Quando eu li Marcel Proust

por Vivian de Moraes

O propósito desta coluna é escrever sobre o autor que primeiro tocou afetivamente seu leitor, para dividir com ele suas impressões sobre o escritor em questão.

Hoje vou falar de Marcel Proust abrindo uma exceção: Proust não foi minha primeira paixão literária, mas depois que comecei a ler Em busca do tempo perdido, sua recherche, percebi que estava num divisor de águas. Vivian antes de Proust – e, por fim, Vivian depois de Proust, não há dúvidas. Nasceu em mim uma nova forma de ler, analisar e vivenciar a literatura desde que cheguei à última frase da recherche, a que leva até a primeira, pedindo segunda leitura.

Leio muito e copiosamente desde que fui alfabetizada. Portanto, quando li Proust – eu já estava com 40 anos de idade –, já conhecia muitos autores e obras, dos russos aos franceses, dos brasileiros a alguns escritores latino-americano como Gabo.

O que ocorreu é que esse repertório todo pareceu inútil diante da minha necessidade da obra de Proust. Aliás, vale dizer que me apaixonei por Proust inicialmente sem sequer lido uma linha sua. Há um livro chamado “O castelo de Axel (estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930”), de Edmund Wilson, que esmiuça a obra de diversos autores, e, de todas essas análises, a que mais prezei foi a de Proust.

Corri para comprar toda a recherche em sebos: uma obra de sete volumes, totalizando cerca de 3500 páginas. Ao todo, demorei 14 meses para concluir a leitura.

Entender que Proust vem de uma tradição simbolista e parte para a vanguarda europeia é muito interessante. Quando li Proust, já tinha lido autores avant-garde: Virginia, contos de Joyce, nossos modernistas etc. Mas, naturalmente, não havia termos de comparação. Não que esses artistas mencionados não estivessem à altura de Proust, mas nenhum deles tinha um telescópio, como o nosso escritor favorito gosta de dizer sobre sua obra.
Depois de Proust, o que veio? Svevo, Nassar, Guimarães Rosa, literatura contemporânea, Foster Wallace – aquela que me faz amar ainda mais Proust por me convencer que é uma obra sem paralelo.

Para concluir, gostaria de transcrever aqui um excerto do livro “Sobre a leitura”, do próprio Proust, prefácio que virou livro:

“Sentimos muito bem que nossa (a do leitor) sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando quase tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos.”

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  • verossi
    21 abril 2017 at 4:50 pm

    Caramba, ocorreu o mesmo comigo, eu antes e depois de Proust. Quase fui demitida na época por ler Proust enquanto aguardava os emails da revista (a conexão era discada e não preciso dizer que não havia nem Orkut para agarrar a atenção dos funcionários!), mas não conseguia me desgrudar das letras miúdas. Comprei toda a obra (tradução Fernando Py), porque na biblioteca do Sesi (aquela que ficava na Paulista, lembra?) havia todos os volumes, menos o primeiro dos sete! Até hoje, quando vejo aqueles três livros grossos, um de cada cor, dentro da caixa na minha estante, me vem um perfume e uma lembrança quase de loucura.

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    • vivian de moraes
      21 abril 2017 at 6:50 pm

      Considero a tradução do Fernando Py a melhor. Que bom que você se identificou com minhas impressões, Proust é mesmo encantador e absorvente!

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