O primeiro e o último milagre do pregador

O pregador acredita em seu sermão quando bate no próprio peito com a bíblia. O culto é de portas fechadas. Igreja lotada. A glória do Senhor presente. O pregador...

O pregador acredita em seu sermão quando bate no próprio peito com a bíblia. O culto é de portas fechadas. Igreja lotada. A glória do Senhor presente. O pregador dá graças. Vinte e cinco anos na frente da congregação e nunca sentiu o fervor de hoje. Fala faz meia hora. As palavras brotam. Mas ele precisa respirar, não é tão moço. Pede que o coral entoe um hino. Aproveita. Bebe água. O pregador louva longe do microfone. Sua esposa, entre os membros, o observa com admiração. Sorri. Ela quase vê uma luz pousar sobre o marido. O hino acaba com o verso “vem, Jesus, faz de mim tua morada”. O pregador prossegue. Outra hora se controlaria. Seguiria os itens amarrados do sermão. Não. Hoje não. Abandona a bíblia no púlpito. Frouxa a gravata. Tira o microfone do pedestal. Vai deixar as palavras do Senhor serem ditas. O pregador não é de excessos. Sempre mediu as palavras, escolher a mais apropriada, seu significado. Hoje não. Toda palavra pertence ao Criador. Ninguém tem capacidade de saber qual usar a não ser Ele. O pregador fecha os olhos. Não pensa. Tenta se esvaziar. O coração sacode. Não consegue controlar o tremor no corpo. Os dedos formigam. Começa a dar pulinhos involuntários. O abdômen se contrai. Outra hora acharia ser um infarto. Mas não é infarto o que faz o suor borbulhar do seu rosto, escorrer pelo pescoço e ensopar a camisa. É o Poder. O mesmo poder que elevou Elias aos Céus. O pregador fica em silêncio. O microfone vibra na mão. Ele mira uma beira de céu no vazio da janela. A igreja ferve. Por dez segundos, imagens reverberam sobre sua mente. Todo seu caminho de fé em flames sobrepostos. Desde os quinze anos, quando decidiu servir a Deus, até a semana passada ao desacreditar da existência Dele. Quem tiraria do seu servo a esposa? “É a vontade de Deus”, ela disse no carro quase agora quando vinham pro culto. Doença sem cura. Poucos meses é pouco. Ele quer que a esposa viva por mais cinquenta anos, não só cinco meses ou cinco semanas. O pregador quer gritar contra Deus. Arremessar contra as nuvens essa queixa. Mas ele sabe, está sendo testado. Pode ver. O corpo e a mente atestam. A raiva se dilui. Ao fim dos dez segundos, não é mais senhor de si. O pregador não é dono das palavras que saem por sua boca. É só um vaso. Sua língua tem vida própria. Uma força maior guia suas palavras. Palavras que nenhum ser humano entenderá. A língua dos querubins. O idioma que Deus proferiu do seu trono ao gritar pra luz inundar a face da águas. O Espírito Santo em abundância. A igreja se contamina dessa energia. Uns desmaiam. Outros falam a mesma língua. O pregador vai caminhando por todo o templo e pra cada um entrega uma palavra que entendem sem nunca terem ouvido. Pra cada um ele concede uma bênção. Chega, assim, até a esposa. O pregador leva a mão ao peito dela. Fala na língua dos anjos cinco ou seis palavras. Toda a igreja testemunha o milagre. Uma aura esfumaçada sai das narinas da esposa, atravessa o meio palmo de vazio entre eles e penetra pela boca do pregador. A partir de hoje, ela terá mais cinquenta anos. Uma nova vida sem nenhuma doença. Foi o que o pregador pediu a Deus naqueles dez segundos. Deus lhe deu. O pregador quer falar. Não consegue. Recua dois passos. Cai morto.

 

Categorias
Cisco no olho

Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados "Pirilampos Cegos" (romance), "O Gosto Amargo de Qualquer Coisa" (romance), "Despoemas" (contos) e "Palavras que devoram lágrimas" (romance) e "Julho é um bom mês pra morrer" (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.
Um comentário

Deixe uma resposta

  • Vivian de Moraes
    15 dezembro 2016 at 4:35 pm
  • TOPBLOG

    ARTIGOS RELACIONADOS