Um quarto

por Rafael Fava Belúzio

Um olho espremido entre a porta e o chão. Um dente no frasco de perfume. Uma perna presa no teto, colada por chiclete de menta. Sobre a escrivaninha, meu crânio serve peso sobre as “Ideias íntimas”. Gotas de bile negra no ingresso do espetáculo d’O corpo. Deitada na cama, minha mão já sem a espada sanguenta. Dentro da mochila, meu estômago embrulhado em poemas de Lívia A. Gotas de gozo no DVD de Lars von Trier. Entre o sétimo Pai-Nosso e uma Ave-Maria, remela. Por baixo da fronha, unhas. Gotas de sangue no primeiro poema do Remate de Males. O dedão virado para baixo. Na luva de goleiro, quatro cacos da patela esquerda. Marcando a terceira página do Cântico dos Cânticos, um testículo. Uma orelha servindo de calço para a escrivaninha. A batata da perna dentro de Quincas Borba. Caneta e lapiseira nas narinas. Gotas de urina na réplica trincada do mictório de Duchamp. O siso dentro da camisinha furada. No copo de leite, cílios. Os lábios beijando o porta-retratos. Gotas de pus pingadas em um ponto da fotografia rasgada ao meio. Cotovelo roto debaixo da cama. No tênis, enrolado, meu coração, entre meias, cinzas. Gotas de bile negra no falso croqui de Martin Margiela. No bolso traseiro da calça, o rádio. A bacia sobre a TV. A campainha pregada na janela. O martelo pendurado na fechadura. Os caninos segurando o chinelo. O dedo médio entre os dois botões do mouse. Fezes sobre o relógio. A pele das costas cortada e cobrindo o computador. Gotas de suor no folder de Toda nudez será castigada. A espinha grudada no ventilador de teto. Pentelho na extremidade da antena interna. A tomada entre os molares. Gotas espaçadas de lágrima no disco de Boulez. O interruptor entre os pré-molares. A página da parábola do bom samaritano e a página de “Um cadáver de poeta” marcadas com fiapos brancos de minha barba. Gotas de cerume sobre o cartão postal de Brasília. O indicador retorcido em si mesmo. Um braço pendurado na porta do armário. O mindinho do pé na quininha da cadeira. Uma costela cortando a maçã ao meio. O cinto enrolado no pescoço. O cerebelo entre o lençol. A coberta grisalha com um tumor. Gotas de saliva nos pontinhos de Monet. O dedo mínimo com todas as falanges quebradas. A língua dentro do aquário. O aquário entre os pulmões. Os pulmões na gaveta de cuecas.

Categorias
Curta
Sem comentários

Deixe uma resposta

TOPBLOG
Saiba mais sobre o novo livro de Marco Severo, "Todo naufrágio é também um lugar de chegada".

ARTIGOS RELACIONADOS

  • o vidro trincado e que brado reflete muito mais luas do que a lâmina limpa lembra minguantes em mim...
  • um fio de ferro anarquiteto conforme as curvas do cálculo do caos conforme a superfície ilimitada por um deserto...
  • Questão 1. Use as linhas a seguir para fazer soneto decassílabo utilizando o verso heroico. Finja, se ainda for...
  • dobras fartas do manto sono tombam em torno do reino de cronos na quinta estação quando um mês cai...