A resistência do pixo

Contra a burguesia e a hipocrisia, a tinta risca a parede branca, o muro liso: a cicatriz de uma cidade desigual e excludente. A resistência por meio de uma...
Foto de Giovana Anschau

Contra a burguesia e a hipocrisia, a tinta risca a parede branca, o muro liso: a cicatriz de uma cidade desigual e excludente. A resistência por meio de uma forma única de expressão. Não é grafite, é pixo. Uma marca, um símbolo. O atestado que berra: estamos aqui, existimos, a cidade perfeita não existe, e todo o ambiente urbano carrega dezenas de níveis de significação.

Propor uma discussão sobre o caráter artístico das manifestações de rua é, no mínimo, ingênuo. Se a arte deve ser crítica, se deve provocar impacto, se deve desestabilizar o que está posto, se deve constituir uma experiência estética, se deve chocar o cidadão comum, se deve chamar atenção (para algo), se a arte deve ser sangue e coração, o pixo é arte.

A tinta mancha o córrego urbano com honestidade e autenticidade, as artérias pintadas – marcadas – pela lembrança da pobreza e da exclusão, que existem no silêncio de cada um de nós: passamos ao lado do corpo jogado sob a marquise, em frente à vitrine, ou ao corpo sem rosto que vaga, invisível.

É uma selva, a cidade. São muros, prédios, janelas, esca(la)das, todas superfícies adequadas. O pixo não é uma opção: é uma natureza, está no sangue a necessidade de se fazer ouvir pelos olhos. É uma comunicação fechada, feita para agredir, para atacar a sociedade. É também uma máscara, sobre a qual é necessária a reflexão e compreensão: aprende-se a conviver com aquilo que é distinto.

Foto de Giovana Anschau

Foto de Giovana Anschau

 

Exibindo anschau3.jpgA beleza do pixo deve ser sentida, sim, mas, acima de tudo, deve ser compreendida, observada com cautela e dedicação. O traço proibido carrega uma força, uma violência que apenas sua subversão pode transmitir.

A arte está nos museus, obviamente está. Mas do lado de fora das catedrais há o mundo. E qual obra de arte partiu de algum lugar que não fosse mundo? O pixo é belo por não querer ser arte, o pixo é belo por levar o corpo do artista a um extremo desconhecido, que desafia os obstáculos mais cruéis e se impõe, faz a sua marca, tatua uma esquina, risca o plano da ordem, do previsível.

Ninguém aguenta dias todos iguais. A originalidade do símbolo, um brasão estampado em meio a tantos outros brasões, logomarcas de empresas, nomes de lojas, restaurantes, farmácias. Há um processo: nada é aleatório.

A influência para o movimento vem do heavy metal, do punk rock, do harcore; dos símbolos germânicos, escandinavos, dos primeiros alfabetos europeus; símbolos de difícil decifração, colocados pela cidade sempre com um significado, sempre dizendo ei, você, foda-se, sem que o passante comum os entenda, mas fazendo com que o passante comum se sinta alvo daquela violência, do contraste entre o plano e o relevo, entre o certo e o errado.  

O vício em desvirtuar a ordem, em subverter o sentido da tinta. A adrenalina da arte como crime e do crime como arte. São Paulo é o coração pulsante dessa manifestação potente e original, um mosaico de tintas, de ideias: vozes em uma bela desarmonia, compondo dissonâncias e sinfonias. É a voz da periferia que penetra nas cidades e encontra seu caminho, a favela grita em praça pública, direito é para todo mundo, não apenas para quem tem o dinheiro, a gravata, o mercedes.

A voz do povo está escrita nos muros. O pixo é a arte do limite, da tênue linha entre a Terra e o Céu, do perigo, da franqueza. Arte que ilustra a metrópole, repleta de ódio, de egoísmo, de perversidade.

Arte de coragem, de fúria e explosão, que reza: estamos todos aqui.

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Giovani Kurz nasceu em 1997, em Curitiba, onde vive. Aluno do bacharelado em Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Paraná, estreou na poesia com Nascente Periférico (Substânsia, 2014). Integrou a coletânea FLUPP Novos Poetas, também em 2014, participando, no ano seguinte, da antologia de melhores textos do jornal RelevO. Atualmente, assina uma coluna mensal no site LiteraturaBr, além de publicar contos aqui e acolá. É parte, também, da terceira edição do Livro dos Novos (Travessa dos Editores, 2016).
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  • MOACIR
    21 julho 2016 at 10:57 pm
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