Quando eu li o Reino Infantil

por Sérgio Fantini

Trabalho com leitura, livros e bibliotecas há alguns anos. Nesta prática diária aprendi a entender melhor o papel da ilustração, do projeto gráfico e das modulações necessárias ao texto para que um livro destinado às crianças tenha melhores chances de ser lido (assimilado, compreendido, manuseado, rabiscado, lambido…). Passei a ter maior respeito pelos profissionais envolvidos e pelos colegas que se dedicam a esse ofício nada fácil. E, melhor, passei a admirar e ler com mais prazer os livros que me cercam. (Sou um adulto cercado de infância por todos os lados.)

Mas isso me trouxe uma pergunta que ainda não consegui responder satisfatoriamente: como eu, a partir dos sete anos de idade, usuário privilegiado da biblioteca que tínhamos em casa, pude devorar todos aqueles livros em preto e branco (era quase isso mesmo), apenas letras? As respostas que tenho são as que costumamos dar nos debates sobre o tema: acesso, afeto, liberdade etc.

Falo, por exemplo, da coleção “Reino Infantil”, editada pela LEP S.A., de São Paulo, em 1956. São dez volumes, cada um com cerca de dez contos, que têm ao menos nove páginas cada e apenas um desenho como ilustração. A coleção ficou com minha irmã, que é pedagoga, mas eu me lembro de várias imagens e trechos das histórias até hoje, quase cinquenta anos depois da primeira leitura. Sinto ainda, e é este mesmo o termo, a imersão que fiz àquela época.

Essa sensação de atualidade se deve, aposto nisso, a dois fatores que não estão presentes nos livros atuais: a página da ilustração e ao texto não facilitado.

O desenho é bom, mas não é de grande qualidade artística; sua informação coincide com o trecho do conto que lhe serve de legenda; é feito em bico de pena (ou similar) e impresso em uma página colorida, isso é, o desenho original é p&b, mas a mancha em que ele está tem cor (cada volume tem uma cor diferente). A essa característica eu atribuo sua capacidade ter se fixado em minha memória: é como um sonho! As formas (pessoas, objetos) não têm cores próprias, mas o conjunto todo tem uma cor só. Um sonho, uma viagem química.

E o texto. Seria preciso usar vários parágrafos para comentar e dar exemplos do que é aquilo. Hoje seu autor não passaria pela recepção da editora, mas foi com ele (entre outros) que eu penetrei no “mundo mágico das palavras” — e da literatura. Claro que há termos que eram correntes à época, mas é fácil perceber que o ‘adaptador’ não se preocupava em facilitar nada para nós. Eu era usuário dos dicionários exatamente por isso. Talvez fosse, mesmo àquele momento, uma fragilidade do escritor e do editor; talvez não houvesse ainda um pensamento específico para esse mercado; talvez ele já soasse antigo… O fato é que junto às histórias de Andersen, Perrault e outros clássicos, havia esse texto que obrigava a nós, pequenos leitores, a um esforço que dizia: “largue isso agora, porque você não vai dar conta, ou fique comigo — para sempre.”

Eu fiz esta opção.

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