A literatura como possibilidade ontológica do homem

por Matheus Arcaro

“Só se pensa através de imagens.
Se você quer ser filósofo,
escreva romances.”
(Albert Camus, Carnets)

O presente artigo propõe uma investigação das possibilidades da arte, mais especificamente da literatura, como porta-voz da condição humana em sua profundidade e contradições. Para tanto, construímos o texto em três partes. A primeira, trata da dissolução da noção de verdade, enfatizando, por um lado, o contexto cultural propício para isso (passagem do século XIX para o XX) e, por outro, as críticas de Friedrich Nietzsche à tradição conceitual da Filosofia. A segunda parte aborda os atributos da literatura que a tornam uma possível representante para explorar a condição humana. Por fim, a terceira parte ilustra e concretiza a hipótese principal do texto com o romance “O estrangeiro”, de Albert Camus que, apesar de filósofo, lança mão da arte literária para explorar as angústias do homem.

1. Desconfiança quanto à razão
No século XX, vários acontecimentos abalaram significativamente a convicção na razão, na ciência, no progresso e na verdade. As duas grandes guerras mundiais, os governos totalitários (nazismo, fascismo, stalinismo, salazarismo, franquismo etc.), o holocausto e as bombas atômicas são exemplos mais que suficientes. Tais atrocidades não foram produto da irracionalidade, nem das paixões de determinados homens, tampouco dizem respeito a fatos pontuais ou ocasionais. Trata-se, isto sim, do prolongamento de um projeto racional que tem início na modernidade com o anseio humano de domínio sobre a natureza, passa pelo aprofundamento e disseminação desse conceito no Iluminismo, chegando ao ápice na virada do século XIX para o XX.
Na verdade, a passagem do século XIX para o XX é peculiar na história da humanidade graças, sobretudo, aos seus paradoxos. Por um lado, a maioria da sociedade europeia deslumbrava-se com as descobertas científicas, tecnológicas, artísticas e, principalmente, com as convicções iluministas de emancipação da humanidade através da razão. Por outro, em alguns terrenos intelectuais, havia o embrião do desmoronamento das certezas que se confirmaria no século XX. Primeiramente, podemos citar a publicação de “A origem das espécies”, de Charles Darwin (1808-1882), em 1859, que abalou o âmbito religioso: o homem não é mais uma entidade metafisicamente criada. Nas artes plásticas, podemos lembrar da emergência do Impressionismo a partir de 1874, que ofereceu uma espécie de alforria estética quanto à representação da realidade. Já no começo do século XX surgiu a Física Quântica com Max Planck (1858-1947) que revelou que nada pode ser medido com exatidão, pois o simples processo de medição afeta o que se quer medir. No âmbito da filosofia, emergem alguns pensadores como, por exemplo, Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Soren Kierkegaard (1813-1855) que não coadunavam com a crença desmedida na razão. Contudo, nenhum deles foi tão crítico à modernidade quanto Friedrich Nietzsche (1844-1900).
Nietzsche, com seu “martelo”, demoliu alguns dos conceitos filosóficos mais sólidos e críveis da época como o de verdade, o de razão e o de bem. Para a nossa empresa, vale-nos analisar sua crítica sobre a verdade.
No breve ensaio “Sobre verdade e mentira no sentido extramoral”, Nietzsche acusa o homem, principalmente o homem moderno, de valorizar a verdade não por uma questão de conhecimento, mas por uma necessidade moral já que, a maioria dos homens, só consegue viver sob a condição de crer em coisas delimitáveis e duradouras, ou seja, invocando a todo instante o universo da verdade. A verdade é um instrumento de defesa dos indivíduos que não dão conta da transitoriedade. Logo, para que o homem não sucumba ao caos dos fenômenos, a “vontade de verdade” toma dianteira em relação aos demais instintos e o homem cria o “conceito”. Como supostos representantes da verdade, os conceitos cumpririam o papel de conduzir o homem para além das contradições. Contudo, como não há efetividade sem contradições, o conceito não dá conta da realidade. Para Nietzsche, o conhecimento e o seu fim último – a verdade – são meras invenções que, esquecidas como tais, romperam o laço com sua origem artística. Quando falamos em verdade, na realidade estamos falando de

“uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos; em resumo, uma soma de relações humanas que foram realçadas, transpostas e ornamentadas pela poesia e pela retórica e que, depois de um longo uso, pareceram estáveis, canônicas e obrigatórias aos olhos de um povo: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que são, metáforas gastas que perderam a sua força sensível, moeda que perdeu sua efígie e que não é considerada mais como tal, mas apenas como metal”
(NIETZSCHE, 2005. p. 57).

Ao se perguntar o que é uma palavra, Nietzsche responde que é a transposição sonora de uma excitação nervosa. A palavra, em si, é uma metáfora, pois não alcança as “coisas em si mesmas”. O homem acredita saber algo das coisas, mas se fala de árvores, cores ou flores, por exemplo, não possui nada mais que metáforas dessas coisas. A verdade é a “petrificação” das inúmeras possiblidades de se vislumbrar o mundo. Em suma: a verdade não passa de uma metáfora que “abandonou” sua origem.

2. A literatura como porta-voz da condição humana
Partindo da conclusão nietzschiana (de que a linguagem conceitual não dá conta da realidade) e com o “destronamento” da Filosofia como porta-voz do discurso verdadeiro, abriram-se possibilidades para se falar sobre a ontologia do homem em outros registros. Dizendo de outro modo: a linguagem metafórica, mais especificamente a linguagem literária, pode ser uma saída plausível para tal empresa. A literatura, justamente por não se pretender verdadeira (já que sua premissa é ficcionalidade), teria legitimidade para falar sobre a condição humana.
Mas, antes de continuarmos, é preciso responder a uma possível objeção: ao sagrarmos a literatura como “porta-voz” da condição humana, não corremos o risco da postulação de uma nova verdade, recaindo no mesmo erro da ciência no século XIX, que tentou fixar “a” maneira de enxergar o mundo? Não. Se o conceito é estagnante, ou seja, fixa uma maneira de ver o mundo, a arte, ao contrário, suscita várias interpretações. Eis que Nietzsche lança mão da ideia de “perspectivismo”. O mundo comporta infinitas interpretações. A ciência, através da organização e sistematização dos dados colhidos do mundo, acredita que pode atingir a verdade, pretendendo-se absoluta. A arte, por sua vez, admite múltiplas perspectivas; admite a pluralidade, em vez da unidade, a diferença, em vez da identidade, a imanência, em vez da transcendência. Admite inúmeras possibilidades que, no nosso entendimento, podem interseccionar-se para vislumbrarmos a condição humana.
O escritor Marcel Proust (1871-1922) concorda com Nietzsche ao afirmar que a única maneira de colocar diante do leitor as mais profundas relações subjetivas é pelo emprego da imagem, da metáfora, a qual, segundo o próprio autor, “toma emprestada, de uma coisa estranha, uma imagem natural e sensível da verdade”. Outro autor que defende a autenticidade da linguagem metafórica em detrimento da linguagem conceitual da ciência e da filosofia é o escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011). Para ele, a literatura não é mero passatempo nem evasão. Ao contrário, é a maneira mais rica de examinar a condição humana. Segundo Sabato, depois das atrocidades vistas no século XX que asseveraram a descrença quanto ao poder agregador da razão, a literatura começou a mostrar-se mais interessada em conhecer o homem, um conhecimento mais profundo e complexo, pois passou a considerar a irracionalidade da existência.

“Os seres de carne e osso não podem jamais representar as angústias metafísicas sob o estado de ideias puras: fazem-no sempre encarnando essas ideias, obscurecendo-as com sentimentos e paixões. Os seres carnais são essencialmente misteriosos e se movem em impulsos imprevisíveis, mesmo para o próprio escritor que serve de intermediário entre esse estranho mundo da ficção, irreal mas verdadeiro, e o leitor, que acompanha seus dramas.”
(SABATO, 1953, p.39)

Roland Barthes (1915-1980), em sua “Aula”, coloca a literatura em posição de superioridade quando comparada à ciência, justamente porque ela não se pretende detentora de proposições absolutas; a literatura não pretende discorrer sobre a Verdade, mas sobre a condição dos homens. Além disso, Barthes afirma que a literatura deve ser vislumbrada como a disciplina por excelência na grade curricular de qualquer escola.

“Se por não sei que excesso de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto uma, é a disciplina literária que deveria ser salva, pois todas as outras ciências estão presentes no monumento literário […] Verdadeiramente enciclopédica, a literatura faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles; ela lhes dá um lugar indireto, e esse indireto é precioso. Por um lado, ela permite designar saberes possíveis – insuspeitos, irrealizados: a literatura trabalha nos interstícios da ciência: está sempre atrasada ou adiantada com relação a esta, semelhante à pedra de Bolonha, que irradia de noite o que aprovisionou durante o dia, e, por esse fulgor indireto, ilumina o novo dia que chega. A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa. Por outro lado, o saber que ela mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro: a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas sabe de alguma coisa; ou melhor: que ela sabe algo das coisas – que sabe muito sobre os homens.”
(BARTHES, 1992, p. 18-19)

Barthes acredita que a literatura tem papel fundamental para o homem: ela é a única possibilidade para a língua escapar das tramas do poder. E a liberdade que a literatura engendra não está vinculada a atributos como preferências pessoais do escritor ou engajamento político do mesmo, mas ao trabalho de “deslocamento” que sua arte exerce sobre a língua. Aliás, a noção de “deslocamento” é muito cara a Barthes. Segundo o próprio autor, deslocar-se significa “transportar-se para onde não é esperado, ou ainda e mais radicalmente, abjurar o que se escreveu.” Ao contrário do senso comum, da mídia, da ciência e da filosofia, a literatura encena a linguagem em vez de simplesmente utilizá-la. Através da literatura, o saber reflete incessantemente sobre o saber, segundo um discurso que não é mais epistemológico, mas dramático.

3. Albert Camus e “O estrangeiro”
Conforme já mencionamos, vários fatos do século XX corroboram para que as questões humanas tomassem contrastes mais trágicos. Contudo, nenhuma delas é tão catastrófica quanto a Segunda Guerra Mundial, com seus campos de concentração e bombas atômicas. É nesse contexto que emergiu a obra de caráter predominantemente “absurdo” de Albert Camus. Com efeito, não havia mais a certeza em um ser supraterreno a quem o homem podia rogar, nem a certeza da ciência na qual o homem podia agarrar-se. O que restava, então? Camus respondeu: a arte; a literatura; o romance. Não como redentores ou salvadores das mazelas humanas, obviamente. Mas como a única possibilidade de mergulhar nesse estrangeiro de si que é o homem.
Camus escreveu vários ensaios para explorar as contradições e angústias do homem. Entretanto, nos próprios ensaios ele afirmou que o gênero romanesco seria mais pertinente para tal empresa. Naturalmente, jamais afirmara que o ensaio não desse conta de explorar as amplitudes do homem; mas que a arte seria um “passo adiante” nesse processo. Em “O homem revoltado”, utilizando Dostoievski como exemplo, asseverou o autor franco-argelino:

“A existência é enganosa ou eterna. Se Dostoievski se contentasse com essa análise, seria filósofo. Mas ele ilustra as consequências que esses jogos do espírito podem ter na vida de um homem e por isso é um artista”
(CAMUS, 1996, p.119).

O próprio Camus não se contentou em ficar somente no âmbito ensaístico e lançou-se à arte literária. A partir de “O estrangeiro”, sua obra mais famosa, ilustraremos como o romance é capaz de explorar com profundidade as possibilidades do homem. Camus afirmou (em entrevista de 1955) que não seria errado ler “O estrangeiro” como a história de um homem que, sem atitudes heroicas, aceita morrer pela verdade. Diz ainda que o protagonista, Meursault, não é um perdido ou depravado, mas um homem “pobre” e “nu”, apaixonado pelo sol. E nós, pretensamente, completamos a fala do autor: um homem que não é apenas um homem, mas todos os homens estrangeiros de si, da humanidade e do mundo. É provável que o romance seja tão popular justamente por isso: porque não narre simplesmente a vida de um homem, mas a de todos nós. Uma espécie de autobiografia de todo mundo. Meursault leva uma vida banal; recebe a notícia da morte da mãe de modo indiferente; comete um crime; é preso; julgado; tudo gratuito, sem sentido, apenas mais um homem arrastado pela correnteza da vida.
O principal intento de Camus em “O estrangeiro” é explorar o absurdo da existência, personificando essa noção em Meursault. De modo simples, podemos dizer que a existência é absurda porque não tem significado ou ordem prévia. O absurdo, o gratuito, o incompreensível, torna equivalentes todos os pontos de vista, com acontecimentos em sequência que geram, simultaneamente, êxtase e morte. Entretanto, porque a maioria das pessoas não é capaz de suportar essa noção, constantemente há tentativas de se identificar uma estrutura racional que sustente a existência ou criar um “télos” (sentido) que oriente a vida. Meursault só tem uma ideia precisa dessa falta de sentido no final do enredo, no diálogo com o capelão: ao atingir o conhecimento da inevitabilidade da morte, ele obtém serenidade. Percebe ainda que recorrer à decisão de seu julgamento é uma esperança ilusória que só criaria o sentimento falso de que a morte é evitável. Camus usa o destino de Meursault para demonstrar que a situação humana é absurda: somos todos condenados à morte não sendo nem culpados nem inocentes.
“O homem absurdo é aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno”, escreveu Camus. Este homem não está ligado nem ao passado histórico e cultural, nem ao futuro. Assim sendo, por um lado, pode cometer qualquer ato impensado e, por outro, deixar de temer as possíveis consequências desses atos. O homem absurdo não vive sob os paradigmas da razão ou da moral. Como Meursault é a personificação desse homem absurdo, as noções de bem e mal são indiferentes para ele.
Digno de nota também é a recusa do protagonista em relação ao “jogo social”. Não é extravagante afirmar que o heroísmo de Meursault é, na verdade, um contraponto ao ativismo em pauta na época da publicação do romance. Por isso, o romance foi alvo de várias críticas dentre as quais: “desmoralizador”, “desmoralizante”, “desertor” e “demissional”. Camus, em seus “Carnets”, escreveu que quem fez uso desse tipo de argumento ignorou profundamente o espírito do romance. Afinal, a ideia do absurdo, necessariamente, traduz o nível zero de engajamento. É uma verdade negativa: um início necessário a todo engajamento ativo.
O absurdo diz respeito também ao estado de consciência individual, validado no detalhe, no cotidiano, na rotina. Essa temática fundamenta o processo de questionamento da vida humana submetida a uma mecânica sem perspectiva. Por isso, sobre o convívio social, Meursault não emite opiniões ou julgamentos morais.
Para Camus, deve-se contestar o absurdo sem a ilusão ou esperança de resolução. Viver consiste, portanto, em revoltar-se contra o absurdo (o destino esmagador que paira sobre todos os homens, estrangeiros no mundo) sem, todavia, resignar-se.
É evidente que não podemos relegar o caráter circunstancial da obra, já que “O estrangeiro” foi escrito em plena Segunda Guerra, numa época em que o homem estava sob suspeita de si. Contudo, como certa vez afirmara Friedrich Schiller, a grande obra de arte tem o poder de suscitar o universal no particular. E, sem dúvida, o romance de Camus, independentemente do contexto em que foi escrito, põe em evidência o conflito insuperável da condição humana. Mais do que isso: explora as profundezas do homem em todas as suas contradições e angústias.

Referências bibliográficas

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1992.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2010.

CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Rio de Janeiro: Record, 2010.

_______, Albert. O Homem Revoltado. Rio de Janeiro: Record, 1996.

_______, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FERRAZ, Maria Cristina Franco. Da valorização estratégica da metáfora em Nietzsche. In: Nove variações sobre temas nietzschianos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

GIACOIA, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
__________________. Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 2005.

PERRONE-MOISÉS, Leila. Altas literaturas. São Paulo: Companhia das letras, 2009.

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Crítica Literária

Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto-SP. É mestrando em filosofia contemporânea pela UNICAMP. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, palestrante, artista plástico e escritor, autor do romance "O lado imóvel do tempo" (Patuá, 2016) e do livro de contos "Violeta velha e outras flores" (Patuá, 2014). Seu próximo livro, "Amortalha", será publicado em outubro de 2017.
Um comentário

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  • Vivian de Moraes
    27 outubro 2016 at 5:03 pm

    Matheus, somente agora li este interessante ensaio. Ele vibra, é maravilhoso! Ele vibra, apesar de se encaixar na linguagem acadêmica. Ele vibra, porque vibramos! Gostei especialmente, por motivos pessoais, do diálogo possível entre Nietzsche e Proust. Um abraço!

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