Os quatro lados do anel de vidro

por Nathan Matos

Talvez não se desse bem conta mas ali começava um quadra nova, diferente de tudo que tinha vindo antes. Se melhor ou pior, difícil saber, as sensações surgindo às cambulhadas, rolando umas sobres as outras em moto-contínuo, subvertendo valores e sentimentos guardados anos a fio. Sovado pela aflição que já vinha de longe, foi tropeçando pelos dias sem muita ideia do que fazer nos períodos em que a empresa não tomava dele os últimos momentos, como dirigente comprometido com uma depuração que, pelo visto, poucos lá dentro queriam ver aprumada.

 

O trecho acima remete a uma das inúmeras passagens entrecortadas, recortadas, em Anel de vidro. Este diz respeito a um dos quatro personagens ‘principais’ do livro que se emaranham durante toda a narrativa.  O livro de Ana Luisa Escorel, publicado pela Ouro sobre Azul em 2014, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria livro do ano. Naquele momento, foi a primeira vez que uma mulher e uma editora pequena foram premiados.

Anel de vidro é mais um daqueles livros que pode ser deixado à parte para ser usado como exemplo de como uma boa escritora pode arquitetar uma história. Os elementos presentes em todo o livro, mais substancial quanto ao sentimento, ao olhar de cada um, são essenciais para percebermos como Escorel monta toda a sua história para avançar.

Contada de maneira a ter quatro vieses, quatro olhares, que se alternam e, ao mesmo tempo, se misturam, ficamos a saber da história de amor de dois casais, das individualidades que leva cada casal e cada indivíduo. Assim, aos poucos, vamos percebendo que nessa estrutura o que mantém firme é algo que parece ser encurtada, mas que não verdade só aumenta: a distância.

Parece-me que – apesar de estar presente em cada um dos personagens a solidão, certa depressão e amargura quanto à vida ou ao modo de viver – a distância é algo que não consegue ser encurtada entre eles mesmo quando o amor se faz presente, possibilitando que traições ocorram, não na tentativa de desestabilizar nenhum dos dois casais, mas na busca pela estabilização individual de cada um deles.

Talvez a não denominação dos personagens, lembrando um pouco Saramago, ocorra justamente para que o leitor possa se sentir mais apessoado a essa moça que vem de família rica, mas que acabou deixando seu ex-marido para ter uma nova vida que lhe desse sentido, que lhe pusesse a trabalhar todos os dias em uma grande empresa, ao lado de um marido que a respeita, ou que possamos sentir a solidão pela qual perpassa um grande diretor ou vice-presidente de uma empresa multinacional, sempre rodeado de pessoas, mas que mesmo quando presente em casa, ao lado da mulher e das filhas não se vê feliz.

Aparentemente, o leitor que busca uma certa complexidade em suas leituras ao ler alguma sinopse do livro Anel de vidro poderá vir a deixá-lo de lado por crer, erroneamente, que é apenas mais uma história de romance superficial. Terá sido enganado pela curta sinopse. Escorel é uma das poucas escritoras que consegue ter força e potência em sua escrita pela maneira que estrutura a obra.

Em apenas 4 capítulos (não terá sido à toa), cria fragmentos da vida desses indivíduos que se cruzam, dando novas percepções dos ocorridos. Para ilustrar o que digo, quando a traição ocorre, o que se passa depois é sempre movido a quatro olhares. Ficamos sabendo que o vice-presidente está a pensar e suas dúvidas se leva a funcionária de sua empresa para sua nova viagem, deixando a mulher doente para trás com as filhas, ou se fica e desiste de tudo, ou se não a leva e viaja sozinho; temos a dúvida da funcionária que não sabe o que achar dele, uma vez que acreditou que estava apaixonado assim como ela, e que já pensava em tê-lo como novo parceiro na vida; ou a visão da mulher doente, que afastada da cidade, se direciona à casa de familiares, no campo, para buscar melhoras na doença física, já que a dor sentimental é maior e também a derruba, principalmente quando o marido que fora traído pela funcionária a liga e a questiona se seu marido, o vice-presidente, está a dormir com sua mulher; ele desliga sem saber o que fazer, se toma como certeza a resposta da mulher traída ou se ele como homem traído confia nos seus instintos e larga sua mulher e o filho que ela trouxe consigo.

Dessa maneira, a profundidade existe no romance de Ana Luísa Escorel não reside apenas na criação dos personagens, se faz presente na narrativa, algo que, a meu ver, é complexo e possui certa dificuldade para manter uma narrativa tão constante e de ótima qualidade como ela faz. Os elogios a sua obra fazem jus, pois ela, apesar de ter escrito um outro livro, em 2010, de memórias, intitulado O pai, a mãe a filha, considera que Anel de vidro é o seu primeiro livro, por ser totalmente de ficção, onde tudo fora inventado, ao contrário do primeiro que tange à realidade. Mesmo sendo uma autora estreante na ficção, Escorel chegou para mostrar que a literatura brasileira ainda tem força e precisa ser descoberta. Em meio a tantos livros sem certa desenvoltura de autores estreantes ou experientes, o livro Anel de vidro veio para nos lembrar de que ainda sabemos o que fazer, ainda sabemos o que escrever e que a literatura brasileira vai nos batendo à porta com respeito.

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Resenha

Editor e criador do LiteraturaBr. É também editor da Revista, da Editora Substânsia e da Editora Moinhos. A literatura o salvou na adolescência, quinze anos depois ele ainda persiste no sonho.
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