Benedito das lágrimas

conto de Letícia Copatti Dogenski
retirado de https://goo.gl/0sbE7x

 

E eis que chegava o dia tão esperado. O desabrochar do íntimo, o porvir choroso da nova vida irrompendo passagens depois do atraso de dias. Gérbera já devia de ter partejado sua cria, diziam as mulheres parideiras, há semana atrás. A recusa do filho que a brotasse lhe causava desconfortos que choramingava à família, a postos na esperança de que a qualquer momento acontecesse a luz. Mas a cada noite nova que a grande barriga não lhe permitia sono tranquilo, paleava impropérios às mulheres para que lhe tirassem logo a cria que, além de tê-la nos braços, queria menos sofrer. A mais velha delas, que coordenava todas as outras, ainda mais a preocupava. Dizia-se meio vidente, jogava cartas e búzios, lia mãos e o desenho dos olhos, e desatou a falar que o menino não viria bom. “Tá atrasando pro meio do inverno”, dizia, “vem de coração gelado”. E de fato a criança escolhia a metade do mês de junho para romper seus cordões físicos com a mãe. Fez-se nascido no dia 26 ouvindo as dores contratórias de Gérbera, chorando junto com ela a alegria de ser novo no mundo. A velha vidente e parideira não demorou a lhe examinar, além de tudo, a sorte. “Bastardo de pai sumido”, ela dizia baixo, “que esperou pra cravar seu dia de nascimento no alto do inverno, sangue regelado”, e abria aquelas mãozinhas miúdas, dava luz em seus olhos, sussurrava orações em seus ouvidos. “Esse menino vai fazer muita gente chorar”, deu a sentença. Gérbera deu de ombros à velha caduca, que já não lhe preocupava o futuro sussurrado de más línguas, só queria a companhia do seu menino. Tão pequeno que pensava porque diabos lhe inchara tanto a barriga, porque lhe doera tanto ao parir. “Te encheu o bucho com seu azar”, a velha ainda falava, “azar dói até no corpo”, e o cômodo se aborreceu com o comentário. “Vai-te embora”, disse Dolores, mãe de Gérbera, contente pela vinda do primeiro neto, e deu o pagamento em comida para que a velha mesmo fosse. “Esse menino vai fazer muita gente chorar”, foi dizendo, e a casa fez o sinal da cruz pra espantar o mau agouro.

Pois não demoraram a perceber através dos dias que o pequeno cravava os olhos num horizonte desconhecido e o examinava atento, como se enxergando coisas que ninguém mais conseguia. Por fim entenderam que coisa nenhuma o menino via, nada de outro mundo e muito menos nada desse. E pela segunda vez fez chorar sua mãe, que lhe doía na carne a cegueira do filho, que nunca veria nada com seus olhos negros, já de luto. “A velha bruxa que fez isso”, quis ter culpa para colocar, mas vai ver que o menino tinha mesmo o sangue gélido que não lhe chegava aos olhos, que lhe cutucava as veias e tanto o fazia berrar em seus choros, apesar de molhinho ao colo. Deu-lhe, por fim, o nome de Benedito, num fio de desamparo tentando tirar dele o augúrio das maledicências que lhe proferiu a velha, repetindo que “é bendito pelos anjos”. A mãe da moça se agastava com a situação do neto e o amuo da filha. “Dei nome de flor pra saber desabrochar”, ela dizia, mas se mantinha queda, uma vez que era de todos a matriarca e precisava manter os ânimos da casa quando os parentes vinham para fazer bem-vindo o novo familiar. Como se conhecedora de seus pensamentos a moça dizia aos cantos que “as flores morrem quando fora de sua época, secam no inverno”. Mas como se para atenuar os receios da mãe, o menino cresceu independente, aprendendo rápido o caminho dos cômodos, a altura das camas e prateleiras, o local de repouso e dimensão dos objetos. Deveras que tinha em mente o cenário de sua vida montado, e mesmo nos passeios em que sua avó lhe movia parecia aprender rápido os melhores caminhos ou os mais usuais. “Bendito pelos anjos”, a mãe dizia.

Quando completado seis anos do dia derradeiro em que viera ao mundo, o mês era quente como nunca visto. As pessoas pelas ruas confabulavam preocupadas a que se dava aquele outono que se estendia ameno, de brisa calorosa batendo nos braços.  “Coisa boa que não é”, unia em coro a cidadela. Só destoava o discurso da vidente parideira que espalhava pelas esquinas suas proposições enigmáticas de que “a época das lágrimas se aproxima”. Gérbera, do dia de nascimento do filho, só se lembrava das dores. Quando ouviu as deliberações da velha de modo algum fez relação ao que a mesma já lhe dissera sobre choros, somente a tomou por desvairada. Mas a sentença já era antiga, dada naquele dia decisivo quando os ouvidos do pequeno ainda eram estéreis de saudações. As palavras que a velha profetava deveras iriam clarear sua mente em algum momento, como aconteceu num desses dias de inverno contrário e caloroso, de sol explodido, quando caminhavam ela e a mãe com Benedito. Fazia um domingo preguiçoso cheirando à água de colônia das senhoras que iam ao encontro da igreja, numa procissão de vestidos floridos e sapatos cor-de-rosa. Os homens aqui e ali se espalhavam pelos bares, jogavam cartas sob as árvores, em contraste com os mais novos que se penduravam nos murados para assistir às moçoilas pela rua. Abeirando a banca de jornal, ironicamente, três velhos cegos tomavam seu lugar de sempre num mocho, a contemplar o odor das folhas que nunca poderiam ler.

Enquanto Dolores se deleitava entre folhetos de canções e futrico, o menino foi ao encontro dos velhos, nunca hesitante nos passos, que sabia bem o que fazer. Os três se atentaram à aproximação silenciosa, que o tempo os fizera cuidadosos e a condição os fizera sapientes. E sob os olhos de toda a rua, interessada no encontro de vidas tão distantes, mesmo que tão condizentes, o menino puxou o braço de um dos velhos num convite para nivelar à sua altura. Quando feito, examinou o rosto vincado com as mãos suaves, num movimento sentido como um carinho dos anjos àquele fadado à solidão do fim da vida. Benedito procurou os olhos cravados fundos na face e com os dedos miúdos os apertou num minuto que imitava a pronta eternidade a que o outro estava fadado. Num receio o velho sentiu, além dos dedos finos e delicados que pressionavam as órbitas, um líquido brotar por entre os cílios. Ao perceber um fio de sangue que escorria de um dos olhos daquele, rendido às mãos do menino, Gérbera correu para impedir o iminente estrago. A rua se aquietara como nunca. Num momento de desperto dos acontecimentos, as moças da rua perceberam que nem mesmo os pássaros cantavam. Esperavam todos de olhos atentos, Dolores boquiaberta e Gérbera ao breve desespero, o momento em que o velho tombaria sua vida naquele chão de pedra quente. Mas pelo contrário, seus olhos se abriram para finalmente perceber o mundo no qual nascera há tantas décadas. Via Benedito com perfeição em sua frente, pequena criança ainda mal feita de mãos ensanguentadas, e tentou se ajoelhar sobre as pernas duras em agradecimento, enquanto suas lágrimas se misturaram ao sangue que pintava sua face. “Bendito pelos anjos” ele clamou, e a rua respondeu.

As senhoras coloridas, estancadas em seu caminho à igreja, proclamavam que “é um milagre”, alvoroçando ainda mais os cidadãos que agora não paravam quietos. Piavam feito aves caídas do ninho, o que chamou para fora o clérigo que preparava sua missa. O padre Serafim se sobressaltava com a narrativa das mulheres, a cada boca aumentando um ponto. “Brilhava feito uma criatura celeste”, diziam aqui, “os trompetes dos anjos soavam dos céus”, diziam acolá. Mas o sacerdote desconfiava, foi folhear a Bíblia e consultar as escrituras. Por fim, deu-se convencido que nada de angelical tinha o gesto, que aquilo parecia mais bruxaria que milagre, que o sangue sobrado no rosto dos viventes era a marca do diabo que nascera com o menino, e que os manchados, no fim, seriam levados junto com ele para o fogo. Porque deveras era isso o que acontecia: Benedito lhes sarava a cegueira como se tirasse um carrapato, mas dos olhos deles golfavam filetes de sangue para sempre ali impressos que, mesmo se limpos, voltavam a escorrer.

A notícia do pequeno milagreiro correu os campos próximos e dezenas de pessoas chegaram nos dias seguintes para que lhes fosse devolvida a vista. O padre deu de fazer vigília, tentava impedir a procissão que se formava em frente à casa de Gérbera clamando pelo “Benedito dos anjos”. Dolores retrucava em voz ativa que a criança lhes dava o bem da visão, e que se isso não fosse coisa divina nada mais seria. O padre levou coroinhas e senhoras da igreja à porta do menino, chamaram-no “Benedito das lágrimas”, benzeram a criança esperando que ela esperneasse ao estar livre dos maus espíritos, porém, ele continuou sereno em sua cadeirinha e sua sina. Gérbera, assim, teve os brios revoltados, que não permitia que aquela história de asneiras diabólicas fosse creditada, muito menos dada como sentença a seu filho que tantas pessoas fazia feliz naqueles dias. Mas o reboliço foi tanto, acusações e desafetos, que num grito de “bendito pelos anjos” Gérbera fechou a porta de casa para sempre para novos visitantes, e Benedito se calou e se fez fantasma da residência, um vulto incapaz de curar o próprio mal. E no afã de ter descoberto as suas asas no que é impedido de voar, definhou em sua existência, e fechou de vez seus olhos, calou sua voz de trompetes, para sempre sem palavras. A romaria em sua porta se desfez e foi refeita no que a cidade se viu cair nas penumbras da miopia. Seus olhos todos escureciam a luz do sol, à noite eram parte dela. A cidadela perambulou pelas ruas dentre o lixo e a sujeira de seus corpos, orando por milagre, chorando lágrimas comuns, dando trancos uns nos outros, tropeçando em muitos pés e mesmo em cães. Pouco a pouco cegaram enquanto clamaram por Benedito dos anjos, que já há tempos era o Benedito dos mortos, feito mártir, Benedito para sempre lembrado.

E até hoje, todos os dias, a cidade cega renasce para lamentar as dores que tão tarde entende.

 

Letícia Copatti Dogenski nasceu na cidade de Sananduva, no interior do Rio Grande do Sul, em 26 de junho de 1994. Desde cedo demonstrou interesse pela literatura, e mesmo nos primeiros anos de escola era clara sua afinidade com as palavras. Com 10 anos passou a escrever poesias, até mais tarde aventurar-se pelos romances e contos. É autora do romance “Onde as nuvens fazem sombra” (Autografia Editora, 2015) e do livro de contos “Previsões de Mau Signo”, desenvolvido numa plataforma digital. Atualmente reside na cidade de Passo Fundo, onde cursa Odontologia na Universidade de Passo Fundo (UPF)”.

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