Em teus braços

Um texto inspirado na música In My Arms de Nick Cave
retirado de https://goo.gl/iHnhzU

Não atendi suas ligações porque não quis. Ignorei tuas mensagens e teus emails. Tive sonos tranquilos, um pouco mais tranquilos do que vinha tendo. Não se preocupe comigo, estou num hotel no Centro. Você perdeu viagem se pensou que eu tinha voltado pra casa de minha mãe e foi atrás de mim. Não é pelo mundo ter virado de ponta-cabeça que eu regrediria tanto. Precisava desse tempo longe de você e sem estar desesperada como estava no hospital. A briga que tivemos domingo me machucou muito. Saí de casa pensando em nunca mais colocar os pés aí. Queria sumir, foi o que fiz. Hoje, como você pode ver, estou dando as caras. Estou bem, na medida do possível. Faltei esses dias de fisioterapia, mas tem problema não, remarco. Tive esse tempo pra pensar e pensei um bocado. Refleti com calma, sem pressão de ninguém, só eu e eu mesma.

Você vive falando que mudei depois do acidente. Tentei negar, tentei. Tentei pra não parecer fraca. Tentei ser imbatível, mostrar ser a mesma que você me conheceu. Mas, Nick, digo pra você com toda sinceridade, mudei e mudei muito. Ninguém é uma pessoa só a vida inteira. De nós dois, de dez anos atrás, nem as células são as mesmas. O tempo mudou a gente. Quando te encontrei, eu sabia que queria estar contigo pra sempre. Só nós dois como dois caminhoneiros viajando juntos em comboio pelas madrugadas. Tudo entre nós se encaixava, até quando não tinha nenhum encaixe. Nenhum desentendimento conseguiu nos separar e não será esse. Ao contrário do que você diz, não culpo você pelo acidente. Estava tão bêbada quanto você. Quantas vezes você nos levou pra casa sãos e salvos em situações piores. Você não me obrigou a ser tua companhia. Dois caminhões cruzando rodovias na madrugada empestada de pessoas más. Com você, senti que nenhuma escuridão poderia nos engolir. E esse sentimento era verdadeiro, tinha gosto de fé. Mesmo sem você não ter me prometido nada, investi minha fé em você. E quando eu estava no hospital na beira da morte, confesso que senti que tinha depositado todas as fichas dessa minha fé num jogo de cartas marcadas, confesso que vi essa fé se escorrer como uma menstruação atrasada pelo ralo. Minha perna amputada, a pena por não ter podido honrar essa aposta. Nick, aquele quarto era escuro e frio, te odiei por ter saído ileso, desejei tua morte. Mesmo que eu tivesse morrido junto, queria ver você morto. Até pensei que isso tinha acontecido quando acordei, depois da cirurgia e perguntei por você. Ali, quando eu abri pela primeira vez os olhos, eu não tinha configurado a minha raiva, temi por você. Eu achava que minha perna ainda estava comigo. Quando o médico me apontou o resultado da cirurgia, dei um grito estranho. Um grito rouco, baixo e triste. Coloquei você e minha perna na balança e você perdeu.

Enquanto você estava preso, veio o pastor, ele chegou devagar, perguntou meu nome, me ofereceu duas ou três frases de conforto. Nick, eu estava só. Duas ou três frases de conforto era o que eu precisava. De ontem pra hoje sonhei com você, você beijava meu pescoço branco, sussurrava as tuas palavras por trás dos meus cabelos negros, eu saciava minha fome quando você se embrenhava por trás dos meus cabelos negros. A fome da amante louca e valente que arrancou você da casa de sua mulher e nos levou pra esses nossos dias de álcool, de drogas e de foda-se pro dia seguinte. Você estava longe, eu te queria tanto, e te odiei por isso. Era pra você estar ali do meu lado, contando uma piada sem graça, agoniado pra fumar mais um cigarro. Mas você não estava. Aí veio o pastor com seu deus, com seus anjos, com sua culpa. Ele sentou do lado direito da minha cama, ficou lá, mesmo que eu gritasse de dor, mesmo se eu rogasse pra sair, mesmo que eu o chamasse de filha da puta. Duas ou três frases de conforto. Abriu a bíblia, leu Lucas 24. Me apresentou um deus que volta pra salvar os seus. Foi fácil ele me convencer que meu coração era um órgão apodrecido sem dono, que o seu deus poderia dar um jeito nele, era só eu pedir que ele entraria e faria aquela faxina divina, encheria minha alma vazia de sua graça e do seu amor. Esse deus me guiaria em seus braços por um caminho suave, e todo o sofrimento que eu tinha, ele faria ficar no passado. O pastor insistia em suas palavras quando eu culpava esse deus por tirar um pedaço de mim, quando eu acusava esse deus agir com covardia. Em nenhum momento ele levantava a voz, meus erros ele transformava em virtudes, eu precisava apenas mudar, buscar outro foco na vida. Ele me mostrou o óbvio e aos poucos comecei a concordar com ele. Eu tinha passado demais da linha de retorno e não seria você que me traria de volta. Duas ou três frases de conforto e um deus pra intervir na minha vida à deriva.

É verdade que me comportei de uns meses pra cá como uma louca numa cadeira de rodas, criticando todos seus atos, analisando todos seus passos. Exigi mudanças que eu sabia que nunca iriam acontecer. O Nick que conheci, a essência dele será a mesma, não importa o quanto eu insista. Isso é um fato. Todas as células da gente podem mudar, podemos mudar o gosto musical, o gosto alimentar, mas a essência, aquela fagulha escondida dentro do coração, essa é imutável. Quis mudar você, transformar num cara pra ser meu companheiro nos círculos de oração, nos cultos, nas reuniões da igreja. Piada. Só agora percebo o quanto fui patética. Ontem mesmo eu tava rindo de quanto você se esforçou nas vezes que foi comigo antes de chutar o pau da barraca. Você fez isso por mim, eu sei o que você acha de deus. Concordo contigo, Nick, me enganaram no meu instante de dor. Onde estava esse deus que guia os caminhos dos seus filhos quando abandonamos a nossa família, cadê ele pra dizer que não era pra gente agir daquele jeito? O deus que acredito é aquele que soube de cara que você nasceu pra estar comigo, que nasci pra estar contigo, e assim será até a gente morra junto. Acredito no deus que olha o mundo onde todo mundo fode todo mundo e faz de conta que não vê porque ele sabe que o mundo se resolve, se encontra só. A gente aprende no murro.

Esses últimos dias nos levou ao inferno. Eu dizia morra, mas o que queria dizer na verdade era me beije e esqueça tudo. Nick, esqueça o julgamento, esqueça que você teve culpa na morte daquelas três pessoas, só foi o acaso que as trouxe pra nossa frente. Vai ficar provado que você nos manteve na faixa certa. Me pego chorando quando penso na possibilidade de você ser condenado e passar tanto tempo longe de mim. Se esse deus que todos falam existisse de verdade, eu não pediria outra perna, pediria pra você escapar ileso desse julgamento.

Mas enfim, já gastei palavras demais. Nem lembro do dia que escrevi tanto. Espero não perder tempo mais com isso, quero dizer tudo na cara, quero ver seus olhos quando eu falar, é bem melhor. Vou voltar pra casa mais tarde lá pra noitinha. Preciso fazer umas coisas antes. Controle a ansiedade. Faça de conta que passei só meia hora fora, que me atrasei no cabelereiro. Vamos fazer de conta que nada aconteceu. Só por hoje. Só por hoje vamos estacionar os nossos caminhões num postinho qualquer e esquecer a estrada. Quando eu tiver indo, vou pedir ao taxista pra parar na esquina pra eu comprar teu cigarro, vou comprar também uma garrafa de vinho, talvez um queijo. Deixe que eu compro. Na hora que o táxi chegar em frente ao prédio é bom que você esteja me esperando. Se não tiver, quero nem saber, vou pedir pra ele buzinar até Nick, o cara reservado, aparecer. Quero que você faça uma coisa que disse que nunca iria fazer. Quero que você faça com sorriso nos lábios. E tem que ser hoje. Quero subir todos os três andares, todos os degraus da escada, levada por teus braços. E amanhã, depois, depois, depois, quero que se foda. Não nos pertence.

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Cisco no olho

Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados "Pirilampos Cegos" (romance), "O Gosto Amargo de Qualquer Coisa" (romance), "Despoemas" (contos) e "Palavras que devoram lágrimas" (romance) e "Julho é um bom mês pra morrer" (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.
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