A poesia de Ricardo Primo

Ricardo Primo Portugal, escritor e diplomata porto-alegrense, deixou o Rio Grande do Sul há quase 20 anos, tendo vivido em Brasília, na China (Pequim, Xangai e Cantão), na Coreia...

Ricardo Primo Portugal, escritor e diplomata porto-alegrense, deixou o Rio Grande do Sul há quase 20 anos, tendo vivido em Brasília, na China (Pequim, Xangai e Cantão), na Coreia do Norte (Pyongyang), no Equador (Quito) e, atualmente, em Bruxelas, na Bélgica. Os poemas abaixo, dedicados à cidade natal, integram seu livro mais recente: A Face de Muitos Rostos (Editora Patuá, 2015). Publicou ainda: Antologia da Poesia Clássica Chinesa – Dinastia Tang (Unesp, 2013, com Tan Xiao, 56o Prêmio Jabuti, categoria tradução, 2o lugar); Dois outonos – haicais (Edições Castelinho, coleção Estante Instante, 2012); Zero a sem – haicais (7Letras, 2011); Poesia completa de Yu Xuanji (Unesp, 2011, com Tan Xiao,finalista, 54o Prêmio Jabuti, categoria tradução); DePassagens (Ameop, 2004). Também tem participações em antologias e em sítios de internet dedicados a poesia e literatura (Musa Rara, Escamandro, Cronopios, Modo de Usar, Tuda, Germina, Zunai, Sibila, blog do Antônio Cícero, entre outros).

 

Três poemas para uma cidade

Fez-se a cidade

Fez-se a cidade
a um lago do sul
e as coisas do mundo
a sua orla insistiram
em fazer-se sentido

Fez-se a cidade
para o filho inconspícuo
que estrangeiro viceja
e assíduo deixa-a ao ensejo
de qualquer nova flecha
vadia deste cupido

o sol sobe iça-se
ao cais e seu muro
senso de novo atiça-se
no olhar antigo interrupto

mas para ele a terra
é mar que se percorre
à vista de outras ilhas
é porto que se perde
um ponto no caminho


Um frio dos sentidos

“…você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada
sem ter nunca um cantinho de seu
para poder descansar.”
–Lupicínio Rodrigues

Quando finalmente se escrevera
ao carcomido caderno
do sempiterno tempo
(este velho agourento

saturnino avarento)
o esmaecer das cores da lã
de tuas roupas de inverno
ao sol daquelas manhãs

Só então veio o frio
este frio dos sentidos
um rio seco do sentir
a um avesso riso

E outro dia sobreveio
ao que ora se sabe
o sobrevivente
e segue em viagem

Os edifícios tão altos
um dia, aqueles gigantes
propensos a grandes
eventos, definharam

Meros moinhos de vento,
tornaram-se menos
que um bairro distante
às ruas da infância

Porto Alegre é antiga
dentro de mim
e desperta-me hoje
vazia, em despojos

Sítio tombado em obras
de demolição
busco entre os tijolos
quantos me sobrarão

Tudo à cidade esvai-se
pela sombra deste ar
um pantanoso céu
pós sol-posto

E há este homem
que não sabe se soube
de um certo amigo meu
um cara like a rolling stone

um que não disse adeus
a rolar pela estrada
sem ter nunca um cantinho de seu
para poder descansar

Meu mais antigo e puro afeto quis

“Lange lieb´ich dich schon, möchte dich, mir zur Lust,
Mutter nennen, und dir schenken ein kunstlos Lied
Du, der Vaterlandsstädte
Ländlichschönste, so viel ich sah. …”
– Friedrich Hölderlin, Heidelberg
Meu mais antigo e puro afeto quis,
por seu primevo impulso, ver-te assim,
cidade-mãe, como se bela fosses,
e tanto houvera em teus ocasos foscos;

pois mãe é aquela a quem sempre se entrega
uma vital demanda um dia intacta,
que então se gasta ao tempo que a refrega,
mas resta ao fundo do sentir contracta.

Repousas pálida em feições bucólicas,
beleza rara, ruinosa e alegre,
à relva rala, pleno inverno ao sol;

também ao porto, onde idos se soerguem
desde os guindastes, e hoje me devolves
a ti: recebe o afeto que desterras.

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Poesia

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