As novas mitologias

por Giovani Kurz

Publicado na década de 1950, o livro Mitologias, de Roland Barthes – dos mais importantes semiólogos do século passado – mantém uma atualidade admirável. Constituído por pequenos fragmentos, o livro trata dos mitos do cotidiano da sociedade francesa à metade do século XX. Sua abrangência, contudo, ao menos como estrutura, dá conta não apenas de boa parte do ocidente à mesma época, mas das estruturas da sociedade hoje.

Os mitos, para Barthes, são pequenas ideologias, deformações cristalizadas, munidas de perenidade, da realidade em que nos encontramos. Desde o formato de comerciais televisivos até hábitos profundamente incrustados em nossa maneira de pensar, como a necessidade do casamento ou da inserção no mercado de trabalho, as mitologias de Roland Barthes cobrem boa parte da maneira ocidental de pensar.

A atualidade da obra, porém, não reside nos exemplos, mas na teoria que o semiólogo constrói ao final da compilação de pequenos fragmentos. A menção ao abade Pierre pode não significar muito em 2016, mas a forma como Barthes o enxerga pode se revelar muito contemporânea.

É evidente que continuar o exercício de compilação e análise hoje pode ser enlouquecedor, uma vez que a publicidade ganhou corpo e face desde os anos 50 e a ingenuidade do público frente ao que é oferecido é infinitamente menor, tornando um exercício semiológico nos mesmos moldes algo muito mais complexo, até pelo próprio desenvolvimento teórico da semiótica/semiologia.

Porém, é impossível negar que as observações sobre mídia traçadas pelo francês não servem somente como registro histórico: servem como lição de estruturação de ideias, dando conta de diversas subdivisões da sociedade a partir de um único tronco.

Mais importante: Barthes deixa a ideia de aplicar sua análise, por exemplo, ao mercado de arte, tão plural e divergente nas últimas décadas, além de crescentemente inflacionado e subjetivo. A inversão do mundo apresentado nas Mitologias serve exatamente como ponto de partida para a busca por um novo objeto, talvez não aos moldes do semiólogo francês, mas algo, quem sabe, intra-artístico que não uniformize, ainda assim dando conta, de forma organizada, de tantas diferenças no terreno contemporâneo das  experiências sensoriais.

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Crítica Literária

Giovani Kurz nasceu em 1997, em Curitiba, onde vive. Aluno do bacharelado em Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Paraná, estreou na poesia com Nascente Periférico (Substânsia, 2014). Integrou a coletânea FLUPP Novos Poetas, também em 2014, participando, no ano seguinte, da antologia de melhores textos do jornal RelevO. Atualmente, assina uma coluna mensal no site LiteraturaBr, além de publicar contos aqui e acolá. É parte, também, da terceira edição do Livro dos Novos (Travessa dos Editores, 2016).
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  • Vivian de Moraes
    27 outubro 2016 at 4:54 pm

    Adorei o texto, tem gostinho de “quero mais”! Sinceramente, achei-o um tanto sucinto – penso que poderia ter sido mais desenvolvido. Mas sua relevância e o prazer que nos traz é inegável. Parabéns, Kurz!

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    • Giovani Kurz
      27 outubro 2016 at 5:21 pm

      olá, vivian. fico feliz que o texto tenha sido relevante à sua leitura, e já adianto, a respeito do gosto de “quero mais”, que a ideia é publicar outros dois textos que tratam do mesmo assunto, a partir de outras perspectivas.

      deixo meu obrigado e um abraço,
      giovani kurz

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