Aldous Huxley e o sentido da vida

por Marco Severo

Há algum tempo, um amigo chegou até mim com a seguinte pergunta: E se houvesse uma terceira verdade sobre o sentido da nossa existência – se não fosse nem o nada absoluto nem um deus piedoso – você gostaria de saber?”.

Eu não tenho vocação nem pra vidente, que dirá pra oráculo, mas na mesma hora que ouvi a pergunta, fui remetido a uma frase de Aldous Huxley que li há muitos anos: “E se a Terra for o inferno de algum outro planeta?”. Essa foi a “terceira verdade” que me surgiu como possibilidade, em resposta à pergunta do meu amigo.

Sei que adentro terreno espinhoso, mas a possibilidade existe. Se você é uma pessoa de fé, e acredita em coisas como vida após a morte, ou um possível “unir-se a Deus” para retornar depois do período de tribulação (que é aquela época em que, segunda a bíblia, o anticristo aparecerá com tudo antes de ser esmagado por Deus e passarmos então a viver a paz eterna), então você não se deixa abalar. Ou pelo menos se apega a isso e finge muito bem, que é o mais provável, porque ninguém vive sem um mínimo sequer de dúvidas. Está tudo certo, caminhamos para um fim e um novo começo, amém. Se você é daqueles que acha que a gente morre, vira esterco e acabou-se, então está tudo bem também, afinal, a vida é esse negócio aleatório, bem como a morte: nascemos sem querer e morremos, na grande maioria das vezes, também sem querer, do nada nascemos e para o nada voltamos, c’est fini.

Mas, de fato, quando Aldous Huxley, o grande escritor inglês autor do clássico Admirável mundo novo, propôs essa assertiva filosófica, a ideia deu o que pensar. Ousar questionar a existência de uma divindade quase sempre dá em confusão, mas não é segredo que Huxley era um grande cético, que inseria portentosas considerações morais e filosóficas em seus muitos contos, ensaios e romances.

Voltando à questão: e se o lugar que habitamos for mesmo uma espécie de inferno de algum outro lugar, ou mesmo o próprio limbo, esse lugar onde perecem as almas enquanto não se sabe muito bem o que fazer com elas?

Motivos para acreditarmos nisso, temos de sobra. Desde o começo das civilizações que a gente tenta se destruir vorazmente, o mundo nunca esteve ausente de guerras, a fome e as desigualdades grassam pelo mundo, a violência, conquanto hoje em dia seja menor em termos estatísticos do que já foi um dia, continua a assolar a nossa vida diária como uma guilhotina sobre nossas cabeças, e o pior: seja no Brasil, na Rússia, nos Estados Unidos ou na Palestina, não vemos muitos sinais de que as pessoas que deveriam lutar para a mudança dessas realidades estejam de fato lutando para que algo seja feito.

Somos meramente humanos. Advindos do big-bang, de um macaco ou da vontade divina, titubeamos, hesitamos, nos questionamos. Na nossa escala evolutiva – independente daquilo em que você acredite – deixamos de ser meros seres provedores, que seguiam uma espécie de linha reta de vida, na qual você nascia, crescia, reproduzia-se e morria – e tudo isso levado bem ao pé da letra. Aliás, ainda hoje tem gente que entende por esse quarteto de coisas como “nascer, crescer, ter filhos e morrer”. Muita gente ainda não entende que o reproduzir-se pode ser, também, passar adiante conhecimento, amor, benevolência e o sentimento de paz que tanto nos desabita. Se reproduzir é tocar o outro com algo que você tem de verdadeiro, e que, por extensão, passa a fazer parte do outro também.

Grandes escritores, cujas obras se eternizaram mundo afora, como Ivan Turgueniev, Sigmund Freud, Bertrand Russell, Mark Twain, Salman Rushdie – eram todos ateus. A vida ganhava significado através das palavras escritas em suas obras, e assim, estão eternizados naquilo que existe de mais sublime e divino no ser humano: sua capacidade de criar.

Respondi ao meu amigo que não sei sequer o que há de verdade em quaisquer das hipóteses já criadas pelo ser humano sobre continuação ou descontinuação da vida após a morte – uma “terceira verdade” também não me satisfaria.

E é por isso que continuo a ler e escrever.

Palavras são possibilidades de perguntas.

Marco Severo é professor de inglês e tradutor. Tem um conto publicado na antologia "Cemetery stories" (2001) e também na revista Reader's Digest. Publicou o livro de crônicas "Os escritores que eu matei", pela editora Substânsia (2015) e prepara seu primeiro livro de contos para 2016.
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