De quando li a bíblia

por Roberto Menezes

Na infância, não tive muito acesso a livros. Sonhava em me perder nas bibliotecas que via nos filmes, ficar dias e dias. Se quisessem poderiam até me esquecer ali. Mas enquanto essa biblioteca não se concretizava, eu me contentava com o que tinha. E o fato de ser filho de evangélicos me dava o luxo de viver rodeado de exemplares e mais exemplares da bíblia.

A bíblia que li é aquela sem os apócrifos que os católicos levam na sua bíblia, e também sem os outros tantos apócrifos que têm perdidos por aí. Nunca liguei pra apócrifos, considerava igual a cortes do diretor que não foram pra versão final do filme. Não sou de ver extras em DVD. Essa bíblia dos crentes tinha três versões de tradução: a corrigida, a atualizada e a pros dias de hoje. A diferença só na linguagem. Nas três, Jesus morria e ressuscitava no terceiro dia. Ah, antes mesmo de ler a bíblia eu já sabia quase todos os spoilers. E quer saber, foi até bom. Ler a bíblia já tendo ouvido quase tudo ser narrado nos cultos e nos hinos me livrava da ansiedade de correr pra saber o final. Assim dava pra focar em cada passo, em cada detalhe do plot.

Li a bíblia três vezes. Isso sem contar as leituras esporádicas e repetitivas que era obrigado a fazer na igreja. Na última vez, eu tinha dezesseis anos. Dessa vez, fiz uma minuciosa análise crítica, procurei encontrar pontos que entravam em contradição com as doutrinas que o pastor da Assembleia de Deus tentava impor aos congregados. Onde diz na bíblia que não existe extraterrestre? Nunca encontrei. Não preciso dizer que as incoerências, sim, essas encontrei, muitas, dezenas. Mas não quero me prender nesse texto à mensagem que a bíblia quer passar. Se os livros de Levítico e Números trazem leis horrendas, todos já sabem. Que Saulo que virou Paulo propagou algum ódio no meio de tanto amor não é novidade. Quero focar em como as leituras da bíblia foram úteis na minha formação de leitor e escritor.

A bíblia tem o começo mais foda que já li em um livro. Gênesis 1 é uma obra-prima da literatura mundial, seja lá quem escreveu, merece meu respeito. O cara resumiu em quase uma página muito da ciência da época de maneira poética e concisa. Tudo é rápido no começo, depois de Adão e Eva, passam-se gerações até chegar em Noé. Quem não se maravilhou com a história de Noé, da arca e do arco-íris? E continuou assim, espantado com o deus, que bem poderia ter saído de Games of Thrones, incendiando Sodoma e Gomorra e transformando a mulher de Ló numa estátua de sal? E não eram só as histórias, tinha as metáforas, as alegorias que vinham por trás de cada fato.

Como se tudo aquilo fosse inventando por um escritor com imaginação e inteligência altíssimas. Minhas horas antes de dormir ficavam mais emocionantes quando sabia que ia acompanhar a saga dos judeus pelo deserto, sua chegada e as batalhas épicas pra tomada da terra santa. Me horrorizei quando Josué ordenou que, das cidades tomadas, não era pra sobrar ninguém vivo, que deveriam matar mulheres, velhos e crianças. Nunca acreditei, desde a primeira leitura, que essa limpeza étnica tivesse sido ordenada por algum deus. A bíblia me mostrou que a maldade é inerente à essência humana.

Eu lia e queria saber mais, leitura sem censura, não tola feito os filmes da sessão da tarde. Eu não tinha parâmetro pra julgar a qualidade, quase não tinha leitura e era muito pirralho, mas achava massa. E ainda é. O que diria Joseph Campbell sobre a história do moleque David que malandramente se tornou o rei de uma nação. Eu faria sucesso se escrevesse uma história com personagens com poderes de super-heróis como tinha José, filho de Jacó, e de Sansão, o cabeludo. E a dupla Elias e Eliseu. E o anjo chamando Samuel, Samuel, Samuel. A decisão de Salomão. Jonas na baleia. Daniel na cova dos Leões. A jumenta de Balaão. Foda! A bíblia é a melhor antologia já escrita. Ah, quase ia esquecendo, o livro de Jó é a leitura mais perturbadora que já fiz na minha vida. Tem pareia não.

E tinha mais coisas. Os livros de Salmos, Provérbios e Eclesiastes com suas máximas marcantes. Os Cantares de Salomão, uma putaria só. Eu não gostava dos livros dos profetas, profetas maiores, profeta menores, muita encheção de linguiça, repetição, blá blá blá. Pelo menos foi isso que achei na época, talvez me surpreenda se for reler. Profecias. Deve ter muita metáfora escondida que passei batido. Fazer assim, quando eu reler, faço um texto pra dizer o que achei.

E notem que só tô falando do velho testamento. O novo testamento parece um livro que foi publicado por outra editora. O editor parecia tá mais preocupado em agradar o público ao vender um deus mais bonzinho. Bem diferente do deus do velho testamento que matou todos os primogênitos egípcios na sua sétima praga. Agora deus desceu do céu, deixou de falar por meio de fogo ou luz, Jesus, totalmente anos sessenta, pregando aquela coisa de dar a outra face, dar a César o que é de César… quatro livros, contando a mesma história, magnífico.

Aí vem Atos, que eu chamaria de Desventuras em série, livro pequeno e bem escrito. Por falar em bom escritor, Saulo que virou Paulo sabia do traçado, consegue manter o nível do resto da bíblia. Depois tem as outras cartas de outros caras até chegar no livro do Apocalipse. O livro das Revelações, como gostam de falar os católicos, é uma coisa à parte. Imagina ler o Apocalipse no fim dos anos oitenta quando a gente esperava que o mundo fosse acabar a qualquer momento por uma explosão de uma bomba H. Foi lendo essa parte da bíblia que comecei a me interessar por Iron Maiden e suas capas apocalípticas. João devia tá muito doido quando escreveu. Altamente psicodélico.

Quando li a bíblia entrei num universo literário divino e maravilhoso. Só a série Duna, de Frank Herbert, me fez mergulhar com tanta intensidade. Aprendi a ler com paciência e com senso crítico, ler e reler e reler. Também li o Corão, o Livro dos Mórmons, o Bhagavad-Guitá, e em nenhum deles me interessava religião, espiritualidade e outras fugas. Histórias épicas, envolventes e profundas, era isso o que eu queria. De lá pra cá, o jeito que leio e escrevo é muito influenciado por essa primeira leitura.

 

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Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados "Pirilampos Cegos" (romance), "O Gosto Amargo de Qualquer Coisa" (romance), "Despoemas" (contos) e "Palavras que devoram lágrimas" (romance) e "Julho é um bom mês pra morrer" (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.
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