Entrevista com Nathan Sousa

por Vivian Lopes

Entrevista com Nathan Sousa

Nesta entrevista exclusiva ao LiteraturaBr, o escritor Nathan Sousa fala de sua terra, criação literária, contemporaneidade, influências e novos projetos. Confira a seguir:

Você já ostenta o Prêmio José de Alencar 2015, da UBE, é finalista do Prêmio Jabuti 2015 e do Prêmio OFF Flip 2016. Esses prêmios são essenciais para quem quer se firmar como escritor?

Os prêmios servem, antes de tudo, para dar maior visibilidade. Sou um poeta e escritor que mora numa cidade muito pequena, encravada no meio do Piauí, onde a literatura ainda é encarada como algo um tanto desconhecido. Ganhar prêmios dessa importância e/ou ser finalista, tem servido como um instrumento de apoio no processo de divulgação do meu trabalho. Sem contar que tem (digo sem titubear) me aproximado de escritores já consagrados, de editoras maiores, do circuito mais dinâmico da literatura. Portanto, os prêmios têm servido consolidar a minha carreira, sim.

 

A impressão que tenho ao ler seus livros em sequência é a de que houve um grande aprimoramento. Nota-se uma progressão: os temas tempo, a simbologia vento e dos olhos podem ser percebidos no decorrer das publicações. No entanto, seus dois primeiros livros passam uma impressão de que nem tudo foi completamente estudado. Você era um escritor mais impulsivo no início?

Nathan: Sim. No começo eu ainda estava mergulhado única e exclusivamente na busca de uma linguagem que pudesse dialogar entre a expressão e o que eu sentia/percebia. Sempre tive comigo que poesia é linguagem elevada ao mais alto nível, mas ultrapassa a experiência linguística, para citar Walt Whitman. Estudei, aprimorei, reescrevi, lapidei… criei e recriei meu laboratório de palavras, de imagens…

 

Em “O percurso das horas” (2012) e “No limiar do absurdo” (2013) você fazia muita metapoesia — algo que, pessoalmente, considero como até negativo na lírica de um autor. O que você pensa disso?

Nathan: Era uma busca. Eu sentia a necessidade de trabalhar as metáforas. As imagens dos meus poemas, creio eu, desde o início, exigiam de mim uma expressão metafórica. Precisei praticar os excessos, e isso eu não tenho como explicar.

 

Em “No limiar do absurdo”, o terceiro e último bloco de poemas, “Amálgama” parece já dizer como seria a sua lírica depois dali. Concorda?

Concordo. “No limiar do absurdo” termina como uma ponte entre uma sintaxe onde as imagens eram mais fortes que a linguagem, para uma sintaxe renovada, mais enxuta, mais límpida. Fui para uma nova etapa.

 

Em um poema do “percurso” seu eu-lírico diz: “mas graças a Deus/ eu não sou Deus”. O que você faria, como poeta, se fosse deus?

Não há nada para se fazer na poesia além do que o curso natural da vida já oferece. Poeta é o agente inesperado num mundo inexplicável, e isso é que é a pedra de toque da poesia. Portanto, graças a Deus, eu não sou Deus.

 

Seus primeiros livros já têm um caráter bastante confessional que permeia toda a sua obra. O que o inspira a escrever sobre suas experiências? Qual a lupa que o poeta usa para fazer do prosaico algo poético?

Aproveitando um pensamento de Ezra Pound, sou um poeta eminentemente logopaico, um poeta de sentimentos pensados. Nenhuma matéria me atrai mais que a própria complexidade da vida cotidiana, esse caos que baila entre as realizações macrocósmicas e o olhar consternado de um velho agricultor escorado em uma enxada, enquanto o suor pinga de sua face na terra árida. Essa elevação das coisas comuns ao status de arte literária é o que mais me fascina. Em um poema eu digo “nada do que escrevo vem do mito ou das estrelas”.

 

“Um esboço de nudez” (Penalux, 2014) parece ser um divisor de águas em sua carreira, independente do fato de considerarmos que ele foi finalista do Jabuti. Assim você o percebe também?

Pensando dessa maneira, acredito que sim, embora eu não saiba demarcar com exatidão esse momento. Fico sempre entre o livro “Sobre a transcendência do silêncio” (Prêmio Nacional LiteraCidade 2013), e “Um esboço de nudez”. Com o “Sobre a transcendência do silêncio”, eu senti que aquelas demandas de linguagem, formadas no começo de minha escrita poética, tinham sido supridas, e que uma nova sintaxe se formada em minha cabeça a partir do meu primeiro trabalho com a Penalux.

 

Quanto à sua obra mais recente, o romance “Nenhum aceno será esquecido”: esse título está no último verso do poema “Se valer a pena”, de “Mosteiros” — livro que é uma preciosidade. O poema influenciou a escrita do romance?

Não. Eu retirei o título do poema, mas não passou disso… (risos)!

 

Já que estamos falando disso, vem-me à mente outra questão. Sendo poeta veterano, o que lhe impulsionou para escrever um romance? Como foi seu processo criativo?

Um veterano que começou há quatro anos… (risos) Sempre me perguntam sobre isso. Até eu me assusto com a velocidade com que as coisas aconteceram na minha carreira literária. Nunca imaginei que eu fosse, um dia, dizer “carreira literária”. Bom, mas aqui estou. Quando eu pensei em escrever alguma coisa na minha vida, isso lá nos meus anos juvenis, com 16, 17 anos, eu pensava em prosa. Era a prosa que me encantava. Mas eu não me sentia (e, de fato, não estava) preparado para escrever sequer um mísero miniconto. O romance surgiu de uma necessidade; por sinal, foi a primeira na minha vida, de escrever uma história que meu avô materno me contou a respeito do processo de povoamento da cidade de origem da nossa família. “Nenhum aceno será esquecido” teve como mote a versão que meu avô me contou. Porém, nada daquilo ultrapassou a metade da primeira página do livro. Esperei 15 anos para começar a escrever a saga de Acemira Mesa Medeiros, e quando isso aconteceu, fui tomado por uma espécie de compulsão que durou de outubro de 2014 a abril de 2015.

 

Virão outros romances por aí?

Estou escrevendo o segundo, mas não sei se precisarei de mais 15 anos. A literatura é uma deusa caprichosa…

 

E qual o tema do seu segundo romance?

Uma mulher de quarenta anos, sem amor, sem filhos, que anda às turras com uma tese de doutorado em literatura comparada, vivendo sua caminhada errante de cidadã comum, entre drinks e maços de cigarro, acompanha (como os bons anônimos) os acontecimentos de seu tempo através da mídia. Uma espécie de enredo secreto das coisas normais, comuns do cotidiano. Ela jamais imaginou que viverá muito, dado o estilo de vida que leva, mas viverá 105 anos. Nunca acredita no rosto que vê no espelho, mas o rosto é seu. O ROSTO IMPREVISTO, esse é o título.

 

Como está a evolução desse romance? ele sai em breve?

Não sairá este ano. Isso eu lhe asseguro… (risos)

 

Qual o grande desafio da literatura na pós-modernidade?

Pra falar a verdade eu nem mesmo sei se há uma pós-modernidade. O mundo cotidiano é veloz e feroz aos extremo. Viveremos o “vamos ao que interessa”, e o que interessa pode ser algo que não dure mais que uma rápida “olhada” na sinopse do livro. Nunca se escreveu tanto, se publicou tanto, nunca tivemos tanto, tão perto e por tão pouco em matéria de literatura como agora. No entanto, nunca se teve tantas incertezas sobre o futuro da literatura. Nosso grande desafio é saber encarar um mundo de escassez e de volatilidade numa escala desmedida. Mas isso não me preocupa a ponto de me deixar sem cerveja ou sem estímulo.

 

Bem, vamos conversar sobre simpatias e influências. Você tem sido elogiado por poetas como Salgado Maranhão e Chico Lopes. Você acha que isso endossa o seu trabalho? Quais são as suas influências, tanto na poesia quanto na prosa?

Endossa, mas não me envaidece. Endossa porque sei que os nomes que você citou não são dados aos elogios desnecessários. Mas isso também também me diz: “trabalhe, trabalhe”. Um escritor, sabemos, é um trabalhador como outro qualquer. Não é um semideus. Drummond já nos ensinou sobre a natureza do nosso ofício. João Cabral de Melo Neto já nos disse sobre a importância do suor sobre a pedra. Meus encantamentos literários tiveram início com os contos dos irmãos Grimm, com Exupéry, passando por Graciliano Ramos, até chegar nos autores do chamado boom da literatura latino-americana e pelos autores russos. Na poesia, tudo começou com Gullar, depois Drummond, João Cabral, Rilke, Mallarmé, Neruda, Salgado Maranhão, entre outros.

 

Você gostaria de acrescentar algo?

Quero agradecer a você pela entrevista, e desejar a você e a todos os leitores do LiteraturaBr o meu forte abraço.

 

Nathan Sousa nasceu em Teresina (1973). É Tecnólogo em Marketing, escritor, acadêmico, professor, poeta e letrista. É vencedor de vários prêmios literários, dentre eles o Prêmio Machado de Assis 2015 (Confraria Brasil-Portugal) e o Prêmio José de Alencar 2015 (UBE). Foi finalista do Prêmio Jabuti 2015 e do Prêmio OFF FLIP Bibliomundi de Literatura 2016. É autor dos livros O Percurso das Horas (Edição do autor, 2012), No Limiar do Absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (LiteraCidade 2014), Um Esboço de Nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). É membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Tem poemas traduzidos para o inglês, o francês e espanhol

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