Lygia caminha: (per)corre

Giovani Kurz

Qualquer discussão sobre arte brasileira contemporânea irá esbarrar em Lygia Clark. Ou: qualquer discussão sobre arte contemporânea irá lembrar de Lygia Clark.

O fato é que a artista mineira é um marco na produção da segunda metade do século XX. No Brasil, sim, claro; mas também fora dele.

Desde seus primeiros trabalhos, Lygia prova ser dona de uma inquietude, de uma angústia forte o bastante para fazer girar engrenagens até então intactas, propor conceitos ousados e inventivos: redefinir a Arte – que não existe, como Ernst Gombrich afirma, na primeira linha de seu célebre A História da Arte: o que existem são artistas.

Sob a influência de Burle Marx, Mondrian, Kandinsky e Léger, os primeiros trabalhos de Lygia Clark, na década de 1950 (nas séries Superfícies Modulares e Contra-Relevos), introduzem conceitos fundamentais, como a dissolução da moldura na obra, que ela chamará de linha orgânica. Dessa forma, Lygia afirma a necessidade de desalienar o espectador e buscar um público que faça parte da estrutura, parte de um fractal que o trabalho do artista já habita.

Depois das telas, Clark propõe a série Casulos, no final da década, em que o plano das telas dá lugar a formas tridimensionais, e, então, a série Bichos, grande ponto de virada no percurso da artista. Entre os anos de 1960 e 1964, Lygia Clark trabalha nesta série, que propõe a interação espectador-obra.

Contudo, a obra Caminhando, de 1964, é talvez a melhor síntese já produzida do conceito contemporâneo de arte. Depois de Andy Warhol, é preciso olhar para toda produção artística de maneira totalmente nova. A técnica já não ocupa papel central, e a crescente reprodutibilidade das obras provoca uma ressignificação de todo o contexto artístico. Walter Benjamin menciona a desfetichização da obra de arte, conceito que a performance, mais do que qualquer outra vertente, absorverá de maneira plena: um ato efêmero e único, irreprodutível, que tem como objetivo central provocar no espectador uma experiência estética (utilizando aqui uma perspectiva bakhtiniana de estética). Logo, Caminhando sintetiza as condições contemporâneas por tratar o público como parte da obra, que consiste em uma fita de Moebius, cola, tesoura. A proposta era cortar a fita em fitas cada vez menores, criando o que Lygia considera um espaço-tempo novo, concreto.

 

A partir de então, essa experiência estética, que Bakhtin chamará de responsabilidade ou respondibilidade, irá tornar-se central na obra de Lygia Clark. A exploração sensorial, em obras como A casa é o corpo e Máscaras sensoriais, reflete com precisão essa nova perspectiva da arte, que não mais se resume aos museus e galerias, mas se estende às ruas, ao espectador – que, inclusive, agora não mais é espectador, mas agente; não apenas nas obras de Clark, mas em diversas outras vertentes da produção artística contemporânea.

A arte – jamais com “A” maiúsculo – deve se estender, se multiplicar. Depois do século XVIII e suas revoluções, da Bauhaus, de Malevich, Pollock, Warhol e Duchamp é impossível acreditar que a melhor posição para o público é na de espectador, alienado, separado da obra pela moldura, pelo conhecimento, pela história ou pelas catracas.

As subsequentes rupturas de Lygia Clark são de importância fundamental para o conceito de arte contemporânea. Cada uma dessas rupturas, contudo, foi motivada e seguida de profunda dor e angústia, refletidas tanto nos trabalhos quanto nas entrevistas da artista. Clark transpirou inventividade, mesmo que dolorosa, desde sua juventude, ao lado de Hélio Oiticica e do Movimento Neoconcreto, até seus últimos dias, em Paris, já como professora de arte como terapia na Sorbonne.

É inegável, porém, que Lygia caminhou em uma direção essencial, incorporando obras e teóricos de diversas épocas e contextos, até chegar a esse espaço-tempo novo, concreto.

Em Significação de Lygia Clark, diz Mario Pedrosa:

“‘O que procuro’, dizia ela, numa profunda intuição da realização futura, ‘é compor um espaço’. Ela punha, assim, já então, um problema de escultor. O conceito de espaço, como o de realidade, sofreu em nossa época profunda alteração. Já não são conceitos estáticos ou passivos, nem no sentido literal ou mesmo cinético, nem no sentido subjetivo. Não se trata mais de um espaço contemplativo mas de um espaço circundante”.

 

 

 

Giovani Kurz nasceu e vive em Curitiba (1997). Estudante de Letras/Linguística na UFPR, estreou na poesia em 2014, com Nascente Periférico (Substânsia), bem como integrou a coletânea FLUPP Novos Poetas.12

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