O certo seria

por Talles Azigon

Prólogo:

Esse texto escrevi para Tetê Macambira, que iniciou o ano cobrando; por ter muitas dívidas, incontáveis, resolvi pagar mais uma.

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O certo era não precisar explicar algumas coisas, exemplo: “esse texto, escrevi pra ti”. Não é obvio? Ele tem até o formato do teu rosto.

O certo era não ter que lembrar a música que te lembra, naturalmente você deveria fazer toda  uma playlist só com as nossas músicas.

O certo era ser recíproco, não só o sentimento, recíproca palavra, gesto, silêncio e o grito.

O certo era dividir as contas. O certo era você aceitar que eu pague sem ressentimento. O certo era não contabilizar.

O certo era não nos vermos por um tempo, o certo era vermo-nos todos os dias durante algum tempo.

O certo é cultivar o espaço do outro, porém necessário a intercessão.

O certo é a empatia. O certo era você fazer o chá de hortelã com limão, sair por dentro da noite atrás de Tylenol para minhas dores.

O certo era sermos livre, entender liberdade como o uso pleno da vontade, podendo essa vontade ser/estar contigo somente, pra hoje ou pra sempre.

O certo era não desprezar os clichês, mandar flores, se há uma aura impregnada nessas coisas, por quê não? ser como os outros, sermos exclusivos, do modo que nos aprouver.

O certo era praticar compreensão, até quando ela é absurda, menos quando é violência. O certo era nunca ter violência.

O certo era você confessar, poderia ser uma tarde banal, no meio da aula de semiótica, você levanta a mão, pede a palavra, e como se fosse reproduzir uma fala séria de um estruturalista você diria: desejo informar a todas e todos que amo muito fulano.

O certo era você descascar o ovo cozido. Eis uma grande prova de amor, descascar o ovo cozido.

O certo era reconhecer que já deixamos passar algumas vezes o amor da vida.

O certo era nesse momento sermos o amor da vida um do outro.

O certo era cometermos umas precipitações; não há chuva nem amor sem precipitações.

O certo era juntar os nossos amigos e amigas, pois os amigos são pessoas, não são jurados, nem torcida, nem partido.

O certo era saber com sinceridade que somos desconhecidos, sem medos; é uma aventura solitária,pessoal,  de saber quem somos.

O certo era não acabar, mas se for assim que seja sem tiros; caso haja, no meio da guerra, que a história de nós dois possa reivindicar a dignidade e o respeito.

O certo era, como todos os textos que escrevo, dizer que eu não entendo o amor. Porém descobri, não é que não entenda, é que se o amor fosse uma cidade, para conhecer teria primeiro de visitar todos os bairros periféricos. Ainda estou visitando os bairros periféricos e falta muito para que conheça de todo o que venha ser esse cidadeamor.

 

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Eu nunca entendi

Poeta, Produtor Cultural, Contador de Histórias e Mediador de Leituras. Escreveu um Livro, Inventou um Editora, Espalha a Poesia Brasileira para todos os lados e é morador e fabulista da Maraponga.
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