Caçadas de pedrinho

por Nathan Matos

 

A caçada me parece ser algo inerente ao homem. Contudo, com o avançar das máquinas, com a disposição das ideias sendo realizadas, fomos, aos poucos, encontrando maneiras de criar animais e de fazê-los sofrer para que pudéssemos existir. Assim, não acredito que, atualmente, não sejamos pouco mais do que alguns milhares a realizar caças com o intuito de sobreviver. Talvez isso ocorra em países onde não há uma distribuição de renda melhor ou que deem à sua população mínimo básico para sobrevivência. Hoje, não somos mais exímios caçadores. Desaprendemos com a tecnologia e ficamos à mercê de tudo que nos rodeia.

Mas, em outros tempos, como no tempo em que existia o sítio de Dona Benta, isso ainda era possível de se realizar, mesmo que as cidades já estivessem muito bem desenvolvidas, como as grandes capitais brasileiras, a exemplo de São Paulo. Lá, ainda com a presença da floresta, era possível realizar caçadas magníficas, ainda mais se quem estivesse no comando fosse o neto de Dona Benta, Pedrinho.

É com uma caçada à onça que começa as Caçadas de Pedrinho ­– outrora publicada como A caçada da onça (1924) –, após Rabicó, o Marquês, vir até Pedrinho contar que uma onça estava a rodar o sítio. Daí pra frente o que se segue, na primeira metade do livro, é a arquitetação de um plano que, a princípio, não ter cabimento algum, uma vez que duas crianças, um porco, uma boneca falante e um sabugo de milho, que é Visconde, irão atrás de uma das onças mais perigosas da floresta para matá-la. É algo que pode ser levado como uma brincadeira, já que é quase impossível esse bando matar um animal tão perigoso.

caçadas de pedrinho

Mas conhecendo o mundo fabuloso de Lobato, quem nunca o leu, irá se espantar. Depois de todos acordarem com o plano de Pedrinho, menos o Rabicó, que preferia ser morto e assado ao forno, “com rodelas de limão em redor e um ovo cozido na boca…”, ao invés de ser comido pela onça, foram atrás do rastro da danada para tirarem-lhe a vida.

Todos estão armados, a seus olhos, de maneira mais que eficiente, Pedrinho leva consigo uma espingarda fabricado por ele mesmo, mas que dispara através de um elástico; Rabicó carrega consigo um canhãozinho, fabricado por Pedrinho, mas que de nada nos convence; Visconde de Sabugosa está com uma espada feita por Pedrinho, feita do arco de um barril, que não consegue ficar rija, estando a todo momento torta; já Emília e Narizinho parecem ser as únicas que sabem em que perigo estão se metendo, pois a boneca leva consigo um espeto, e a neta de Dona Benta leva uma faca de cortar pão, sendo um “instrumento mestiço de faca e serrote”.

Sendo assim, eles partem para o meio da floresta, acham a onça e começam a ‘guerra’. O leitor começa a ficar temeroso, pois perceber que não é possível travarem uma árdua batalha com a onça, já que eles não conseguem nada de início e têm de correr para uma árvore onde o felino não os alcance. Ficando sem saber o que fazer.

O que me chocou foi que na história a onça realmente morre. O livro, editado pela Globo Livros, traz ilustrações belíssimas de quatro ilustradores que, ao longo do tempo, participaram de obras de Lobato. E, talvez por acompanhar a história também pelos desenhos, fiquemos sem acreditar que foi possível o Visconde, com uma das armas inúteis do bando tenha conseguido, depois de várias tentativas, o narrador deixa isso claro, enterrar a espada no peito da onça. Depois disso, todos acabam por atacarem a onça, conseguindo matá-la.

Por um instante, parei a leitura e me pus a reler o parágrafo em que isso ocorre.

O Visconde conseguiu, depois de várias tentativas, enterrar-lhe no peito o seu sabre de arco de barril. Emília fez o mesmo com o espeto de assar frango. Pedrinho macetou-lhe o crânio com a coronha da sua espingarda. Até Rabicó perdeu o medo e depois de carregar de novo o canhão deu-lhe um bom tiro à queima-roupa.

Assim sendo, a onça morre, e, provavelmente, vá chocar alguns leitores, pois é uma cena que pode ser considerada totalmente brutal, devido à crueldade das crianças e de seus amigos. Seria então essa história própria para contar às crianças antes de dormir ou durante um momento de lazer?

Minha resposta é que sim. O mundo de Lobato não é verdadeiro, tudo é ficção, mas serve perfeitamente para realizarmos várias metáforas em relação à vida que vivemos e que nos rodeia. Talvez em todo o livro este seja o parágrafo mais ‘cruel’. Mas é interessante não julgar a obra e seu autor, principalmente, por essa única passagem. O contexto em que o livro fora escrito era outro e a sociedade também era outra totalmente diferente da de agora. Ler histórias assim para crianças é mostrar-lhes parte da nossa cultura literária e de nossa sociedade, fechar os olhos para isso é querer se eximir da realidade.

Se pararmos para analisar mais detidamente, quando eles voltam para casa, Dona Benta não consegue adivinhar o que mataram, e antes que acerte que foi uma onça afirma que não acredita que teriam matado nem uma capivara, ou um porco-do-mato, ou uma paca. Até mesmo os animais da floresta não acreditam, já que vários caçadores de diversas regiões dali já haviam vindo à procura dessa onça que já havia causado vários outros estragos. Será possível, realmente, que mataram ele uma onça? Poderia sugerir que tudo não passara de imaginação, que aquilo foi algo forjado pela mente das crianças daquele grupo. Mas então teríamos que entender por quais motivos Tia Nastácia e Vovó Benta veem, com seus próprios olhos, a onça mortinha.

Isso seria um bom argumento de que sim, eles mataram a onça, até mesmo porque há uma revolta na floresta e todas as onças restantes, jaguatiricas e lobos-do-mato vêm para comer todos do Sítio, como vingança. E eu hei de concordar, mataram a onça realmente. Mas isso mostra que Lobato é um autor que não merece ser lido? Que as aventuras de Pedrinho não merecem ser contadas?

Continuando a história, chegaremos até a história em que um rinoceronte foge de um circo e se embrenha nas matas brasileiras. Parece mentira, avisa o narrador, mas Pedrinho, após matar a onça e vencer, com ajuda de Emília, todos os animais que vieram para comê-los, fica com mais vontade de caçar. E queria caçar muito mesmo um paquiderme, e como diz o narrador, assim sendo, apareceu um rinoceronte para Pedrinho caçar.

E assim aconteceu. Parece fábula, parece mentira do Barão de Munchausen, e no entanto é a verdade pura: os netos de Dona Benta caçaram um rinoceronte de verdade!…

Se o leitor ainda acredita que tudo é verdade, com esse leitor não pode haver mais discussão. Diante da enormidade do país, um circo chega ao Brasil, no Rio de Janeiro, e tem um rinoceronte fugido. Ele, depois de um mês sem notícias, resolve assentar nos arredores do Sítio do Pica-Pau Amarelo, logo onde o neto de Dona Benta queria tanta que existisse um rinoceronte pra caçar. Realidade ou apenas um mundo fabuloso criado por Lobato?

Além disso, ainda há as críticas na obra de Lobato que merecem ser também desveladas aos mais jovens e serve também de alerta para os mais velhos, uma vez que Caçadas de Pedrinho não é um livro feito apenas para crianças. Toda a aventura e o suspense envolvidos na história através do tom coloquial do narrador nos aproxima das situações narradas, fazendo com que estivéssemos quase que presentes ao lado da turma do Sítio, como Cléu, amiga de Emília, esteve.

A crítica mais feroz é quanto ao governo. Tendo o rinoceronte fugido, foi criado um Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, que era composto por

Um importante chefe geral do serviço, que ganhava três contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um, afora grande número de datilógrafas e “encostados”. Essa gente perderia o emprego se o animal fosse encontrado, de modo que o telegrama de Dona Benta os aborreceu bastante.

Esse departamento, chefiado por um detetive denominado X B2, e que havia todas as histórias de Sherlock Holmes, só evidencia a lentidão e falta de compromisso que os funcionários públicos brasileiros, na época (e também agora), tinham com seus afazeres diários. Quanto mais demorassem para realizar seus trabalhos melhor, e quanto mais burocráticos fossem mais agradável seria, pois assim podiam ficar a tocar violas ao invés de se preocupar em atravessar um pequeno espaço de terra para ir falar com Dona Benta. Foi preciso que o Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, esperasse um mês para a vinda do material de construção para erguerem fios telefônicos que iam da cerca da frente da casa de Dona Benta até a porte de entrada de sua casa, uma vez que o rinoceronte se deitava no meio do caminho uma vez por dia, todos os dias, às três horas da tarde.

A obra de Lobato, portanto, é permeada não apenas de neologismos ou onomatopeias, ela também se faz da mais pura ironia e da mais ferrenha crítica. Apesar de vários pontos de sua vida terem vindo à tona nos últimos anos, que mostram que ele não teria sido uma persona agradável, a sua literatura está permeada por pontos relevantes e importantes para a nossa literatura e para entendermos melhor a sociedade. É óbvio que vários e escritores sempre irão levar consigo, no momento da escrita, algo que ocorreu com eles na vida pessoa, mas isso não nos impede de buscar analisar a obra separadamente do escritor.

Dessa forma, Caçadas de Pedrinho é um livro que merece um lugar na estante de toda e qualquer biblioteca, ainda mais se vier cheia de ilustrações, como as que Wiese, Villin, J. U. Campos e André Le Blanc realizaram para alguns dos livros de Monteiro Lobato. Que a nossa vontade de melhorar o que nos revolve não fique apenas na censura a algumas obras literárias, mas que a partir delas possamos realizar ações que nos transformem e que transformem, principalmente, nossas crianças e nossas ‘gentes grandes’.

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Literatura Infantil

Editor e criador do LiteraturaBr. É também editor da Revista, da Editora Substânsia e da Editora Moinhos. A literatura o salvou na adolescência, quinze anos depois ele ainda persiste no sonho.
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  • paulohcsouza
    29 março 2016 at 10:31 am

    Olá,
    Este livro só me faz me recordar da minha infância. Minha avó tinha a coleção completa do Monteiro Lobato em capa dura de uma versão bem antiga. Eu lembro que o que mais gostava de ler era este do Caçadas de Pedrinho, ele me inspirou a fazer muita bagunça na rua.
    Muito bom o post, parabéns!
    Abraços.
    http://www.pontoparaler.com.br

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  • LiteraturaBr
    17 setembro 2016 at 5:07 pm

    Oi, Paulo, eu li pouquíssimo na infância Lobato, acho que só passei páginas mesmo. Mas descobri-lo já adulto tem sido algo muito bom!

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