Entrevista com Marco Severo

Literatura Br – Marco, você lançou seu primeiro livro há alguns meses, qual a sensação? Marco Severo – A sensação é a de um desafio vencido. Desafio em seus...

Literatura Br – Marco, você lançou seu primeiro livro há alguns meses, qual a sensação?

Marco Severo – A sensação é a de um desafio vencido. Desafio em seus mais amplos sentidos. O primeiro sendo o de vencer a autocrítica e achar que os textos são publicáveis e que encontrariam leitores. Além desse, há outros menos óbvios, mas tão importantes quanto: participar de todo o processo de edição do livro, que é algo de grande complexidade; participar ativamente da divulgação e rezar aos deuses da literatura para que o livro encontre seu caminho. Até agora, tem funcionado.

 

LBR – Os Escritores que eu matei é um livro de crônicas, que é um gênero, atualmente, pouco publicado. Qual tua relação com esse tipo de texto e como você vê a publicação de livros de crônicas no Brasil atualmente?

MS – Eu discordo que o gênero crônica tem sido pouco publicado. Historicamente, a crônica é um gênero de altos e baixos no Brasil. Viveu seu auge entre a década de 40 e 60, quando grandes escritores brasileiros, como Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta e Fernando Sabino publicavam suas crônicas em jornais e daí em livros. Depois, arrefeceu, ressurgindo nos anos 80 com Luis Fernando Verissimo. De lá pra cá, outros autores têm atingido reconhecimento e sucesso, tais como Antonio Prata, Gregorio Duvivier, Fernanda Torres, Vanessa Barbara, Claudia Tajes e a de maior sucesso de todos, Martha Medeiros, com centenas de milhares de exemplares vendidos. Há toda uma geração de novos cronistas em atividade, publicando muito e sendo amplamente lidos. Pra não falar dos muitos escritores clássicos do gênero que têm sido reeditados nos últimos anos, como Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto e o já mencionado Rubem Braga.

O que ocorre é que outros gêneros sempre venderam mais e tiveram mais notoriedade. Mas isso faz sentido: produz-se muito mais ficção e poesia, por exemplo, do que crônica. Eu mesmo não achei, lá na adolescência, quando comecei a escrever, que iria enveredar pela crônica, mesmo sendo leitor do gênero desde que me lembro enquanto leitor.

Acho que a crônica tem sido muito bem representada no Brasil, e se pensássemos nos vários cronistas que tivemos e temos, tenho certeza de que este país possui a representação mais bonita e complexa deste gênero.

 

LBR – Nos teus textos há, vez ou outra, certa ironia que tem a intenção de alfinetar alguns escritores ou obras. Em algum momento você achou que a editora poderia solicitar que esses trechos fossem retirados?

MS – É um risco que se corre. Mas tivesse sido este o caso, não haveria livro. Eu alfineto escritores, obras, o mundo editorial e provoco o próprio leitor. E tudo isso sem grosseria, é uma alfinetada – para usar sua definição – para provocar uma reflexão. E essa é parte da minha voz dentro do texto. Tanto que o que mais tenho ouvido dos leitores é que, ao ler o livro, as pessoas têm a impressão de estarem conversando comigo – e recebo este comentário dos que me conhecem e dos que não me conhecem. E isso, por si só, é uma dádiva.

 

LBR – Repete-se, quase que insistentemente, que no Brasil não temos leitores. Em contrapartida, a cada ano, o número de livros vendidos no país aumenta. Somos realmente um país de não leitores?

MS – O que seria um país de leitores? Um país onde se vende muito livro de ficção, crônica, poesia? Porque se o critério for este, os números demonstram o contrário. Então, há de se pensar sobre a quem interessa repercutir em toda parte e o tempo todo que não se lê no Brasil. Eu nunca vi a juventude lendo tanto. É provável que alguns tombem pelo caminho, mas grande parte deles chegará à vida adulta lendo, porque adquiriram o gosto pela leitura cedo, e o corpo, eu diria até que a alma, pede a repetição daquilo que nos dá prazer, e a gente sabe que a leitura é algo que vai para muito além do prazer.

 

LBR – As editoras independentes ou as pequenas editoras têm assumido uma posição importante nesses últimos cinco anos no mercado editorial brasileiro. Você publicou seu primeiro livro por uma editora do Ceará, isso acaba, de alguma maneira, impossibilitando que os leitores não tenham acesso ao seu livro?

MS – Certamente, porque é difícil fazer o livro chegar aos leitores de maneira mais ampla. E as grandes livrarias não colaboram, fazendo exigências incabíveis para manter alguns exemplares dos livros de editoras independentes em suas prateleiras. É um sistema complexo, que hoje, porém, tem o grande e irrefutável auxílio das redes sociais. Há exemplares do meu livro em diversos estados, porque a divulgação pelas redes sociais alavancou a possibilidade de fazê-lo chegar onde, sem ela, dificilmente ele chegaria, porque as pessoas nem saberiam de sua existência. E a internet faz esse serviço de encurtamento de distâncias eximiamente.

 

LBR – A literatura, fica nítido nos temas de tuas crônicas, tem um papel importantíssimo na tua vida. Em que momento você começou a se ver como escritor?

MS – Eu me vejo primeiramente como professor de inglês, porque é o que me possibilita viver em toda a plenitude possível. Nesse sentido, o “ser escritor” é algo muito subjetivo. Sempre escrevi e penso que sempre escreverei, porque o ato em si mesmo é imprescindível pra mim, é meu alimento. O que não significa que sempre publicarei. Escrever é parte da minha substância.

 

LBR – Falando nas redes sociais, você possuía um blog onde postava resenhas e seus próprios textos. Suas crônicas, várias delas, foram publicadas, primeiramente, na internet. Como foi pra você ver esse caminho percorrido? Escrever ‘despretensiosamente’ e, de repente, estar com um livro em mãos?

MS – Houve um processo de amadurecimento. Inicialmente, eu jamais pensei em reuni-las em livro, mas quando o convite da editora Substânsia surgiu, e à medida que o projeto tomou forma, começou também a ganhar uma seriedade – mais no sentido da preocupação do que da forma – que antes não havia. O blog é interessante porque permite percorrer esse caminho da maturidade, faz com que o escritor olhe para os seus textos – ou antes mesmo do texto, suas ideias – de maneira mais sóbria. O blog tem a tendência a ser um negócio meio avestruz, que tende a engolir e aceitar qualquer coisa. Uma vez que se recebe o convite para ver o texto impresso, torna-se importante vislumbrar aquilo que efetivamente deve ir para o papel, e como ele deve fazer esse caminho. No caso da crônica, por se tratar de um registro de um momento, é interessante que cheguem às tintas aquelas que podem até ter datas, mas que possuem características mais atemporais, cujas reflexões nunca deixam de ser pertinentes.

 

LBR – Há uma diferença então entre o escritor Marco Severo e o professor de inglês? Como é essa relação?

MS – Naturalmente. O professor Marco Severo é profundamente comprometido com horários, com os pagamentos no final do mês, com a criação para um fim – em outras palavras, com a preparação de aulas. O escritor Marco Severo tem um único compromisso: o de escrever da melhor forma que puder. Eu não estou preocupado em pagar contas, nem com o passar das horas – essas são obrigações do professor Marco Severo, que é quem paga as contas e mantém o escritor uma espécie de outro ser vivente possível.

 

LBR – Já possui algum outro projeto em vista ou pretende trabalhar mais na divulgação do Os escritores que eu matei?

MS – Uma coisa não deixa de estar atrelada à outra. Tornar Os escritores que eu matei mais lido e conhecido é sempre um objetivo, porque é uma obra que eu aprecio, um livro que, em sua unidade, me deixa bastante contente, especialmente por conta de todo o retorno que venho tendo dos leitores nestes últimos meses – e repito sempre que, para mim, a graça da literatura é permitir essa troca entre o escritor e o leitor, o leitor e outros leitores, formar novas ideias, confrontá-las, colocá-las em prática. O poder transformador da literatura reside nisso também. Enquanto isso, estou escrevendo meu próximo livro, que será de contos, um gênero pelo qual sou fascinado.

 

LBR – É possível viver de literatura no Brasil?

MS – Depende do que considerarmos viver de literatura. Se quisermos dizer com isso viver da venda de livros, eu diria que efetivamente, não. Até mesmo os nomes que frequentam as listas de best-seller, como Paulo Coelho e Augusto Cury, parecem ter visto seus nomes, antes tão difundidos, agora menos populares. Se Paulo Coelho tivesse de viver apenas das suas vendas de livros por aqui, com certeza teria de desenvolver alguma atividade em paralelo para manter suas contas pagas mês a mês.

Agora, se você se refere a “viver de literatura” como aquela pessoa que consegue desempenhar inúmeras atividades voltadas para a literatura e ganhar dinheiro em cima disso, aí, evidentemente que sim. Com o advento das muitas feiras e festas literárias pelo país, com os eventos que, bem ou mal, são patrocinados pelo governo, com as pessoas se movimentando para difundir o livro e a leitura, está cada vez mais claro que literatura é um comércio bastante lucrativo. E a pessoa sequer precisa ser escritor para isso.

Mas se tomarmos como exemplo a figura do escritor no Brasil (e na maior parte do mundo, já que os contratos milionários estão desabando e a parcela de escritores que ganha mais dinheiro do que poderia gastar em uma vida apenas para escrever está cada vez mais exígua), é possível, sim, desde que ele tenha em mente que precisa abdicar muito para conseguir dar conta. Vai ser um ir-e-vir sem fim para feiras e outros eventos, curso de “escrita criativa”, palestras pagas; além de muita coragem para abraçar a carreira e viver unicamente dos seus livros e do fazer literário.

 

LBR – Pra gente acabar, um autor e um livro.

MS – Philip Roth e seu Patrimônio.

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