrigo Ricardo

“Não!” Assim se resume a maior parte dos discursos revolucionários, seja de que área for.

Porque uma ideia que seja realmente um avanço tem que negar alguma coisa que não deu certo ou que poderia ser melhor.

Contudo, é necessário que se observe a história do que quer que seja para que não se despreze o conhecimento anterior que a humanidade adquiriu durante toda a sua existência. Quer seja nas ciências, quer seja nas artes.

Assim, não há como deixar de apontar as falhas no sistema educacional que mais parece uma linha de produção com alunos sendo formados “em série” para, ao final do sistema fordista apoiado pelo utilitarismo de John Stuart Mill, tenhamos uma graduação “padrão” focada pragmaticamente no resultado.

E há uma lógica no sistema: os alunos em série são colocados para trabalhar em indústrias em série para adquirir produtos em série que são gerados a partir de uma exploração em série dos meios e recursos naturais.

O problema é que o padrão gera a “normalidade” e dicionário já grafa como “uso pejorativo” sinônimos para “normal” quais sejam: “medíocre”, “médio”, “comum”, “vulgar”, “ordinário”, “reles”… Palavras que os homens aprenderam a odiar.

Essas palavras somente não são ofensivas como se percebe à primeira vista, mas vêm afirmar que as pessoas são hábeis em acordar cedo, tomar banho, ir trabalhar, (talvez estudar,) chegar tarde a casa, assistir à novela e ir dormir sem preocupações extras senão as contas, os filhos e cônjuges, a roupa nova da vitrine e o celular MP500 que é meio milímetro menor e que liga sozinho o micro-ondas para fazer pipoca…

De fato, agem pelo instinto homo sapiens (seja lá o que isso for), não se prendendo a nada que não seja uma sensação de pertencimento a um grupo social mesmo que o que os una seja a maldade de seu coração e a habilidade de mimetismo social (tão presente nos outros animais e plantas) exponencialmente ampliado pela habilidade nata de criar mentiras.

Assim, para dizer “não” e continuar a história a partir do ponto em que não deu certo, é preciso se erguer e olhar por cima das carteiras assim como fizeram os alunos do professor John Keating em “Sociedade dos Poetas Mortos”.

E mais do que subir nas carteiras é preciso abandonar a ideia do “não” pelo “não”, porque a negação se faz com a revolução e com a evolução. Não com o retrocesso.

A negação, seja científica, seja artística, deve pautar-se na expansão do universo existente e não na sua poda. É preciso validar o que existe corrigindo as falhas e completando as lacunas para que o quadro seja completo.

Mas o que temos visto é um exercício de limitação, de regressão e de negação niilista. Um processo autodestrutivo que tem levado os nossos cientistas a abandonarem o país, os religiosos a serem porta-vozes da ciência e os professores a se calarem nas salas de aula (ou apanharem nas ruas).

Na Alemanha em 2012 foi constatada uma onda surpreendente de adoração por Adolf Hitler[1] de jovens entre 15 e 16 anos que acreditam que o führer não foi um ditador porque foi eleito democraticamente e acreditam que ele tenha sido um grande protetor dos direitos humanos, mas 40% deles não sabia explicar a diferença entre o que seria “democracia” e o que seria “ditadura”.

Não é difícil perceber que estamos passando pelo mesmo exato momento histórico e político no Brasil em que possivelmente teremos um Ministro da Ciência e Tecnologia que acredita que as descobertas científicas são posições baseadas em opiniões pessoais, contamos com um Deputado Federal que eu desejaria muito que fosse realmente um mito, mas que, sendo real, tem atraído uma pequena horda de ignorantes, ao mesmo tempo em que colecionamos um grupo de redatores, jornalistas, blogueiros e semelhantes que têm sido perseguidos por “corromper a juventude, não acreditar nos deuses e criar uma nova autoridade além dos deuses”, algo muito semelhante com o que se percebe lendo a “Apologia de Sócrates” registrada por Platão.

Há centenas, milhares e milhões gritando “sim” pelos motivos mais esdrúxulos país afora, mas os livros que li, as experiências coletivas que vivi e os personagens que admirei me levam indubitavelmente a gritar a plenos pulmões: “NÃO!”

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